Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
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– Você quer dizer que sua mulher e você desejam sair?
– Só quando for conveniente para o senhor, sir Henry.
– Mas a sua família está conosco há várias gerações, não é? Eu lamentaria começar minha vida aqui rompendo uma velha ligação de família.
Percebi alguns sinais de emoção no rosto pálido do mordomo.
– Eu também sinto isso, senhor, e minha mulher também. Mas, para dizer a verdade, senhor, nós éramos muito ligados a sir Charles, a sua morte foi um choque e tornou este ambiente muito penoso para nós. Receio que nunca mais tenhamos tranqüilidade de espírito na Mansão Baskerville.
– Mas o que você pretende fazer?
– Não tenho nenhuma dúvida, senhor, de que seremos bem-sucedidos nos estabelecendo por conta própria com algum negócio. A generosidade de sir Charles nos deu os meios para isso. E agora, senhor, talvez seja melhor eu lhes mostrar os seus quartos.
Uma galeria quadrada com balaustrada corria em volta do alto do velho vestíbulo, com acesso por uma escada dupla. Deste ponto central saíam dois longos corredores por toda a extensão do prédio, para os quais se abriam todos os quartos. O meu era na mesma ala que o de Baskerville, e quase ao lado do dele. Estes quartos pareciam ser muito mais recentes do que a parte central da casa, e o papel claro e numerosas velas ajudaram a diminuir a impressão sombria que eu tivera ao chegar.
Mas a sala de jantar vizinha do saguão era um lugar de sombra e escuridão. Era um cômodo comprido com um degrau que separava o estrado onde a família se sentava da parte inferior reservada aos seus dependentes. Numa extremidade, havia uma galeria de menestréis. Traves negras cruzavam-se acima de nossas cabeças, com um teto escurecido pela fumaça acima delas. Com filas de archotes chamejantes para iluminá-la, e a cor e a rude hilaridade de um banquete de antigamente, ela poderia ter se suavizado; mas agora, quando dois cavalheiros de roupas pretas estavam sentados no pequeno círculo de luz lançado por uma lâmpada velada, a voz de uma pessoa ficava abafada e o espírito submisso. Uma sombria fila de ancestrais, com os trajes mais variados, desde o cavalheiro elisabetano até o dândi da Regência, contemplava-nos do alto e nos intimidava com a sua companhia silenciosa. Falamos pouco, e fiquei satisfeito quando a refeição terminou e pudemos ir para a moderna sala de bilhar e fumar um cigarro.
– Palavra, esse não é um lugar muito alegre – disse sir Henry. – Suponho que a gente possa se adaptar a ele, mas sinto-me um pouco deslocado atualmente. Não me admiro que o meu tio ficasse um pouco apreensivo de morar inteiramente sozinho numa casa como essa. Mas, se isso lhe convém, iremos deitar cedo esta noite, e talvez as coisas possam parecer mais alegres pela manhã.
Afastei as cortinas antes de ir para a cama e olhei pela janela. Ela dava para o espaço gramado que ficava diante da porta do vestíbulo. Mais além, as árvores de dois bosques gemiam e se agitavam com o vento que aumentava. Uma meia-lua surgia entre as nuvens que corriam. À sua luz fria, vi além das árvores uma orla de rochas e a curva baixa e extensa do pântano melancólico. Fechei a cortina, achando que a minha última impressão estava de acordo com o resto.
Mas essa não foi bem a última. Sentia-me cansado e mesmo assim alerta, virando-me inquieto de um lado para o outro, procurando o sono que não vinha. Ao longe, um carrilhão batia os quartos de hora, mas, fora isso, um silêncio mortal pesava sobre a velha casa. E então, de repente, ouvi um som nítido e inconfundível. Eram os soluços de uma mulher, o arquejo abafado e reprimido de uma pessoa dilacerada por uma mágoa incontrolável. Sentei-me na cama e fiquei ouvindo atentamente. O barulho não podia ter sido longe e certamente era na casa. Durante meia hora esperei com cada nervo desperto, mas não ouvi nenhum outro som além do carrilhão e do farfalhar da hera na parede.
os stapletons da casa de merripit
A fresca beleza da manhã seguinte ajudou a apagar de nossas mentes a impressão sombria e cinzenta deixada pela nossa primeira experiência na Mansão Baskerville. Quando sir Henry e eu nos sentamos para tomar café, a luz do sol entrava pelas janelas altas, projetando manchas coloridas dos brasões de armas que as cobriam. Os lambris escuros brilhavam como bronze aos raios dourados, e era difícil perceber que este era realmente o cômodo que enchera tanto nossas almas de melancolia na noite anterior.
– Acho que é a nós mesmos e não à casa que temos de culpar! – disse o baronete. – Estávamos cansados da viagem e enregelados do passeio de charrete, de modo que ficamos com uma impressão sombria do lugar. Agora estamos descansados e bem, portanto tudo está alegre outra vez.
– Mas não era só uma questão de imaginação – respondi. – O senhor, por exemplo,
ouviu alguém, uma mulher, eu acho, soluçando durante a noite?
– Isso é curioso, porque quando eu estava meio adormecido, acho que ouvi alguma coisa desse tipo. Esperei bastante tempo, mas não ouvi mais nada, e concluí que era tudo um sonho.
– Eu ouvi distintamente, e tenho certeza de que era realmente uma mulher soluçando.
– Devemos perguntar a respeito imediatamente. – Ele tocou a campainha e perguntou a Barrymore se ele podia explicar o fato. Pareceu-me que as feições pálidas do mordomo ficaram um pouco mais pálidas quando ouviu a pergunta do seu patrão.
– Há apenas duas mulheres na casa, sir Henry – ele respondeu. – Uma é a copeira, que dorme na outra ala. A outra é a minha mulher, e posso afirmar que o som não pode ter vindo dela.
Mas ele mentiu quando disse isso, porque depois do café encontrei por acaso a sra. Barrymore no longo corredor, com o sol batendo em cheio no seu rosto. Ela era uma mulher grande, impassível, de feições grosseiras e com uma expressão severa e imóvel na boca. Mas seus olhos reveladores estavam vermelhos e olharam para mim por entre pálpebras inchadas. Fora ela, então, quem chorara durante a noite, e se chorara, seu marido devia saber disso. Contudo, ele havia assumido o risco óbvio da descoberta afirmando que não fora ela. Por que ele havia feito isto? E por que ela chorara tão amargamente? Em torno desse homem pálido, bonito e de barba preta já estava se acumulando uma atmosfera de mistério e de melancolia. Fora ele o primeiro a encontrar o corpo de sir Charles, e tínhamos apenas a sua palavra para todas as circunstâncias que levaram à morte do velho. Seria possível que fosse Barrymore, afinal de contas, que víramos no cabriolé na Regent Street? A barba podia ter sido a mesma. O cocheiro havia descrito um homem um pouco mais baixo, mas essa impressão podia facilmente ter sido equivocada. Como eu poderia tirar essa dúvida? Obviamente a primeira coisa a fazer era falar com o agente do correio de Grimpen e descobrir se o telegrama tinha sido entregue realmente nas mãos de Barrymore. Qualquer que fosse a resposta, eu deveria pelo menos ter alguma coisa para informar a Sherlock Holmes.
Sir Henry tinha muitos documentos para examinar após o café, de modo que o momento era propício para a minha excursão. Foi uma caminhada agradável de 4,5 quilômetros pela margem do pântano, levando-me por fim a um lugarejo triste, onde os dois prédios maiores, que eram a estalagem e a casa do dr. Mortimer, se destacavam do resto. O agente do correio, que era também o dono do armazém da aldeia, lembrava-se bem do telegrama.
– Claro, senhor – disse ele –, mandei entregar o telegrama ao Sr. Barrymore, exatamente como foi ordenado.
– Quem o entregou?
– Meu filho aqui. James, você entregou o telegrama ao sr. Barrymore na mansão na semana passada, não entregou?
– Sim, papai, entreguei.
– Nas mãos dele? – perguntei.
– Bem, ele estava lá em cima no sótão naquela hora, de modo que não pude entregá-lo em suas próprias mãos, mas entreguei-o nas mãos da sra. Barrymore, e ela prometeu entregar a ele imediatamente.