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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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O primeiro-ministro balançou a cabeça em sinal de aprovação.

– Já conheço há muito tempo, senhor, o seu senso de dever público – disse ele. – Estou convencido de que, no caso de um segredo desta importância, ele se sobreporia aos mais íntimos laços domésticos.

O secretário se inclinou.

– Não me faz mais do que justiça, senhor. Até esta manhã nunca disse uma só palavra à minha esposa sobre o assunto.

– Ela poderia ter adivinhado?

– Não, sr. Holmes, não poderia – nem qualquer outra pessoa.

– Já perdeu algum documento antes?

– Não, senhor.

– Quem mais na Inglaterra sabia da existência dessa carta?

– Todos os membros do gabinete foram informados a respeito dela ontem, mas o compromisso de segredo que cerca todas as reuniões do gabinete foi reforçado pela advertência solene do primeiro-ministro. Meu Deus, pensar que em poucas horas eu mesmo o perderia! – Seu belo rosto estava retorcido num espasmo de desespero, e suas mãos puxavam os cabelos. Por um momento tivemos um vislumbre de um homem natural, impulsivo, ardente e bastante sensível. Mas logo a máscara aristocrática foi recolocada, e a voz suave retornou. – Além dos membros do gabinete, existem dois, possivelmente três funcionários do ministério que sabiam da carta. Ninguém mais na Inglaterra, sr. Holmes, eu lhe garanto.

– Mas, e fora?

– Acredito que ninguém fora da Inglaterra a viu, a não ser o homem que a escreveu. Estou convencido de que seus ministros... que os canais oficiais normais não foram utilizados.

Holmes refletiu durante algum tempo.

– Agora, senhor, devo lhe perguntar mais detalhadamente o que é este documento, e por que seu desaparecimento teria conseqüências tão graves?

Os dois homens do governo trocaram um rápido olhar e as sobrancelhas cerradas do primeiro-ministro se franziram.

– Sr. Holmes, o envelope é comprido, fino, com uma cor azul clara. Tem um selo de lacre vermelho impresso com um leão agachado. Está endereçado, numa caligrafia grande e vigorosa, para o...

– Receio, senhor – disse Holmes – que, por mais interessantes e mesmo essenciais que esses detalhes possam ser, minha investigação deve ir às raízes das coisas. O que era a carta?

– Isso é um segredo de estado da maior importância, e receio não poder contar-lhe, nem penso que isso seja necessário. Se com a ajuda dos poderes que diz possuir o senhor conseguir achar esse envelope que descrevi, terá prestado um bom serviço ao seu país, e receberá a recompensa que pudermos conceder.

Sherlock Holmes levantou-se com um sorriso.

– Os senhores são dois dos homens mais ocupados do país – disse –, e da minha maneira modesta também tenho muitos compromissos. Sinto muito não poder ajudá-los neste assunto, e qualquer continuação desta entrevista seria uma perda de tempo.

O primeiro-ministro levantou-se num pulo com aquele brilho forte e intenso nos olhos profundos diante dos quais um gabinete havia se atemorizado. – Não estou acostumado, senhor – começou, mas controlou sua raiva e voltou a sentar-se. Durante um minuto ou mais ficamos em silêncio. Então o velho estadista encolheu os ombros.

– Devemos aceitar suas condições, sr. Holmes. Sem dúvida está certo, e é insensato esperar que aja sem confiarmos inteiramente no senhor.

– Concordo com o senhor – disse o jovem.

– Então lhe contarei, confiando em sua honra e na de seu colega, dr. Watson. Apelarei também para seu patriotismo, pois não posso imaginar maior desgraça para o país do que a divulgação desse caso.

– Pode confiar plenamente em nós.

– A carta, então, vem de um certo potentado estrangeiro que foi incomodado por alguns recentes acontecimentos coloniais deste país. Foi escrita apressadamente e sob sua própria responsabilidade. Investigações mostraram que seus ministros não sabem de nada sobre isso. Ao mesmo tempo, está redigida de uma maneira tão imprópria e certas frases nela têm um caráter tão provocador, que sua publicação resultaria, sem dúvida, no mais perigoso estado de exaltação neste país. Haveria tamanha agitação, senhor, que eu não hesitaria em dizer que menos de uma semana depois da publicação daquela carta este país estaria envolvido numa grande guerra.

Holmes escreveu um nome numa folha de papel e o entregou ao primeiro-ministro.

– Exatamente. Foi ele. E é esta carta – esta carta que pode muito bem significar o gasto de milhões e o desperdício de centenas de milhares de vidas humanas – que foi perdida desta maneira inexplicável.

Comunicou ao remetente?

– Sim, senhor, enviamos um telegrama em código.

– Talvez ele deseje a publicação da carta.

– Não, senhor, temos fortes motivos para acreditar que ele já compreende que agiu de maneira indiscreta e precipitada. Seria um golpe maior para ele e para seu país do que para nós, se essa carta for divulgada.

– Se é assim, a quem interessa que essa carta seja divulgada? Por que alguém desejaria roubá-la ou publicá-la?

– Aí, sr. Holmes, o senhor entra nas áreas da alta política internacional. Mas se considerar a situação européia, não terá dificuldades em perceber o motivo. A Europa inteira é um campo armado. Existem duas ligas que fazem um equilíbrio justo do poderio militar. A Grã-Bretanha mantém a balança. Se entrasse em guerra contra uma confederação, isso garantiria a supremacia da outra, quer entrassem quer não na guerra. Percebeu?

– Muito claramente. Então interessa aos inimigos desse potentado possuir e publicar essa carta, a fim de provocar um rompimento de relações entre o país dele e o nosso?

– Sim, senhor.

– E para quem esse documento seria enviado se caísse nas mãos de um inimigo?

– Para qualquer uma das grandes chancelarias da Europa. Está provavelmente indo nessa direção agora, tão depressa quanto um vapor pode levá-la.

O sr. Trelawney Hope deixou a cabeça cair sobre o peito e gemeu alto. O primeiro-ministro pôs a mão delicadamente em seu ombro.

– Foi um azar seu, meu caro amigo. Ninguém pode culpá-lo. Não foi negligente com nenhuma precaução. Agora, sr. Holmes, sabe de todos os fatos. Que atitude o senhor recomenda?

Holmes balançou a cabeça com pesar.

– O senhor acredita que, a menos que esse documento seja recuperado, haverá guerra?

– Acho que é muito provável.

– Então, senhor, prepare-se para a guerra.

– Esta é uma declaração penosa, sr. Holmes.

– Considere os fatos, senhor. É inconcebível que tenha sido levada depois das 23:30h, pois disse-me que o sr. Hope e a esposa estavam no quarto desde essa hora até o momento em que o desaparecimento foi notado. Então, foi retirada ontem à noite, entre 19:30h e 23:30h, provavelmente mais perto do primeiro horário, já que, seja quem for que a tenha apanhado, evidentemente sabia que estava ali e naturalmente a pegaria o mais cedo possível. Agora, senhor, se um documento desta importância fosse levado àquela hora, onde poderia estar neste momento? Ninguém tem motivo para retê-lo. Foi transferido com rapidez para os que precisam dele. Qual a possibilidade que temos agora de apanhá-lo ou mesmo de localizá-lo? Está fora de nosso alcance.

O primeiro-ministro levantou-se do sofá.

– O que diz é perfeitamente lógico, sr. Holmes. Sinto que o assunto está de fato fora de nossas mãos.

– Vamos presumir, apenas como raciocínio, que o documento foi levado pela criada ou pelo criado de quarto.

– São ambos serviçais antigos e leais.

– Creio que o senhor disse que o seu quarto fica no segundo andar, que não há nenhuma entrada de fora e que de dentro ninguém poderia subir sem ser visto. Então, deve ter sido alguém de casa que a levou. A quem o ladrão a entregaria? A um dos vários espiões internacionais e agentes secretos, cujos nomes me são um pouco familiares. Existem três que podem ser considerados os líderes, cabeças da profissão. Começarei minha pesquisa saindo e descobrindo se cada um deles está em seu posto. Se um estiver sumido – principalmente se desapareceu desde a noite passada –, teremos alguma indicação do lugar para onde o documento foi.

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