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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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Ouvimos quando ele passou por nós muito furtivamente até desaparecer na distância. Depois o baronete abriu sua porta devagar e partimos em perseguição. O nosso homem já havia contornado a galeria, e o corredor estava todo escuro. Seguimos em frente com cuidado até alcançarmos outra ala. Chegamos bem a tempo de ver de relance um vulto alto, de barba preta, com os ombros curvos, enquanto ele seguia pé ante pé pelo corredor. Depois ele passou pela mesma porta de antes, e a luz da vela o emoldurou na escuridão e lançou um único raio amarelo através do corredor sombrio. Seguimos furtivamente na direção dele, experimentando cada tábua do assoalho antes de nos atrevermos a pôr todo o nosso peso sobre ela. Havíamos tomado a precaução de tirar as botas, mas, mesmo assim, as velhas tábuas gemeram e estalaram sob os nossos passos. Algumas vezes parecia impossível que ele deixasse de ouvir a nossa aproximação. Mas, felizmente, o homem é bastante surdo e estava inteiramente concentrado no que fazia. Quando finalmente chegamos à porta e olhamos para dentro, vimos que ele estava agachado junto à janela, com a vela na mão, o rosto branco e atento comprimido contra a vidraça, exatamente como eu o vira duas noites antes.

Não tínhamos combinado nenhum plano de ação, mas o baronete é um homem para quem a maneira mais direta é sempre a mais natural. Ele entrou no quarto e, ao fazer isso, Barrymore deu um salto, com um silvo agudo da respiração, e ficou de pé, lívido e tremendo diante de nós. Seus olhos escuros, brilhando na máscara branca do seu rosto, estavam cheios de horror e espanto ao olharem fixamente de sir Henry para mim.

– O que você está fazendo aqui, Barrymore?

– Nada, senhor. – Sua agitação era tão grande que ele mal podia falar, e as sombras saltavam para cima e para baixo com o tremor da sua vela. – Era a janela, senhor. Eu revisto à noite para ver se todas as janelas estão bem fechadas.

– No segundo andar?

– Sim, senhor, todas as janelas.

– Olhe aqui, Barrymore – disse sir Henry com severidade. – Nós decidimos arrancar a verdade de você, de modo que evitará problemas para você se contar o mais rápido possível. Vamos, agora! Nada de mentiras! O que você estava fazendo nessa janela?

O sujeito olhou para nós com uma expressão desamparada e torceu as mãos como alguém que está no auge da dúvida e da aflição.

– Eu não estava fazendo nada de errado, senhor. Estava segurando uma vela perto da janela.

– E por que você estava segurando uma vela junto à janela?

– Não me pergunte, sir Henry, não me pergunte! Dou-lhe minha palavra, senhor, que o segredo não me pertence e que não posso contá-lo. Se ele não dissesse respeito a ninguém, só a mim mesmo, eu não tentaria escondê-lo do senhor.

Uma idéia súbita ocorreu-me, e tirei a vela da mão trêmula do mordomo.

– Ele devia estar segurando-a como um sinal – disse eu. – Vamos ver se há alguma resposta. – Ergui-a como ele tinha feito e fiquei olhando para a escuridão da noite lá fora. Pude perceber vagamente a massa negra das árvores e a extensão mais clara do pântano, porque a lua estava atrás das nuvens. E então dei um grito de regozijo, porque um ponto minúsculo de luz amarela atravessou de repente o véu escuro, e brilhava firmemente no centro do quadrado negro emoldurado pela janela.

– Lá está ela! – exclamei.

– Não, não, senhor, isso não é nada, absolutamente nada! – interrompeu o mordomo. – Garanto-lhe, senhor...

– Mexa a vela de um lado para o outro, Watson! – exclamou o baronete. – Viu, a outra também se move! Agora, seu patife, você nega que isso seja um sinal? Fale, vamos! Quem é o seu cúmplice lá fora, e que conspiração é esta que vem ocorrendo?

O rosto do homem adquiriu uma expressão de desafio.

– Isso é assunto meu, e não seu. Não direi.

– Então você está despedido já.

– Muito bem, senhor. Se tenho de sair, sairei.

– E você sai desacreditado. Com os diabos, você devia ter vergonha de si mesmo. Sua família viveu com a minha durante mais de cem anos sob este teto, e eu encontro você aqui metido em alguma trama misteriosa contra mim.

– Não, não senhor; não, não contra o senhor! – Era uma voz de mulher, e a sra. Barrymore, mais pálida e mais horrorizada do que o marido, estava parada na porta. Sua figura volumosa envolta num xale e numa saia seria cômica se não fosse a intensidade da emoção no seu rosto.

– Temos de ir, Eliza. Isto é o fim de tudo. Você pode arrumar nossas coisas – disse o mordomo.

– Oh, John, John, levei você a isto? A culpa é minha, sir Henry, toda minha. Ele não fez nada, a não ser para mim, e porque eu pedi.

– Fale, então! O que significa isso?

– Meu infeliz irmão está morrendo de fome no pântano. Não podemos deixá-lo morrer em nossos próprios portões. A luz é um sinal para ele de que a comida está pronta, e a luz dele lá fora é para indicar o lugar para onde levá-la.

– Então o seu irmão é...

– O condenado fugido, senhor – Selden, o criminoso.

– Essa é a verdade, senhor – disse Barrymore. – Eu disse que o segredo não me pertencia e que eu não podia contá-lo ao senhor. Mas agora o senhor o ouviu, e verá que se existe uma trama, ela não é contra o senhor.

Esta, então, era a explicação das expedições furtivas à noite e da luz na janela. Sir Henry e eu ficamos olhando espantados para a mulher. Seria possível que esta pessoa imperturbavelmente respeitável tivesse o mesmo sangue que um dos criminosos mais notórios do país?

– Sim, senhor, meu nome era Selden, e ele é meu irmão caçula. Nós o mimamos demais quando ele era menino, e cedemos a ele em tudo até que ele passou a pensar que o mundo fora feito para o prazer dele, e que podia fazer o que quisesse nele. Depois, quando ele cresceu, se meteu com más companhias, e ficou com o diabo no corpo até partir o coração da minha mãe e arrastar o nosso nome na sarjeta. De crime em crime ele afundou cada vez mais, até que só a misericórdia de Deus livrou-o do cadafalso; mas para mim, senhor, ele foi sempre o garotinho de cabelos anelados que criei e com quem brinquei, como uma irmã mais velha faria. Foi por isso que ele fugiu da prisão, senhor. Ele sabia que eu estava aqui e que não iria recusar-me a ajudá-lo. Quando ele se arrastou até aqui uma noite, cansado e esfomeado, com os guardas nos seus calcanhares, o que podíamos fazer? Nós o recebemos, alimentamos e cuidamos dele. Depois o senhor voltou, e meu irmão achou que ficaria mais seguro no pântano do que em qualquer outro lugar até passar o clamor público, de modo que ficou escondido ali. Mas de duas em duas noites nós nos certificávamos de que ele ainda estava lá pondo uma luz na janela e, se houvesse resposta, meu marido levava um pouco de pão e carne para ele. Cada dia esperávamos que ele tivesse ido embora, mas enquanto ele estivesse ali, não podíamos abandoná-lo. Essa é toda a verdade, já que sou uma mulher cristã honesta, e o senhor verá que, se há culpa no caso, ela não é do meu marido, mas minha, porque foi por mim que ele fez tudo isso.

As palavras da mulher saíram com grande seriedade e impregnadas de convicção.

– Isto é verdade, Barrymore?

– Sim, sir Henry. Cada palavra.

– Bem, não posso culpá-lo por apoiar sua própria mulher. Esqueça o que eu disse. Vão para o seu quarto, vocês dois, e falaremos mais sobre este assunto de manhã.

Depois que eles foram embora, olhamos pela janela outra vez. Sir Henry a abrira, e o vento frio da noite bateu em nossos rostos. Ao longe, na distância negra, ainda brilhava aquele ponto minúsculo de luz amarela.

– Fico imaginando como ele se atreve – disse sir Henry.

– Ela deve estar colocada de maneira que só possa ser vista daqui.

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