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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– Foi o que se passou entre nós, que eu me lembre. Pode imaginar como estava satisfeito, dr. Watson. Que sorte extraordinária! Fiquei acordado metade da noite felicitando-me por isso, e no dia seguinte parti para Birmingham num trem que me deixaria na cidade bem antes da entrevista. Levei a mala para um hotel na New Street e depois dirigi-me ao endereço que me fora dado.

– Eu estava um quarto de hora adiantado, mas achei que não faria diferença. O número 126-B era uma passagem entre duas grandes lojas, que terminava numa escada circular de pedra e dava acesso a várias salas alugadas para escritórios de companhias e profissionais liberais. Os nomes dos inquilinos estavam pintados na parte inferior da parede, mas não encontrei o da Companhia Franco-Midland Hardware Ltda. Fiquei parado alguns minutos, muito deprimido, perguntando-me se a história toda não seria um sofisticado logro, quando um homem subiu e se aproximou de mim. Era muito parecido com o sujeito que eu tinha visto na véspera, a mesma voz e a mesma fisionomia, mas com o rosto escanhoado e o cabelo mais claro.

– “É o sr. Hall Pycroft?”, perguntou.

– “Sou.”

– “Ah! Estava à sua espera. Chegou um pouco antes da hora. Recebi um bilhete do meu irmão esta manhã, em que ele faz grandes elogios ao senhor.”

– “Estava procurando o escritório quando o senhor apareceu.”

– “Ainda não mandamos afixar o nome porque só na semana passada alugamos temporariamente o local. Suba comigo. Vamos conversar.”

– Eu o segui até o alto da escada e logo abaixo do telhado havia duas salinhas vazias e empoeiradas, sem tapetes ou cortinas. Eu tinha imaginado um escritório grande, com mesas reluzentes e fileiras de empregados, como eu estava acostumado, e olhei sem muita simpatia para as duas cadeiras e a mesinha que, juntamente com um calendário e uma cesta de papéis, constituíam todo o mobiliário.

– “Não se decepcione, sr. Pycroft”, disse o homem, vendo a minha expressão. “Roma não foi feita em um dia, e temos muito dinheiro nos apoiando, embora não haja tendência a gastá-lo em escritórios elegantes. Sente-se, por favor, e deixe-me ver sua carta.”

– Entreguei a carta e ele a leu cuidadosamente.

– “Meu irmão Arthur ficou com uma ótima impressão”, observou “e sei que ele é um juiz muito perspicaz. Adora Londres e eu, Birmingham, mas desta vez vou seguir o conselho dele. Pode considerar-se definitivamente contratado.”

– “Quais são as minhas obrigações?”, perguntei.

– “Posteriormente irá administrar o grande depósito em Paris, que lançará uma enxurrada de louça inglesa em 134 filiais da França. A compra será realizada dentro de uma semana, mas por enquanto permanecerá em Birmingham, onde nos será mais útil.”

– “De que maneira?”

– Como resposta ele tirou da gaveta um grande livro vermelho.

– “Isto é um catálogo de Paris, que relaciona profissão e nomes de pessoas. Quero que o leve para casa e marque todos os vendedores de ferragens e os respectivos endereços. Será muito útil para mim.”

– “Mas não há listas classificadas?”, sugeri.

– “Não são confiáveis. O sistema deles é diferente do nosso. Trabalhe com afinco e entregue-me a relação na segunda-feira ao meio-dia. Até logo, sr. Pycroft. Se continuar a demonstrar zelo e inteligência, a companhia será um excelente patrão.”

– Voltei para o hotel com o grande catálogo debaixo do braço e no peito emoções conflitantes. Por um lado, eu estava definitivamente contratado e tinha 100 libras no bolso. Por outro, a aparência do escritório, a ausência de nome na parede e outros detalhes que impressionam um homem de negócios haviam deixado uma impressão desagradável em relação aos meus futuros patrões. Entretanto, como eu havia recebido dinheiro, atirei-me à tarefa. Passei o domingo trabalhando duro, mas, apesar disso, na segunda-feira eu ainda estava na letra H. Fui procurar meu patrão e encontrei-o na mesma sala despojada, onde recebi ordens de continuar a tarefa até quarta-feira. Na quarta ainda não havia terminado, de modo que prossegui até a sexta, isto é, ontem. E então levei a lista ao sr. Harry Pinner.

– “Muito obrigado. Compreendo a dificuldade da tarefa. Esta relação será de grande ajuda material.”

– “Exigiu  algum tempo”, observei.

– “E agora quero que faça uma lista das lojas de móveis, porque todas também vendem louças.”

– “Está bem.”

– “Apareça amanhã às 19 horas para me informar do andamento do trabalho. Não se mate de trabalhar. Algumas horas no ‘Day’s Music Hall’ à noite não o prejudicariam.”

– Ele riu ao falar e percebi com um arrepio que um dos seus dentes incisivos havia sido muito mal obturado com ouro.

Sherlock Holmes esfregou as mãos, encantado, e eu olhei com espanto para o nosso cliente.

– Não admira que se surpreenda, dr. Watson, mas foi assim. Quando conversei com o outro sujeito em Londres, e ele riu porque eu não iria trabalhar na Mawson, notei nele um dente obturado com ouro de maneira idêntica. Foi o brilho do ouro que chamou minha atenção nas duas vezes, compreende? Juntando isso ao fato de a fisionomia e voz serem as mesmas e as únicas coisas diferentes podiam ser conseguidas facilmente com uma navalha ou uma peruca, não pude duvidar de que se tratava do mesmo homem. Espera-se que irmãos sejam parecidos, é claro, mas não a ponto de terem um dente obturado da mesma maneira. Despedi-me dele e me vi na rua completamente aturdido, sem saber o que fazer. Voltei ao hotel, mergulhei a cabeça numa bacia de água fria e tentei raciocinar. Por que ele me enviara de Londres a Birmingham? Por que chegara ali antes de mim? Por que havia escrito uma carta para si mesmo? Era demais para mim. Não consegui compreender coisa alguma. De repente, lembrei-me: o que para mim era obscuro seria claro para o sr. Sherlock Holmes. Só tive tempo de tomar o trem noturno, conversar com ele esta manhã e trazê-los comigo a Birmingham.

Houve um silêncio depois que o corretor acabou de contar sua experiência surpreendente. E então, piscando para mim, Sherlock Holmes recostou-se na poltrona com ar satisfeito, mas expressão crítica, lembrando um  que acabasse de tomar o primeiro gole de um vinho raro.

– Excelente, não acha, Watson? Há detalhes que me agradam. Creio que uma entrevista com o sr. Arthur Pinner, no escritório provisório da Companhia Franco-Midland Hardware Ltda., seria uma experiência interessante para nós dois, você não concorda?

– Mas como? – perguntei.

– Muito fácil – disse Hall Pycroft alegremente. – Os dois são amigos meus à procura de emprego. Nada mais natural que levá-los ao diretor-administrativo.

– Exatamente! É claro! – disse Holmes. – Gostaria de dar uma olhada no cavalheiro e ver se descubro qual é o jogo dele. Que talentos tem você, meu amigo, que tornam tão valiosos os seus serviços? Ou será possível que...

Começou a roer as unhas com olhos fixos na janela, e não lhe arrancamos uma só palavra até chegarmos à New Street.

Às 19 horas, nós três percorremos a Corporation Street, a caminho do escritório da companhia.

– É inútil chegar antes da hora – disse o nosso cliente. – Aparentemente ele só vai até lá para falar comigo porque o local fica deserto até a hora marcada.

– Sugestivo – observou Holmes.

– Foi o que eu disse! – exclamou o rapaz. – Lá vai ele caminhando à nossa frente.

E apontou para um homem baixo, bem-vestido, que andava apressado do outro lado da rua. Observamos que ele estava olhando para um garoto que anunciava a última edição de um vespertino e, correndo entre carruagens e ônibus, comprou um exemplar. Então, segurando o jornal com firmeza, desapareceu numa porta.

– Lá vai ele! – exclamou Hall Pycroft. – É naquele prédio que fica o escritório da companhia. Venham comigo. Vou esclarecer o caso com a maior facilidade.

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