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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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a mansão baskerville

Sir Henry Baskerville e o dr. Mortimer estavam prontos no dia marcado, e partimos para o Devonshire. O sr. Sherlock Holmes foi comigo até a estação e deu-me as últimas instruções e conselhos.

– Não vou predispor sua mente sugerindo teorias ou suspeitas, Watson – ele disse. – Quero que você simplesmente me comunique os fatos da maneira mais completa possível, e pode deixar que eu elaboro as teorias.

– Que tipo de fatos? – perguntei.

– Qualquer coisa que possa parecer ter relação, mesmo indireta, com o caso, e principalmente as relações entre o jovem Baskerville e seus vizinhos ou qualquer novo detalhe a respeito da morte de sir Charles. Eu mesmo fiz algumas investigações nos últimos dias, mas acho que os resultados foram negativos. Só uma coisa parece ser certa – que o sr. James Desmond, que é o herdeiro seguinte, é um cavalheiro

idoso com um temperamento muito amável, de modo que esta perseguição não parte dele. Acho que podemos eliminá-lo inteiramente dos nossos cálculos. Restam as pessoas que realmente estarão em volta de sir Henry Baskerville no pântano.

– Não seria bom, em primeiro lugar, livrar-se deste casal Barrymore?

– De maneira alguma. Você não poderia cometer um erro maior. Se eles forem inocentes, seria uma injustiça cruel, e se forem culpados, estaríamos desistindo de todas as  possibilidades de pormos a culpa neles. Não, não, vamos mantê-los na nossa lista de suspeitos. Depois há um criado na Mansão, se me lembro bem. Há dois fazendeiros na área do pântano. Há o nosso amigo, dr. Mortimer, que acredito ser totalmente honesto, e há sua mulher, de quem não sabemos nada. Há este naturalista, Stapleton, e há sua irmã, que dizem ser uma moça atraente. Há o sr. Frankland, da Mansão Lafter, que é também um fator desconhecido, e há mais um ou dois vizinhos. Estas são as pessoas nas quais você deve concentrar sua atenção.

– Farei o melhor que puder.

– Você tem armas, suponho.

– Sim, achei bom levá-las.

– Com toda certeza. Fique com o revólver perto de você noite e dia, e nunca esqueça as precauções.

Nossos amigos já haviam reservado um vagão de primeira classe, e estavam esperando por nós na plataforma.

– Não, não temos nenhuma novidade – disse o dr. Mortimer em resposta às perguntas do meu amigo. – Posso jurar uma coisa: não fomos seguidos durante os últimos dois dias. Nunca saímos sem manter uma vigilância estrita, e ninguém poderia ter escapado à nossa atenção.

– Os senhores ficaram sempre juntos, presumo?

– Exceto ontem à tarde. Geralmente dedico um dia à pura diversão quando venho à cidade, de modo que o passei no Museu do Colégio de Cirurgiões.

– E eu fui olhar as pessoas no parque – disse Baskerville. – Mas não tivemos nenhum tipo de problema.

– Foi imprudente, da mesma forma – disse Holmes sacudindo a cabeça com uma expressão grave. – Peço-lhe, sir Henry, que não saia sozinho. Alguma grande infelicidade pode acontecer-lhe se sair. Achou a sua outra bota?

– Não, senhor, está perdida para sempre.

– Realmente, isso é muito interessante. Bem, adeus – ele acrescentou quando o trem começou a deslizar pela plataforma. – Tenha em mente, sir Henry, uma das frases daquela antiga lenda que o dr. Mortimer leu para nós, e evite o pântano nas horas de escuridão, quando as forças do mal estão exaltadas.

Olhei para a plataforma quando já estávamos distantes, e vi a figura alta e austera de Holmes imóvel, e olhando fixamente para nós.

A viagem foi rápida e agradável, e passei o tempo aprofundando as relações com os meus dois companheiros e brincando com o spaniel do dr. Mortimer. Em poucas horas a terra marrom havia se tornado avermelhada, o tijolo havia mudado para o granito, e vacas vermelhas pastavam em campos bem cercados de sebes, onde o capim viçoso e a vegetação mais luxuriante revelavam um clima mais rico, embora mais úmido. O jovem Baskerville olhava ansiosamente pela janela e gritava de prazer ao reconhecer as características familiares do cenário do Devon.

– Eu estive em boa parte do mundo desde que saí daqui, dr. Watson – ele disse – mas nunca vi um lugar que se comparasse a esse.

– Nunca vi um homem do Devonshire que não jurasse por seu condado – comentei.

– Isso depende da estirpe dos homens tanto quanto do condado – disse o dr. Mortimer. – Um olhar para o nosso amigo aqui revela a cabeça redonda do celta, que tem em seu interior o entusiasmo celta e a força do afeto. A cabeça do pobre sir Charles era de um tipo muito raro, meio gaélica, meio hibérnico em suas características. Mas o senhor era muito jovem quando viu pela última vez a Mansão de Baskerville, não era?

– Eu era um adolescente quando meu pai morreu, e nunca tinha visto a Mansão, porque ele morava numa casinha na costa sul. De lá eu fui direto para a casa de um amigo na América. Digo aos senhores que tudo é tão novo para mim quanto para o dr. Watson, e estou extremamente ansioso para ver o pântano.

– Está? Então o seu desejo é facilmente atendido, porque aí está a sua primeira visão do pântano – disse o dr. Mortimer, apontando pela janela do vagão.

Acima dos quadrados verdes dos campos e da curva baixa de um bosque, erguia-se ao longe uma colina cinzenta e melancólica, com um estranho cume denteado, indistinto e vago na distância, como alguma paisagem fantástica num sonho. Baskerville ficou olhando fixamente para ela por um longo tempo, e vi na sua fisionomia ansiosa o quanto ela representava para ele, esta primeira visão daquele lugar estranho em que os homens do seu sangue haviam exercido o poder por tanto tempo e deixado sua marca tão profunda. Lá estava ele sentado, com o seu terno de tweed e o seu sotaque americano, no canto de um prosaico vagão de estrada de ferro, e ainda assim, enquanto eu olhava para o seu rosto moreno e expressivo, sentia mais do que nunca que ele era um verdadeiro descendente daquela longa linhagem de homens de sangue nobre, belicosos e dominadores. Havia orgulho, coragem e força em suas sobrancelhas espessas, narinas sensíveis e olhos grandes amendoados. Se naquele pântano ameaçador tivéssemos que enfrentar uma investigação difícil e perigosa, este era pelo menos um camarada por quem se podia correr um risco com a certeza de que ele também o enfrentaria corajosamente.

O trem parou numa pequena estação à margem da estrada e nós descemos. Do lado de fora, depois da cerca branca baixa, uma charrete com um par de cavalos de pernas curtas estava esperando. Nossa chegada era, evidentemente, um grande acontecimento, porque o chefe da estação e os carregadores se aglomeraram à nossa volta para levar a bagagem. Era um lugar campestre encantador e simples, mas fiquei surpreso ao observar que junto ao portão havia dois homens com uniformes escuros de soldados, que se inclinaram sobre seus fuzis curtos e olharam atentamente para nós quando passamos. O cocheiro, um sujeitinho de feições grosseiras contorcidas, saudou sir Henry Baskerville, e em alguns minutos estávamos voando pela larga estrada branca. Pastagens onduladas subiam em curva de ambos os lados, e velhas casas com frontões apareciam por entre a espessa folhagem verde, mas atrás os campos tranqüilos e iluminados pelo sol apareciam sempre, escuros contra o céu crepuscular, com a curva extensa e sombria do pântano interrompida pelas colinas sinistras e denteadas.

A charrete entrou numa estrada secundária e fizemos uma curva ascendente através de caminhos desgastados por séculos de rodas, margens altas dos dois lados, pesadas de musgo gotejante e samambaias. Fetos bronzeados e espinheiros mosqueados brilhavam à luz do sol poente. Ainda subindo, passamos por uma ponte estreita de granito e contornamos um córrego barulhento que descia borbulhando rapidamente, espumando e bramindo por entre os matacões cinzentos. Tanto a estrada como o córrego atravessavam por um vale denso de carvalhos e abetos enfezados. A cada volta, Baskerville soltava uma exclamação de prazer, olhando ansioso em volta e fazendo perguntas intermináveis. A seus olhos tudo parecia lindo, mas para mim um tom de melancolia pairava sobre os campos que mostravam tão claramente a marca do ano que terminava. Folhas amarelas atapetavam os caminhos e caíam esvoaçando sobre nós quando passávamos. O ruído das nossas rodas desapareu quando passamos através de montes de vegetação apodrecida, tristes oferendas, como me pareceram, para a natureza lançar diante da carruagem do herdeiro dos Baskervilles que voltava.

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