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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– Oh! – gritou o dr. Mortimer. – O que é isto?

Uma curva íngreme de terreno coberto de urzes, um contraforte afastado do pântano, estava diante de nós. No alto, rígido e nítido como uma estátua eqüestre sobre o seu pedestal, estava um soldado montado, moreno e sério, com o fuzil suspenso em posição sobre o seu antebraço. Ele estava vigiando a estrada pela qual viajávamos.

– O que é isto, Perkins? – perguntou o dr. Mortimer.

Nosso cocheiro virou-se um pouco no assento.

– Há um condenado fugido de Princetown, senhor. Faz três dias que ele fugiu, e os guardas vigiam todas as estradas e todas as estações, mas até agora não o viram. Os fazendeiros por aqui não gostam disso, senhor, isto é verdade.

– Bem, sei que eles ganham 5 libras se puderem dar informações.

– Sim, mas a possibilidade das 5 libras é muito pouco, se comparada com a possibilidade de ter a garganta da gente cortada. O senhor compreende, não é como qualquer condenado comum. Este é um homem que não se detém diante de nada.

– Quem é ele?

– É Selden, o assassino de Notting Hill.

Eu me lembrava bem do caso, porque Holmes havia se interessado por ele devido à ferocidade peculiar do crime e à brutalidade que havia caracterizado todas as ações do assassino. A comutação da sua pena de morte fora devida a algumas dúvidas quanto à sua plena sanidade, tão atroz foi a sua conduta. Nossa charrete havia chegado ao alto de uma elevação e diante de nós surgiu a enorme extensão do pântano, salpicada de picos rochosos, retorcidos e escarpados. Um vento frio nos deixou tremendo. Em algum ponto ali, naquela planície desolada, estava emboscado este homem perverso, escondido numa toca como um animal feroz, com o coração cheio de perversidade contra toda a raça que o havia expulsado do seu meio. Só faltava isto para completar a sinistra sugestividade da extensão vazia, o vento frio e o céu que escurecia. Até Baskerville ficou em silêncio e apertou mais o seu sobretudo em volta dele.

Havíamos deixado os campos férteis para trás. Viramos e olhamos para eles, com os raios inclinados de um sol baixo transformando os córregos em fios de ouro e brilhando sobre a terra vermelha agora revirada pelo arado e o emaranhado das florestas. A estrada diante de nós ficou mais desolada e agreste sobre as encostas castanho-avermelhadas e verde-oliva, salpicadas de matacões gigantescos. De vez em quando passávamos por uma casinha, com paredes e telhados de pedra, sem nenhuma trepadeira para quebrar o seu perfil severo. De repente olhamos para dentro de uma depressão parecida com uma xícara, salpicada de carvalhos e abetos enfezados que tinham sido torcidos e inclinados pela fúria de anos de tempestades. Duas torres altas e estreitas erguiam-se sobre as árvores. O cocheiro apontou com o seu chicote.

– A Mansão Baskerville – disse ele.

Seu patrão havia se levantado e estava olhando com as faces coradas e os olhos brilhantes. Alguns minutos mais tarde havíamos chegado aos portões da casa do porteiro, uma confusão fantástica de rendilhado em ferro batido, com pilares corroídos pelo tempo de cada lado, manchados de líquens e encimados pelas cabeças de urso dos Baskervilles. A casa do porteiro era uma ruína de granito preto e costelas ou caibros nus, mas diante dele havia um prédio novo, meio construído, o primeiro fruto do ouro sul-africano de sir Charles.

Pelo portão entramos na avenida, onde as rodas foram silenciadas novamente entre as folhas, e as velhas árvores formavam com seus galhos um túnel sombrio sobre as nossas cabeças. Baskerville estremeceu quando olhou para o longo caminho escuro no qual a casa tremeluzia como um fantasma na extremidade oposta.

– Foi aqui? – ele perguntou em voz baixa.

– Não, não, a Aléia dos Teixos fica do outro lado.

O jovem herdeiro olhou em volta com o rosto sombrio.

– Não é de espantar que o meu tio achasse que ia ter problemas num lugar como este – disse ele. – Ele é capaz de assustar qualquer homem. Vou instalar uma fila de lampiões elétricos aqui dentro de 6 meses, e vocês não o reconhecerão mais, com mil velas Swan e Edison bem aqui diante da porta do vestíbulo.

A avenida abria-se numa ampla extensão de relva, e a casa estava diante de nós. Na claridade que diminuía pude ver que o centro era um pesado bloco de construção do qual se projetava uma varanda. Toda a frente estava coberta de hera, com um trecho aparado aqui e ali onde uma janela ou um brasão aparecia através do véu escuro. Deste bloco central erguiam-se as torres gêmeas, antigas, com ameias, e perfuradas por muitas seteiras. À direita e à esquerda das torres ficavam alas mais recentes de granito preto. Uma luz baça brilhava através das pesadas janelas góticas, e da alta chaminé que se erguia do telhado íngreme subia uma única coluna de fumaça preta.

– Bem-vindo, sir Henry! Bem-vindo à Mansão Baskerville!

Um homem alto havia saído da sombra da varanda para receber a charrete. O vulto de uma mulher destaca-se contra a luz amarela do vestíbulo. Ela saiu e ajudou o homem a retirar nossas malas.

– O senhor não se importa se eu for direto para casa, sir Henry? – perguntou o dr. Mortimer. – Minha mulher está me esperando.

– O senhor não ficará para jantar conosco?

– Não, preciso ir. Provavelmente encontrarei algum trabalho à minha espera. Eu ficaria para mostrar-lhe a casa, mas Barrymore será um guia melhor do que eu. Adeus, e não hesite nunca, à noite ou de dia, em mandar me chamar se eu puder ser-lhe útil.

O barulho das rodas desapareceu no caminho enquanto sir Henry e eu entrávamos no vestíbulo, e a porta bateu pesadamente atrás de nós. Era um ótimo aposento em que nos encontrávamos, grande, majestoso e pesadamente apainelado com traves enormes de carvalho escurecido pelo tempo. Na grande lareira antiquada, atrás de altos cães de ferro, um fogo de lenha crepitava e estalava. Sir Henry e eu estendemos as mãos para ele, porque estávamos entorpecidos pela longa viagem. Depois ficamos olhando em volta para a janela alta e estreita de vitral antigo, os lambris de carvalho, as cabeças de veado, os brasões de armas nas paredes, todos escuros e sombrios à luz velada da lâmpada central.

– É exatamente como eu imaginava – disse sir Henry. – Não é o próprio retrato de um velho lar de família? E pensar que esta é a mesma mansão na qual minha gente morou durante quinhentos anos. Parece solene pensar nisso.

Vi seu rosto moreno iluminar-se de entusiasmo infantil enquanto olhava à sua volta. A luz batia sobre ele no lugar onde estava parado, mas sombras longas estendiam-se pelas paredes e pendiam como um dossel preto acima dele. Barrymore havia voltado dos nossos quartos, para onde levara nossa bagagem. Ele parou diante de nós com a atitude controlada de um criado bem treinado. Era um homem de aspecto notável, alto, bonito, com uma barba preta quadrada, pálido e de feições distintas.

– O senhor desejaria que o jantar fosse servido imediatamente?

– Está pronto?

– Dentro de alguns minutos, senhor. Os senhores encontrarão água quente em seus quartos. Minha mulher e eu ficaremos felizes, sir Henry, de permanecermos com o senhor até que tome suas novas providências, mas o senhor há de compreender que nas novas circunstâncias esta casa exigirá uma criadagem considerável.

– Que novas circunstâncias?

– Só quis dizer, senhor, que sir Charles levava uma vida muito reclusa, e nós podíamos cuidar das suas necessidades. O senhor, naturalmente, vai querer ter mais companhia, de modo que vai precisar de mudanças em sua criadagem.

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