Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
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– O que acha disto, Holmes? – Eu li em voz alta o artigo, enquanto ele terminava o café-da-manhã.
– Meu caro Watson – disse ao se levantar da mesa, passando a andar de um lado para o outro na sala –, você é muito paciente, mas se não lhe contei nada nos últimos três dias, é porque não há nada para dizer. Mesmo agora, esta reportagem de Paris não nos ajuda muito.
– Com certeza é definitivo no que se refere à morte do sujeito.
– A morte do homem é um mero incidente – um episódio banal – em comparação com o nosso objetivo real, que é localizar esse documento e evitar uma catástrofe na Europa. Apenas uma coisa importante aconteceu nesses últimos três dias, e é o fato de que nada aconteceu. Tenho notícias quase de hora em hora do governo, e é certo que em nenhum lugar na Europa existem sinais de problemas. Agora, se esta carta estivesse perdida – não, ela não pode estar perdida – mas se não está perdida, onde pode estar? Quem está com ela? Por que está sendo retida? Esta é a questão que bate em minha cabeça como um martelo. Foi de fato uma coincidência a morte de Lucas na noite em que a carta desapareceu? Será que a carta chegou até ele? Se chegou, por que não está entre seus papéis? Esta sua esposa louca a terá levado consigo? Se levou, estará em sua casa em Paris? Como eu poderia procurá-la sem levantar suspeitas da polícia francesa? É um caso, meu caro Watson, em que a justiça é tão perigosa para nós quanto para os criminosos. Cada mão humana está contra nós, e ainda assim os interesses em jogo são colossais. Se eu conseguir concluir com êxito este caso, isto com certeza representará o coroamento glorioso da minha carreira. Ah, aqui estão as últimas da frente de combate! Deu uma olhada rápida no bilhete que segurava. – Ora! Lestrade parece ter notado algo de interessante. Ponha seu chapéu, Watson, e caminharemos juntos até Westminster.
Era a minha primeira visita ao local do crime – uma casa alta, com os fundos estreitos, escura, empertigada, formal e sólida como o século em que fora construída. As feições de buldogue de Lestrade nos olharam da janela da frente, e ele nos cumprimentou calorosamente quando um policial corpulento abriu a porta e nos deixou entrar. O aposento ao qual fomos levados era aquele em que o crime fora cometido, mas não havia mais nenhum vestígio dele, a não ser uma mancha feia e irregular no tapete. Esse tapete era um pequeno quadrado de lã no centro da sala, cercado por um bonito assoalho de madeira, em blocos quadrados, bastante polidos. Sobre a lareira havia um magnífico painel de armas, uma das quais fora usada naquela noite trágica. Perto da janela havia uma escrivaninha suntuosa, e cada detalhe da casa, as pinturas, os tapetes e o papel de parede, tudo indicava um gosto luxuoso quase efeminado.
– Viu as novidades de Paris? – perguntou Lestrade.
Holmes confirmou.
– Nossos amigos franceses parecem ter acertado no alvo desta vez. Sem dúvida é como eles dizem. Ela bateu à porta – visita de surpresa, eu creio, porque ele levava sua vida em compartimentos estanques –, deixou-a entrar, pois não podia deixá-la na rua. Ela disse-lhe como o localizara, e o censurou. Uma coisa levou à outra, e então com aquela adaga tão acessível o fim chegou logo. Mas não foi feito tudo num instante, pois estas cadeiras estavam espalhadas por toda a sala e ele tinha uma na mão, como se tentasse manter a mulher afastada com ela. Está tudo tão claro como se tivéssemos visto.
Holmes ergueu as sobrancelhas.
– E ainda assim me procurou?
– Ah, sim, isso é um outro assunto – uma ninharia, mas o tipo de coisa pela qual o senhor se interessa – esquisito, sabe, e o que se pode chamar de bizarro. Não tem nada a ver com o fato principal – não pode ter, pela aparência.
– O que é, então?
– Bem, o senhor sabe, depois de um crime deste tipo tomamos muito cuidado para manter as coisas na mesma posição. Nada foi removido. Guardas se encarregam disso dia e noite. Esta manhã, como o homem foi enterrado e a investigação terminou – no que se relaciona com a sala –, pensamos em dar uma arrumada por aqui. Este tapete. Vê, não é pregado no chão, apenas colocado aí. Tivemos de levantá-lo. Encontramos...
– Sim? Vocês encontraram...
O rosto de Holmes ficou tenso de ansiedade.
– Ora, tenho certeza de que não adivinharia o que encontramos nem em 100 anos. Vê esta mancha no tapete? Bem, uma grande quantidade deve ter passado através dele, não?
– Sem dúvida.
– Bem, ficará surpreso ao saber que não há uma mancha correspondente no assoalho de madeira clara.
– Nenhuma mancha! Mas deve ter...
– Sim, é o que diz. Mas o fato é que não tem.
Pegou a ponta do tapete, levantou-a e mostrou que realmente era como ele dissera.
– Mas o lado de baixo está tão manchado quanto o de cima. Deveria ter deixado uma marca.
Lestrade exultava com o prazer de ter deixado intrigado o perito famoso.
– Agora, vou dar a explicação. Há uma segunda mancha, mas em outra parte do tapete, e lá, de fato, estava uma grande quantidade de sangue derramado sobre o quadrado branco do assoalho antigo. – O que acha disso, sr. Holmes?
– Ora, é muito simples. As duas manchas na verdade se correspondem, mas o tapete foi trocado de lado. Como era quadrado e despregado, isto pôde ser feito com facilidade.
– A polícia não precisa do senhor para concluir que o tapete foi invertido. Isto está bem claro, pois as manchas ficam uma sobre a outra – se o colocar deste modo. Mas o que quero saber é quem o deslocou e por quê?
Eu podia ver pelo rosto rígido de Holmes que estava vibrando de excitação interior.
– Olhe aqui, Lestrade – disse –, aquele guarda no corredor ficou em seu posto o tempo todo?
– Sim, ficou.
– Bem, siga meu conselho. Interrogue-o com cuidado. Não o faça diante de nós. Esperaremos aqui. Leve-o para a sala dos fundos. Pergunte a ele como ousou fazer entrar pessoas e deixá-las sozinhas nesta sala. Não lhe pergunte se fez isso. Fale como se tivesse certeza. Diga-lhe que sabe que alguém esteve aqui. Pressione-o. Diga-lhe que uma confissão total é sua única possibilidade de perdão. Faça exatamente o que lhe digo!
– Por Deus, se ele souber, eu o afastarei! – exclamou Lestrade. Correu para o saguão e alguns momentos depois sua voz arrogante soou nos fundos da casa.
– Agora, Watson, agora! – exclamou Holmes com uma impaciência exaltada. Toda a força demoníaca do homem escondida atrás daquele comportamento indiferente explodiu num paroxismo de energia. Arrancou o tapete do chão, e num instante estava com as mãos e os joelhos no chão, pressionando para baixo cada um dos quadrados de madeira. Um deles girou de lado quando ele colocou a unha em sua borda. Abria-se como a tampa de uma caixa. Uma pequena cavidade negra abriu-se embaixo. Holmes meteu nela sua mão impaciente e a retirou com um rugido agudo de raiva e desapontamento. Estava vazia.
– Depressa, Watson, depressa! Encaixe de novo! – A tampa de madeira foi recolocada, e o tapete acabara de ser posto no lugar quando ouviram a voz de Lestrade no corredor. Ele encontrou Holmes apoiado languidamente na lareira, resignado e paciente, tentando disfarçar seus bocejos irreprimíveis.
– Desculpe-me por tê-lo deixado esperando, sr. Holmes. Posso ver que está bastante entediado com todo esse caso. Bem, ele confessou, tudo certo. Venha aqui dentro, MacPherson. Deixe estes cavalheiros ouvirem a respeito de sua conduta indesculpável.