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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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Conheci um outro vizinho desde que escrevi da última vez. É o sr. Frankland, da Mansão Lafter, que mora a uns 6 quilômetros para o sul. É um homem idoso, de rosto corado, cabelos brancos e colérico. Sua paixão é pela lei inglesa, e ele gastou uma grande fortuna em ações judiciais. Ele luta pelo simples prazer de lutar e está sempre pronto a assumir qualquer um dos lados de uma questão, de modo que não admira que tenha achado isso um divertimento caro. Às vezes ele fecha uma servidão de passagem e desafia a paróquia a fazê-lo abrir. Outras vezes arranca com suas próprias mãos o portão de algum homem e afirma que existiu ali um caminho desde tempos imemoriais, desafiando o proprietário a processá-lo por invasão. Ele conhece bastante os direitos senhoriais e comunais, e aplica o seu conhecimento algumas vezes a favor dos aldeãos de Fernworthy e outras contra eles, de forma que é periodicamente carregado em triunfo pela rua da aldeia ou queimado em efígie, segundo sua última sentença. Dizem que ele tem cerca de sete processos em curso no momento, o que provavelmente engolirá o resto da sua fortuna, arrancando assim o seu ferrão e deixando-o inofensivo no futuro. Fora a questão da lei, ele parece uma pessoa bondosa, afável, e só o menciono porque você insistiu para que eu mandasse alguma descrição das pessoas que nos cercam. Ele se ocupa atualmente de uma maneira curiosa, porque, sendo astrônomo amador, tem um excelente telescópio com o qual se deita no telhado da sua própria casa e vasculha o pântano o dia inteiro na esperança de ver o condenado fugido. Se ele limitasse suas energias a isso, tudo estaria bem, mas há rumores de que ele pretende processar o dr. Mortimer por ter aberto uma sepultura sem a autorização do parente mais próximo, porque ele desenterrou o crânio neolítico do túmulo em Long Down. Ele ajuda a impedir que nossas vidas se tornem monótonas e dá um pequeno alívio cômico onde este é muito necessário.

E agora, depois de contar a respeito do condenado fugitivo, dos Stapletons, do dr. Mortimer e de Frankland, da Mansão Lafter, vou terminar com o que é mais importante e contar-lhe mais sobre os Barrymores, e principalmente sobre o acontecimento surpreendente de ontem à noite.

Antes de mais nada, sobre o telegrama de teste, que você mandou de Londres a fim de confirmar se Barrymore estava realmente aqui. Eu já expliquei que o testemunho do agente do correio mostra que a experiência foi inútil e que não temos nenhuma prova num sentido ou no outro. Eu contei a sir Henry como andavam as coisas, e ele, com seu jeito objetivo, fez Barrymore subir imediatamente e perguntou se ele recebera o telegrama pessoalmente. Barrymore disse que sim.

– O menino entregou-o em suas próprias mãos? – perguntou sir Henry.

Barrymore pareceu surpreso e meditou durante algum tempo.

– Não – disse ele –, eu estava no quarto de guardados na ocasião, e minha mulher levou-o para mim lá em cima.

– Você o respondeu pessoalmente?

– Não. Eu disse à minha mulher o que deveria responder e ela desceu para escrever.

À noite ele voltou ao assunto por iniciativa própria.

– Não compreendi inteiramente o objetivo das suas perguntas esta manhã, sir Henry – disse ele. – Espero que elas não signifiquem que eu tenha feito alguma coisa para perder a sua confiança.

Sir Henry teve de garantir a ele que não era isso e tranqüilizá-lo dando-lhe uma boa parte do seu velho guarda-roupa, por ter chegado de Londres toda a bagagem.

A sra. Barrymore interessa-me. Ela é uma pessoa corpulenta e maciça, bastante limitada, muito respeitável e com tendência ao puritanismo. Você dificilmente poderia imaginar uma pessoa menos emotiva. Mas eu contei a você que, na primeira noite aqui, eu a ouvi soluçando amargamente e, desde então, mais de uma vez percebi vestígios de lágrimas em seu rosto. Alguma mágoa profunda está sempre consumindo o seu coração. Às vezes eu me pergunto se ela tem uma lembrança de culpa que a persegue, e outras desconfio que Barrymore é um tirano doméstico. Sempre achei que havia alguma coisa singular e suspeita no caráter deste homem, mas a aventura da última noite intensificou todas as minhas desconfianças.

Mesmo assim, isso pode parecer, em si mesma, uma questão secundária. Você sabe que eu não tenho um sono muito profundo, e desde que estou de guarda nesta casa meus cochilos têm sido mais leves do que nunca. Na noite passada, por volta das duas horas, fui despertado por passos furtivos diante do meu quarto. Levantei-me, abri a porta e olhei para fora. Uma sombra negra comprida estava se arrastando pelo corredor. Ela era projetada por um homem que caminhava de mansinho pelo corredor com uma vela na mão. Ele estava de calça e camisa, sem nada nos pés. Pude ver apenas a silhueta, mas sua altura me revelou que era Barrymore. Ele caminhava muito devagar e de modo circunspecto, e havia alguma coisa indescritivelmente culpada e furtiva em toda a sua aparência.

Eu disse a você que o corredor é interrompido pelo balcão que contorna o vestíbulo, mas que continua do lado oposto. Esperei até que ele tivesse desaparecido e depois o segui. Quando cheguei ao balcão, ele havia atingido a extremidade do outro corredor, e pude ver pelo brilho da luz através de uma porta aberta que ele entrara num dos quartos. Mas todos esses quartos estão sem mobília e desocupados, de modo que a expedição dele tornou-se mais misteriosa do que nunca. A luz brilhava firmemente como se ele estivesse parado, imóvel. Segui furtivamente pelo corredor o mais silenciosamente possível e olhei pelo canto da porta.

Barrymore estava agachado junto à janela com a vela erguida contra o vidro. Seu perfil estava meio virado para mim, e sua fisionomia parecia rígida de expectativa enquanto olhava para a escuridão do pântano. Ele ficou parado observando atentamente durante alguns minutos. Depois soltou um gemido profundo e com um gesto impaciente apagou a luz. Voltei imediatamente para o meu quarto, e pouco depois ouvi os passos furtivos mais uma vez, agora voltando. Muito tempo depois, quando eu havia caído num sono leve, ouvi uma chave girar em alguma parte numa fechadura, mas não consigo dizer de onde vinha o som. O que tudo isso significa não posso imaginar, mas há algum negócio secreto acontecendo nesta casa de sombras, ao fundo do qual chegaremos mais cedo ou mais tarde. Não o perturbo com as minhas teorias, porque você me pediu para fornecer-lhe apenas os fatos. Tive uma longa conversa com sir Henry esta manhã, e fizemos um plano de campanha baseado nas minhas observações de ontem à noite. Não falarei sobre ele agora, mas ele deve tornar o meu próximo relatório uma leitura interessante.

segundo relatório do dr. watson

Mansão Baskerville, 15 de outubro

Meu caro Holmes:

Se fui obrigado a deixá-lo sem muitas notícias durante os primeiros dias da minha missão, você deve reconhecer que estou recuperando o tempo perdido, e que os acontecimentos estão agora se acumulando em grande quantidade e rapidamente sobre nós. Em meu último relatório, terminei minha nota principal com Barrymore na janela, e agora já tenho um estoque que, a menos que eu esteja muito enganado, irá surpreendê-lo bastante. As coisas tomaram um rumo que eu não poderia ter previsto. Em alguns aspectos elas ficaram muito mais claras nas últimas 48 horas, e em outros se tornaram mais complicadas. Mas vou contar-lhe tudo e você julgará por si mesmo.

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