Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
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– Madame, o que me pede é realmente impossível.
Ela deu um gemido e mergulhou o rosto nas mãos.
– Deve compreender que isto é assim, madame. Se seu marido acha melhor que a senhora ignore esse assunto, caberá a mim, que apenas soube dos fatos verdadeiros sob a promessa de segredo profissional, contar o que ele se recusou a fazer? Não é justo me pedir isso. É a ele que deve perguntar.
– Eu perguntei a ele. Vim procurar o senhor como último recurso. Mas se não me contar nada de definitivo, sr. Holmes, pode me fazer um grande favor se me esclarecer um detalhe.
– Qual, madame?
– A carreira política de meu marido pode ser prejudicada por causa deste incidente?
– Bem, madame, a menos que seja solucionado, pode com certeza ter um efeito muito infeliz.
– Ah! – respirou profundamente, como alguém cujas dúvidas foram esclarecidas.
– Mais uma pergunta, sr. Holmes. Por uma expressão que meu marido deixou escapar ao primeiro choque do desastre, compreendi que a perda desse documento poderia provocar terríveis conseqüências.
– Se ele disse isso, com certeza não posso negá-lo.
– De que tipo são?
– Não, madame, novamente me pergunta mais do que posso responder.
– Então não tomarei mais o seu tempo. Não posso condená-lo, sr. Holmes, por ter se negado a falar mais livremente, e o senhor, por sua vez, não pensará o pior de mim por desejar, embora contra a vontade dele, compartilhar as ansiedades de meu marido. De novo peço-lhe que não lhe diga nada sobre minha visita.
Olhou para nós da porta, e tive uma última impressão daquele bonito rosto apavorado, dos olhos atemorizados e da boca contraída. Depois foi embora.
– Agora, Watson, o sexo frágil é o nosso departamento – disse Holmes com um sorriso, quando o farfalhar de saias desapareceu no momento em que a porta da frente foi fechada. – Qual é a jogada da bela dama? O que ela realmente queria?
– Com certeza o que ela disse é claro e sua ansiedade é muito natural.
– Hum! Pense na aparência dela, Watson – seu comportamento, sua excitação contida, sua inquietação, sua insistência em fazer perguntas. Lembre-se de que vem de uma casta de gente que não demonstra a menor emoção.
– Ela com certeza estava muito emocionada.
– Lembre-se também da curiosa vivacidade com que nos garantiu que era melhor para o marido que ela soubesse de tudo. O que queria dizer com isso? E deve ter observado, Watson, como agiu para que a luz ficasse às suas costas. Não queria que víssemos sua expressão.
– Sim, escolheu a única cadeira da sala.
– Ainda assim os motivos das mulheres são inescrutáveis. Recorda-se da mulher em Margate de quem eu suspeitei pelo mesmo motivo. Sem pó no nariz – aquilo acabou sendo a solução correta. Como se pode construir nessa areia movediça? A mais trivial ação delas pode significar enormidades, ou a mais extraordinária conduta delas pode depender de um grampo para cabelo ou de uma pinça. Adeus, Watson.
– Vai sair?
– Sim, darei um pulo até a rua Godolphin com nossos amigos da polícia oficial. A solução do nosso problema está com Eduardo Lucas, embora deva admitir que não tenho nenhuma idéia da forma que pode assumir. É um erro fundamental teorizar antes de se conhecerem os fatos. Fique de guarda, meu bom Watson, e receba quaisquer novos visitantes. Devo encontrá-lo no almoço, se puder.
Durante todo aquele dia e no outro e no outro, Holmes pemaneceu num estado de espírito que seus amigos chamariam de taciturno e outros de mal-humorado. Entrava e saía, fumava sem parar, tocava alguns acordes em seu violino, mergulhava em devaneios, devorava sanduíches em horas irregulares, e quase não respondia às perguntas casuais que eu lhe fazia. Era evidente que as coisas não iam bem com ele nem com sua busca. Não disse nada sobre o caso, e foi pelos jornais que soube dos detalhes do inquérito, e da prisão, e posterior libertação, de John Mitton, o criado de quarto do falecido. O júri de instrução apresentou o óbvio homicídio premeditado, mas os participantes ainda permaneciam desconhecidos. Nenhum motivo foi sugerido. A sala estava cheia de objetos de valor, mas nada foi levado. Os papéis do morto não foram tocados. Foram examinados com cuidado, e mostraram que ele era um estudioso atento da política internacional, um tagarela infatigável, um notável poliglota e um incansável escritor de cartas. Tinha contatos freqüentes com os principais políticos de vários países. Mas nada de sensacional foi descoberto entre os documentos que enchiam suas gavetas. Quanto às suas relações com mulheres, pareciam ter sido promíscuas, mas superficiais. Tinha muitas relações, mas poucas amigas entre elas, e ninguém a quem amasse. Seus hábitos eram regulares, sua conduta inofensiva. Sua morte era um mistério absoluto e com a probabilidade de permanecer assim.
Quanto à prisão de John Mitton, o criado de quarto, foi um ato de desespero, como uma alternativa à total inatividade. Mas nenhum processo poderia ser mantido contra ele. Havia visitado amigos em Hammersmith naquela noite. O álibi era perfeito. É verdade que partiu de volta para casa numa hora que lhe permitiria estar em Westminster antes que o crime fosse descoberto, mas sua própria explicação, de que fizera a pé uma parte do caminho, parecia muito provável por causa da beleza da noite. Chegou de fato à meia-noite e parecia estar transtornado pela tragédia inesperada. Sempre teve boas relações com seu patrão. Vários objetos de propriedade do morto – particularmente uma caixinha de lâminas – foram encontrados no quarto do criado, mas ele explicou que eram presentes do falecido, e a governanta confirmou a história. Mitton esteve a serviço de Lucas durante três anos. É digno de nota que Lucas não levava Mitton quando ia ao continente. Às vezes ficava em Paris durante três meses, mas Mitton ficava encarregado da casa da rua Godolphin. Quanto à governanta, não ouviu nada na noite do crime. Se seu patrão recebeu alguma visita, ele mesmo a deixou entrar.
De modo que durante três manhãs o mistério continuou, pelo que pude acompanhar nos jornais. Se Holmes sabia mais, guardou para si mesmo, mas, ao me contar que o inspetor Lestrade fazia-lhe confidências sobre o caso, deduzi que estava a par de todas as novidades. No quarto dia apareceu um longo telegrama de Paris que parecia resolver toda a questão.
A polícia parisiense acaba de fazer uma descoberta [dizia o Daily Telegraph] que levanta o véu existente em torno do trágico destino do sr. Eduardo Lucas, que teve uma morte violenta na noite da última segunda-feira, na rua Godolphin, Westminster. Nossos leitores se lembrarão de que o falecido foi encontrado apunhalado em seu quarto e que alguma suspeita recaiu em seu criado, mas foi afastada com um álibi. Ontem uma senhora, conhecida como mme. Henri Fournaye, que mora numa pequena casa isolada na rua Austerlitz, foi denunciada às autoridades por seus criados como sendo louca. Um exame mostrou que ela de fato desenvolveu uma mania de forma perigosa e permanente. Na investigação a polícia descobriu que mme. Henri Fournaye só voltou de uma viagem
a Londres na terça-feira passada, e há indícios que a ligam ao crime de Westminster. Uma comparação de fotografias provou de modo conclusivo que o sr. Henri Fournaye e Eduardo Lucas eram na verdade a mesma pessoa, e que o falecido, por algum motivo, levava uma vida dupla em Londres e Paris. Mme. Fournaye, que é de origem mestiça, tem um temperamento extremamente excitável, e sofreu no passado de ataques de ciúmes que chegaram ao delírio. Levantou-se a hipótese de que foi num desses ataques que ela cometeu o crime terrível que causou tanta sensação em Londres. Seus movimentos na noite de segunda-feira ainda não foram reconstituídos, mas sem dúvida uma mulher que corresponde à descrição dela atraiu muita atenção na estação de Charing Cross na manhã de terça-feira, por causa do seu aspecto transtornado e da violência de seus gestos. Portanto, é provável que o crime tenha sido cometido quando estivesse fora de si ou que seu efeito imediato fosse o de levar a infeliz mulher ao delírio. No momento ela é incapaz de fazer um relato coerente do passado, e os médicos não dão esperanças de recuperação da razão. Há evidências de que uma mulher, que pode ter sido mme. Fournaye, foi vista durante algumas horas na noite de segunda-feira rondando a casa da rua Godolphin.