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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– Se você tivesse nos contado por sua livre e espontânea vontade, teria sido uma coisa diferente – disse o baronete. – Você só nos contou, ou melhor, sua mulher nos contou, quando você foi obrigado e não pôde evitar.

– Eu não pensei que os senhores fossem se aproveitar disso, sir Henry, realmente não pensei.

– O homem é um perigo público. Há casas isoladas espalhadas pelo pântano, e ele é um sujeito que não se detém diante de nada. Basta olhar para o rosto dele para se compreender isso. Veja, a casa do sr. Stapleton, por exemplo, sem ninguém a não ser ele próprio para defendê-la. Não há segurança para ninguém até que ele esteja trancado a sete chaves.

– Ele não vai invadir casa nenhuma, senhor. Dou-lhe a minha palavra de honra quanto a isso. Ele nunca mais incomodará ninguém neste país outra vez. Garanto-lhe, sir Henry, que dentro de muito poucos dias os arranjos necessários serão concluídos e ele estará a caminho da América do Sul. Pelo amor de Deus, senhor, peço-lhe para não deixar a polícia saber que ele ainda está no pântano. Eles desistiram da busca aqui, e ele pode ficar escondido quieto até poder embarcar. O senhor não pode denunciá-lo sem causar problemas para mim e para minha mulher. Peço-lhe, senhor, para não dizer nada à polícia.

– O que você acha, Watson?

Eu encolhi os ombros. – Se ele realmente saísse do país, isso aliviaria os contribuintes de um fardo.

– Mas e quanto à possibilidade de ele assaltar alguém antes de ir embora?

– Ele não faria uma loucura dessas, senhor. Fornecemos a ele tudo que ele possa precisar. Cometer um crime seria revelar onde ele está escondido.

– Isso é verdade – disse sir Henry. – Bem, Barrymore...

– Deus o abençoe, senhor, e obrigado do fundo do meu coração! Se ele fosse preso outra vez, isso mataria minha pobre mulher.

– Imagino que estamos ajudando e favorecendo um crime, Watson. Mas depois do que ouvimos, acho que não posso entregar o homem, portanto, está encerrado. Está bem, Barrymore, você pode ir.

Com algumas palavras entrecortadas de gratidão o homem se virou, mas hesitou e então voltou.

– O senhor foi tão bom para nós que eu gostaria de fazer o máximo para o senhor em retribuição. Eu sei uma coisa, sir Henry, e talvez devesse tê-la dito antes, mas foi muito depois do inquérito que eu a descobri. Eu ainda não disse uma palavra sequer sobre isso a ninguém. É sobre a morte do pobre sir Charles.

O baronete e eu ficamos de pé. – Você sabe como ele morreu?

– Não senhor, isso eu não sei.

– O que é, então?

– Eu sei por que ele estava no portão àquela hora. Foi para se encontrar com uma mulher.

– Encontrar-se com uma mulher? Ele?

– Sim, senhor.

– E o nome da mulher?

– Não posso dar-lhe o nome, senhor, mas posso dar-lhe as iniciais. As iniciais dela eram L.L.

– Como você sabe disso, Barrymore?

– Bem, sir Henry, o seu tio recebeu uma carta naquela manhã. Ele costumava receber muitas cartas, porque ele era um homem público e conhecido pelo seu coração bondoso, de modo que todo mundo que estava com problemas gostava de recorrer a ele. Mas naquela manhã, por acaso, havia apenas esta carta, de modo que reparei mais nela. Vinha de Coombe Tracey, e estava endereçada com letra de mulher.

– Bem?

– Bem, senhor, não pensei mais no assunto, e nunca teria pensado se não fosse por minha mulher. Algumas semanas atrás ela estava limpando o escritório de sir Charles – ele nunca fora mexido desde a sua morte – e encontrou as cinzas de uma carta queimada no fundo da grade. A maior parte dela estava carbonizada, mas uma pequena tira, o fim de uma página, ficou inteira, e o que estava escrito ainda podia ser lido, embora estivesse cinzento num fundo preto. Parecia ser um pós-escrito no fim da carta, e dizia: “Por favor, como o senhor é um cavalheiro, queime esta carta e esteja no portão às 22 horas.” Embaixo estavam assinadas as iniciais L.L.

– Você tem essa tira?

– Não, senhor, ela esfarelou-se depois que mexemos nela.

– Sir Charles recebeu alguma outra carta com a mesma letra?

– Bem, senhor, eu não prestava muita atenção às suas cartas. Eu não notaria esta se por acaso ela não tivesse chegado sozinha.

– E você não tem nenhuma idéia de quem seja L.L.?

– Não, senhor. Mas tenho esperança de que, se pudermos encontrar essa dama, saberemos mais sobre a morte de sir Charles.

– Não consigo compreender, Barrymore, como você escondeu esta informação importante.

– Bem, senhor, isso foi logo depois que tivemos aquele nosso próprio problema. E também, senhor, nós dois gostávamos muito de sir Charles, considerando tudo que ele tinha feito por nós. Revolver isto não iria ajudar nosso pobre patrão, e é bom ter cuidado quando há uma dama envolvida no caso. Mesmo o melhor de nós...

– Você achou que isso poderia prejudicar a reputação dele?

– Bem, senhor, achei que nada de bom podia resultar disso. Mas agora o senhor foi bom para nós, e achei que estaria sendo injusto com o senhor se não lhe contasse tudo que sei a respeito.

– Muito bem, Barrymore, pode ir. – Depois que o mordomo saiu, sir Henry virou-se para mim. – Bem, Watson, o que você acha desta nova informação?

– Parece que ela deixa a escuridão mais negra do que antes.

– Também acho. Se pelo menos conseguíssemos identificar L.L., isso poderia esclarecer a coisa toda. Teríamos avançado um pouco. Sabemos que há uma pessoa que conhece os fatos, basta encontrá-la. O que você acha que devemos fazer?

– Comunicar isso tudo imediatamente a Holmes. Isso dará a ele a pista que vem procurando. Ou eu muito me engano, ou isso fará com que ele venha para cá.

Fui imediatamente para o meu quarto e fiz o relatório da conversa da manhã para Holmes. Era evidente para mim que ele estivera muito ocupado ultimamente, porque os bilhetes que recebi de Baker Street eram poucos e curtos, sem nenhum comentário sobre as informações que eu havia fornecido e raras referências à minha missão. Sem dúvida o seu caso de chantagem está exigindo todo o seu talento. Mesmo assim, este novo fator certamente atrairá sua atenção e renovará o seu interesse. Gostaria que ele estivesse aqui.

17 de outubro. – Caiu uma chuva forte hoje o dia inteiro, fazendo a hera farfalhar e pingando dos beirais. Pensei no condenado lá no pântano, frio e sem abrigo. Pobre-diabo! Quaisquer que fossem os seus crimes, ele havia sofrido o bastante para expiá-los. E depois pensei naquele outro, o rosto do cabriolé, o do vulto contra a lua. Será que ele também estaria lá fora naquele dilúvio, o vigilante invisível, o homem da escuridão? À noite, vesti o meu impermeável e dei uma longa caminhada pelo pântano encharcado, cheio de pensamentos sombrios, com a chuva batendo no meu rosto e o vento assobiando nos meus ouvidos. Que Deus ajude àqueles que vagam pelo grande pântano agora, porque até as terras altas firmes estão se transformando em atoleiro. Encontrei o pico rochoso preto sobre o qual vira o vigilante solitário, e do seu cume irregular olhei para as depressões melancólicas. Pancadas de chuva passavam pela sua superfície avermelhada, e as nuvens pesadas, cor de ardósia, pairavam baixas sobre a paisagem, cobrindo com espirais cinzentas os lados das colinas fantásticas. Na depressão distante à esquerda, meio escondidas pela neblina, as duas torres finas da Mansão Baskerville surgiam sobre as árvores. Elas eram os únicos sinais de vida humana que eu podia ver, com exceção apenas daquelas cabanas pré-históricas que se aglomeravam nas encostas das colinas. Em parte alguma havia qualquer sinal daquele homem solitário que eu vira no mesmo lugar duas noites antes.

Quando caminhava de volta, fui alcançado pelo dr. Mortimer, que conduzia a sua charrete por uma trilha irregular do pântano que saía da casa de fazenda isolada de Foulmire. Ele tem sido muito atencioso conosco, e passa quase todos os dias na Mansão para saber como estamos indo. Ele insistiu para que eu subisse na charrete e me deu uma carona até em casa. Achei que ele estava muito perturbado pelo desaparecimento do seu pequeno spaniel. Ele havia fugido para o pântano e não voltara. Consolei-o como pude, mas pensei no pônei no charco de Grimpen, e imagino que ele não verá o seu cachorrinho outra vez.

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