Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
Электронная книга - «Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]». Краткое содержание книги:
– Já lhe contei tudo o que aconteceu, sr. Hopkins – disse ela, cansada. – O senhor não poderia repeti-lo por mim? Bem, se acha necessário, direi a estes cavalheiros o que ocorreu. Eles já estiveram na sala de jantar?
– Achei que seria melhor que ouvissem primeiro a história contada pela senhora.
– Ficarei satisfeita quando conseguirem solucionar as coisas. É horrível para mim pensar nele ainda estendido lá. – Ela estremeceu e enterrou o rosto nas mãos. Ao fazer isso, as mangas do roupão largo deslizaram, deixando à mostra seus antebraços. Holmes soltou uma exclamação.
– A senhora tem outros ferimentos, madame! O que é isso? – Duas marcas bem vermelhas apareciam num dos braços brancos e roliços. Ela o cobriu rapidamente.
– Não é nada. Não tem nenhuma ligação com este negócio horrendo desta noite. Se o senhor e seu amigo se sentarem, eu lhes contarei tudo o que puder.
– Sou a esposa de sir Eustace Brackenstall. Estive casada durante um ano, mais ou menos. Acho que não adianta tentar esconder que nosso casamento não era feliz. Receio que todos os nossos vizinhos lhe digam isso, mesmo que eu tentasse negar. Talvez a culpa em parte fosse minha. Fui educada na atmosfera mais livre e menos convencional do sul da Austrália, e esta vida inglesa, com suas formalidades e sua rigidez, não é adequada para mim. Mas o motivo principal está no fato, conhecido de todos, de que sir Eustace era um bêbado inveterado. Estar com um homem assim durante uma hora é desagradável. Pode imaginar o que significa, para uma mulher sensível e decidida, estar presa a ele noite e dia? É um sacrilégio, um crime, uma infâmia dizer que um casamento assim é obrigatório. Digo que estas suas leis monstruosas atrairão uma maldição sobre a terra – Deus não permitirá que essa perversidade continue. – Por um momento ela se sentou, ruborizada, e seus olhos brilhavam abaixo da terrível marca na sobrancelha. Depois a mão forte e suave da criada austera acomodou sua cabeça na almofada, e o ódio selvagem transformou-se num soluço impetuoso. Por fim continuou:
– Eu lhes contarei sobre a noite passada. Talvez os senhores saibam que nesta casa todos os criados dormem na ala nova. Este bloco central inclui os aposentos principais, com a cozinha nos fundos e nosso quarto em cima. Minha criada, Theresa, dorme no quarto acima do meu. Não há mais ninguém, e nenhum som poderia alertar aqueles que estão na ala mais distante. Os ladrões deviam saber disso, ou não teriam agido do modo como fizeram.
– Sir Eustace foi para o quarto por volta de 22:30h. Os criados já tinham se retirado para seus aposentos. Apenas minha empregada estava de pé, e permanecia em seu quarto no alto da casa até que eu precisasse de seus serviços. Fiquei sentada neste quarto até depois das 23 horas, entretida com um livro. Então dei uma volta para ver se tudo estava em ordem antes de subir. Era meu costume fazer isso pessoalmente, pois, como já expliquei, nem sempre era possível confiar em sir Eustace. Entrei na cozinha, na copa, na sala de armas, sala de bilhar, sala de visitas, e, finalmente, na sala de jantar. Ao me aproximar da janela, coberta com cortinas grossas, senti de repente o vento soprar no meu rosto, e percebi que estava aberta. Puxei a cortina para o lado e me vi cara a cara com um homem idoso de ombros largos, que acabara de entrar na sala. A janela é grande, do tipo porta-janela, que na verdade é uma porta que dá para o jardim. Estava segurando a vela do quarto acesa e, com sua luz, vi atrás do homem dois outros, prestes a entrar. Dei um passo para trás, mas o sujeito me alcançou num instante. Segurou-me primeiro pelo pulso e depois pela garganta. Abri a boca para gritar, mas ele me deu um golpe violento com o punho no olho e me derrubou no chão. Devo ter ficado inconsciente por alguns minutos porque, quando voltei a mim, descobri que haviam cortado a corda da campainha, e me amarrado bem firme à cadeira de carvalho que fica na cabeceira da mesa de jantar. Estava tão firmemente atada que não podia me mover, e um lenço em minha boca me impedia de emitir qualquer som. Foi nesse instante que meu marido entrou na sala. Evidentemente ouvira algum som suspeito e veio preparado para a cena que encontrou. Estava vestido com uma camisa de dormir e calças, com seu porrete favorito, de ameixeira brava, na mão. Arremeteu contra os assaltantes, mas um outro – era o velho – abaixou-se, pegou o atiçador da lareira e deu-lhe uma pancada horrível ao passar por ele. Caiu com um gemido e não se moveu mais. Desmaiei de novo, mas deve ter sido também por apenas alguns minutos, durante os quais estive insensível. Quando abri os olhos, descobri que haviam recolhido a prataria do aparador e bebido uma garrafa de vinho que ficava lá. Cada um deles tinha uma garrafa na mão. Já lhes disse, creio, que um era idoso, com uma barba, e os outros jovens, calvos. Devem ser o pai e seus dois filhos. Conversaram entre eles, sussurrando. Depois se aproximaram e se certificaram de que eu estava bem presa. Finalmente, foram embora, fechando a janela atrás deles. Quase 15 minutos depois consegui arrancar o lenço da boca. Quando fiz isso, meus gritos atraíram a criada. Os outros criados foram logo avisados e enviados para chamar a polícia local, que na mesma hora informou Londres. Isto é realmente tudo o que posso lhes contar, cavalheiros, e espero que não seja necessário repetir essa história tão dolorosa mais uma vez.
– Alguma pergunta, sr. Holmes? – disse Hopkins.
– Não vou impor mais nenhum sacrifício à paciência e ao tempo de Lady Brackenstall – disse Holmes. – Antes de ir para a sala de jantar, gostaria de ouvir sua experiência. – Olhou para a criada.
– Eu vi os homens antes de eles entrarem na casa – disse. – Quando estava sentada à janela do meu quarto, vi três homens à luz do luar, perto do portão da casa do porteiro, mas não pensei em nada naquele momento. Mais de uma hora depois ouvi minha patroa gritar e corri para baixo, para encontrá-la, pobre cordeirinho, exatamente como ela diz, e ele no chão, com sangue e miolos espalhados pelo quarto. Era o suficiente para deixar uma mulher fora de si, amarrada ali, e seu próprio vestido manchado, mas nunca lhe faltou coragem, desde que era a srta. Mary Fraser, de Adelaide, e Lady Brackenstall, de Abbey Grange, de fato não aprendeu novos caminhos. Já a interrogaram por muito tempo, cavalheiros, e agora ela vai para seu próprio quarto, com sua velha Theresa, para ter o descanso de que tanto precisa.
Com delicadeza maternal, a mulher magra colocou o braço ao redor de sua patroa e a conduziu para fora do aposento.
– Esteve com ela a vida inteira – disse Hopkins. – Cuidou dela quando bebê, e veio para a Inglaterra quando saíram da Austrália pela primeira vez, há 18 meses. O nome dela é Theresa Wright, e é do tipo de criada que não se encontra mais hoje em dia. Por aqui, sr. Holmes, por favor!
O interesse profundo desaparecera do rosto expressivo de Holmes, e eu sabia que, junto com o mistério, todo o encanto do caso havia sumido. Ainda faltava efetuar uma prisão, mas o que eram esses patifes vulgares para que ele sujasse suas mãos com eles? Um especialista impenetrável e culto que descobre ter sido chamado para um caso de sarampo experimentaria um pouco da irritação que eu lia nos olhos do meu amigo. Ainda assim a cena na sala de jantar de Abbey Grange era suficientemente estranha para atrair sua atenção e reacender seu interesse, que minguava.
Era um aposento amplo e alto, com um teto de carvalho esculpido, com painéis também de carvalho, e uma ótima coleção de cabeças de cervos e armas antigas nas paredes. Ao fundo estava a porta-janela da qual já ouvíramos falar. Três janelas menores no lado direito enchiam o aposento com o frio sol de inverno. À esquerda havia uma lareira larga e funda, com um consolo de carvalho maciço. Ao lado da lareira estava uma pesada cadeira de carvalho, com braços e barras transversais na parte debaixo. De um lado e de outro da peça de madeira trabalhada e vazada havia uma corda avermelhada, amarrada em cada lado da madeira cruzada embaixo. Quando a dama foi libertada, a corda tinha sido tirada dela, mas os nós que foram feitos ainda estavam lá. Estes detalhes só chamaram nossa atenção depois, pois nossos pensamentos estavam totalmente concentrados no terrível objeto que jazia sobre o tapete de pele de tigre diante da lareira.