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A Tormenta de Espadas

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A Tormenta de Espadas
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Então os arautos chamaram outro cantor; Collio Quaynis de Tyrosh, cuja barba ostentava um tom vermelho-alaranjado e cujo sotaque era tão ridículo como Symon garantira que seria. Collio começou com a sua versão de “A dança dos dragões”, que era mais adequada como canção para dois cantores, um homem e uma mulher. Tyrion suportou-a com a dupla ajuda de uma perdiz com mel e gengibre e de várias taças de vinho. Uma balada insinuante sobre um casal de amantes moribundos no meio da Destruição de Valíria poderia ter agradado mais ao salão se Collio não a tivesse cantado em alto valiriano, língua que a maior parte dos convidados desconhecia. Mas “Bessa, a criada de bar” reconquistou-os com a sua letra libertina. Foram servidos pavões na sua plumagem, assados inteiros e recheados de tâmaras, enquanto Collio chamava um tambor, fazia uma profunda reverência perante Lorde Tywin e se lançava em “As chuvas de Castamere”.

Se me obrigarem a ouvir sete versões daquilo, pode ser que desça à Baixada das Pulgas para pedir desculpas ao guisado. Tyrion virou-se para a esposa.

– Então, qual preferiu?

Sansa olhou-o, pestanejando.

– Senhor?

– Os cantores. Qual preferiu?

– Eu... lamento, senhor. Não estava ouvindo.

E também não estava comendo.

– Sansa, há alguma coisa errada? – falou sem pensar, e sentiu-se instantaneamente idiota. Toda a família dela foi massacrada e está casada comigo, e eu não sei o que há de errado.

– Não, senhor. – Afastou os olhos dele e fingiu um interesse pouco convincente no Rapaz Lua, que enchia Sor Dontos de tâmaras.

Quatro mestres piromantes conjuraram feras de chamas vivas para se atacarem umas às outras com garras ardentes enquanto os criados carregavam para o salão tigelas de blandissório, uma mistura de caldo de carne com vinho fervido adoçado com mel e salpicado de amêndoas descascadas e pedaços de capão. Então veio um grupo de flautistas ambulantes, cães amestrados e engolidores de espadas, com ervilhas na manteiga, nozes fatiadas e lascas de cisne escaldado num molho de açafrão e pêssegos.

– Cisne outra vez, não – resmungou Tyrion, lembrando-se do jantar com a irmã na véspera da batalha.

Um malabarista manteve meia dúzia de espadas e machados rodopiando no ar enquanto espetos de morcela eram trazidos ainda chiando para as mesas, uma justaposição que Tyrion achou bastante esperta, embora talvez não do melhor dos gostos.

Os arautos sopraram as suas trombetas.

– Para cantar pelo alaúde dourado – gritou um deles – apresentamos Galyeon de Cuy.

Galyeon era um grande homem, com o peito em forma de barril, barba negra, cabeça calva e uma voz trovejante que enchia cada canto da sala do trono. Trouxe nada menos que seis músicos para tocar para ele.

– Nobres senhores e belas senhoras, não cantarei mais do que uma canção para vocês esta noite – anunciou. – É a canção da Água Negra e de como um reino foi salvo. – O tambor começou num ritmo lento e agourento.

O negro lorde cismou, no topo de sua torre – começou Galyeon – num castelo tão negro como a noite.

Negro eram seus cabelos e negra a sua alma – entoaram os músicos em uníssono. Uma flauta juntou-se à melodia.

Alimentava-se de sangue e inveja, e enchia a taça até transbordar de rancor – cantou Galyeon. – Meu irmão governou sete reinos, disse à bruxa da esposa. Tomarei o que era seu e vou torná-lo meu. Que o seu filho sinta o gume de minha adaga.

Um jovem bravo com cabelos de ouro – entoaram os músicos, enquanto uma harpa de mão e uma rabeca começavam a tocar.

– Se algum dia voltar a ser Mão, a primeira coisa que faço é enforcar todos os cantores – disse Tyrion, alto demais.

A Senhora Leonette soltou uma leve gargalhada ao seu lado, e Sor Garlan debruçou-se para dizer:

– Um feito valente que não for cantado não será menos valente.

O lorde negro reuniu as legiões, rodearam-no como corvos fazendo-o feliz. E sedentos de sangue embarcaram nos navios...

– ... e do pobre Tyrion cortaram o nariz – concluiu Tyrion.

A Senhora Leonette soltou um risinho.

– Talvez devesse ser um cantor, senhor. Rima tão bem quanto este Galyeon.

– Não, senhora – disse Sor Garlan. – O senhor de Lannister está destinado a realizar grandes feitos, não a cantar a respeito deles. Se não fosse a sua corrente e o seu fogovivo, o inimigo teria atravessado o rio. E se os selvagens de Tyrion não tivessem matado a maior parte dos batedores de Lorde Stannis, nunca teríamos sido capazes de pegá-los desprevenidos.

Aquelas palavras fizeram com que Tyrion se sentisse absurdamente grato, e ajudaram a apaziguá-lo enquanto Galyeon cantava intermináveis versos sobre o valor do rei rapaz e de sua mãe, a rainha dourada.

– Ela não fez isso – exclamou Sansa de repente.

– Nunca acredite em nada que ouça numa canção, senhora. – Tyrion chamou um criado para voltar a encher de vinho suas taças.

Já era noite cerrada do lado de fora das grandes janelas, e Galyeon continuava a cantar. Sua canção tinha setenta e sete versos, embora parecesse ter mil. Um para cada conviva presente no salão. Tyrion aguentou os últimos vinte e tantos bebendo, para ajudar a resistir à vontade de enfiar cogumelos nos ouvidos. Quando o cantor finalmente fez as suas vênias, alguns dos convidados estavam suficientemente bêbados para começar a apresentar seus próprios divertimentos involuntários. O Grande Meistre Pycelle adormeceu, enquanto dançarinos das Ilhas do Verão giravam e rodopiavam com vestimentas feitas de penas brilhantes e seda esfumaçada. Medalhões de alce recheados com queijo mofado maduro estavam sendo servidos quando um dos cavaleiros de Lorde Rowan apunhalou um dornês. Os homens de manto dourado arrastaram ambos para fora da sala, um para apodrecer numa cela e o outro para ser cosido pelo Meistre Ballabar.

Tyrion brincava com o bolo de carne de porco cozido em leite e temperado com canela, cravo, açúcar e leite de amêndoa, quando o Rei Joffrey se levantou subitamente.

Tragam os meus reais cavaleiros! – gritou, numa voz pesada de vinho, batendo as mãos.

Meu sobrinho está mais bêbado do que eu, pensou Tyrion enquanto os homens de manto dourado abriam as grandes portas no fundo do salão. Do local em que se encontrava sentado só conseguia ver o topo de duas lanças listradas quando dois homens a cavalo entraram lado a lado. Uma onda de gargalhadas seguiu-os pelo corredor central, na direção do rei. Devem vir montados em pôneis, concluiu... até surgirem à sua vista.

Os cavaleiros eram um par de anões. Um montava um feio cão cinzento, de pernas longas e maxilas pesadas. O outro montava uma imensa porca malhada. Armaduras de madeira pintada chocalhavam e estalavam enquanto os pequenos cavaleiros eram sacudidos para cima e para baixo em suas celas. Os escudos eram maiores do que eles e lutavam intrepidamente com as lanças enquanto avançavam, balançando de um lado para o outro e trazendo à tona rajadas de humor. Um cavaleiro vinha todo de dourado, com um veado negro pintado no escudo; o outro usava cinza e branco e trazia como símbolo um lobo. As montarias vinham albardadas da mesma forma.

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