Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
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Holmes ficou fumando durante algum tempo em silêncio. Depois atravessou a sala e apertou a mão do nosso visitante.
– Isto é o que eu penso – disse. – Sei que cada palavra é verdadeira, porque você não disse praticamente nenhuma palavra que eu não soubesse. Só um acrobata ou um marinheiro poderiam alcançar a corda da campainha do lugar da prateleira, e só um marinheiro poderia ter dado os nós com que a corda foi amarrada na cadeira. A dama só teve contato com marinheiros uma vez, e foi na viagem dela, e era alguém de sua classe, já que tentava tanto protegê-lo, mostrando assim que o amava. Vê como foi fácil para mim pôr as mãos em você, depois que comecei a seguir a trilha certa.
– Pensei que a polícia nunca iria perceber nossa artimanha.
– E a polícia ainda não o fez, nem irá, na minha opinião. Agora, olhe aqui, capitão Crocker, este é um assunto muito sério, embora eu esteja inclinado a admitir que agiu instigado pela maior provocação a que um homem pode ser submetido. Não tenho certeza de que na defesa de sua própria vida sua ação não será considerada legítima. Contudo, é um júri britânico que vai decidir. Enquanto isso tenho tanta simpatia por você que, se preferir desaparecer nas próximas 24 horas, prometo-lhe que ninguém o impedirá.
– E então tudo será divulgado?
– Com certeza será divulgado.
O marinheiro ficou vermelho de raiva.
– Que espécie de proposta é esta para se fazer a um homem? Conheço o suficiente da lei para saber que Mary seria arrolada como cúmplice. Acha que eu a deixaria sozinha para enfrentar a polícia, enquanto eu fugia? Não, senhor, deixe que façam o pior comigo, mas, pelo amor de Deus, sr. Holmes, descubra alguma maneira de deixar minha pobre Mary longe dos tribunais.
Holmes, pela segunda vez, apertou a mão do marinheiro.
– Eu estava apenas testando o senhor, e falou a verdade o tempo todo. Bem, é uma grande responsabilidade que assumo, mas já dei a Hopkins uma pista excelente, e se ele próprio não souber se aproveitar disto, não posso fazer mais nada. Olhe aqui, capitão Crocker, faremos isso em conformidade com a lei. Você é o prisioneiro. Watson, você é um júri britânico, e jamais conheci um homem mais apropriado para representar um. Sou o juiz. Agora, cavalheiro do júri, já ouviu o depoimento. Declara o prisioneiro culpado ou inocente?
– Inocente, meu senhor – eu disse.
– Vox populi, vox Dei. Está absolvido, capitão Crocker. Desde que a lei não descubra outra vítima, está livre de mim. Volte com esta dama em um ano e deixe o futuro de ambos justificar a sentença que proferimos esta noite!
a aventura da segunda mancha
Eu pretendia que a “Aventura de Abbey Grange” fosse a última das proezas do meu amigo, sr. Sherlock Holmes, que eu iria relatar ao público. Esta minha decisão não era devida à falta de material, já que tenho anotações de centenas de casos aos quais nunca fiz inferência, nem foi causada pela diminuição do interesse por parte de meus leitores pela personalidade singular e os métodos únicos deste homem notável. O verdadeiro motivo está na relutância que o sr. Holmes demonstrou em relação à publicação constante de suas experiências. Enquanto estava atuando em sua profissão, os registros de seus sucessos tinham algum valor prático para ele, mas desde que saiu definitivamente de Londres e se dedica ao estudo e à criação de abelhas em Sussex Downs, passou a detestar a fama, e me pediu categoricamente que seus desejos a esse respeito fossem estritamente observados. Foi só quando fiz um apelo é que obtive a promessa de que “A aventura da
segunda mancha” poderia ser publicada no momento oportuno, convencendo-o de que era bastante apropriado que esta longa série de episódios culminasse no caso internacional mais importante para o qual já fora chamado, que por fim consegui o seu consentimento para que um relato do incidente cuidadosamente guardado em segredo fosse afinal divulgado para o público. Se, ao contar a história, eu parecer um tanto vago em certos detalhes, o público rapidamente entenderá que há um ótimo motivo para minha reticência.
Portanto, foi num ano, e mesmo numa década, que devem permanecer indeterminados, que numa manhã de terça-feira, no outono, encontramos dois visitantes de fama européia entre as paredes dos nossos modestos aposentos da Baker Street. O primeiro, austero, nariz protuberante, olhos de águia e aspecto dominador, não era outro senão o ilustre lorde Bellinger, duas vezes primeiro-ministro da Inglaterra. O outro, moreno, de traços nítidos, elegante, quase ainda na meia-idade, e dotado de beleza de corpo e alma, era o right honourable Trelawney Hope, secretário dos Assuntos Europeus, e o estadista mais destacado do país. Sentaram-se lado a lado no sofá cheio de papéis, e era fácil ver pelos rostos cansados e ansiosos que um assunto da maior importância os trouxera até ali. As mãos magras e cheias de veias azuladas do primeiro-ministro agarravam o cabo de marfim de seu guarda-chuva, e seu rosto ossudo e austero olhava sombriamente de Holmes para mim. O secretário dos Assuntos Europeus cofiava nervosamente o bigode e brincava com o fecho da corrente do relógio.
– Quando descobri minha perda, sr. Holmes, às oito horas, informei logo o primeiro-ministro. Foi por sugestão dele que viemos procurar o senhor.
– Informaram a polícia?
– Não, senhor – disse o primeiro-ministro, no seu conhecido estilo rápido e decidido. – Não fizemos isso, nem é possível fazer. Informar a polícia seria, em última análise, um meio de divulgar para o público. É exatamente isso que desejamos evitar em particular.
– E por quê, senhor?
– Porque o documento em questão é tão importante que a sua publicação poderia muito facilmente – quase posso dizer provavelmente – causar complicações na Europa no mesmo instante. Não seria exagero dizer que a paz ou a guerra dependem desse documento. Talvez não o recuperemos mais, a não ser que a sua recuperação seja feita com o máximo segredo, pois tudo o que desejam aqueles que o levaram é que seu conteúdo seja do conhecimento de todos.
– Entendo. Agora, sr. Trelawney Hope, ficaria muito agradecido se me contasse exatamente em que circunstâncias o documento desapareceu.
– Isso pode ser feito em muito poucas palavras, sr. Holmes. A carta – pois era uma carta de uma potência estrangeira – foi recebida seis dias atrás. Sua importância era tão grande que nunca a deixei em meu cofre, mas eu a levava todas as noites para minha casa, em Whitehall Terrace, guardando-a no meu quarto, trancada numa caixa de correspondência. Estava lá na noite passada. Disto tenho certeza. Eu abri a caixa enquanto me vestia para jantar e vi o documento ali dentro. Esta manhã ele havia sumido. A caixa de correspondência ficara ao lado do copo sobre meu toucador a noite inteira. Tenho sono leve, e minha esposa também. Nós dois estamos dispostos a jurar que ninguém poderia ter entrado no quarto durante a noite. Ainda assim, repito que o papel sumiu.
– A que horas o senhor jantou?
– Às 19:30h.
– Isto foi quanto tempo antes de ir para a cama?
– Minha esposa tinha ido ao teatro. Esperei por ela. Eram 23:30h quando fomos para o nosso quarto.
– Então durante quatro horas a caixa de correspondência ficou sem vigilância?
– Ninguém tem permissão para entrar naquele aposento a não ser a faxineira pela manhã, e meu criado de quarto, ou a criada de minha esposa, durante o resto do dia. São todos criados fiéis que estão conosco há algum tempo. Além disso, nenhum deles poderia saber que havia algo mais valioso do que os papéis comuns do departamento naquela caixa de correspondência.
– Quem sabia da existência daquela carta?
– Ninguém na casa.
– Certamente sua esposa sabia.
– Não, senhor. Não comentei nada com minha mulher até que perdi o papel esta manhã.