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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– Foi você quem me disse que o chalé fora alugado. Deveria ter esperado até o dia seguinte, mas não consegui dormir de tão excitada, e acabei me esgueirando para fora de casa, sabendo que é difícil acordá-lo. Mas você me viu sair e este foi o início dos meus problemas. No dia seguinte, sabia que eu tinha um segredo, mas, numa atitude nobre, não tirou vantagem disso. Três dias depois, a ama e a criança mal conseguiram escapar pela porta dos fundos enquanto você entrava pela da frente. Esta noite, finalmente, ficou sabendo de tudo e eu pergunto o que será de nós, de mim e de minha filha.

Mãos cruzadas no peito, ela esperou a resposta.

Passaram-se dois longos minutos até que Grant Munro rompesse o silêncio. E sua resposta foi daquelas em que gosto de pensar com carinho. Tomando a menininha nos braços, beijou-a e, ainda com ela no colo, estendeu a mão para a mulher e virou-se para a porta.

– Podemos conversar mais confortavelmente em casa. Não sou um homem muito bom, Effie, mas creio que sou melhor do que você me julgava.

Holmes e eu os acompanhamos pela alameda e, quando saíamos, meu amigo tocou-me o braço.

– Creio que seremos mais úteis em Londres do que em Norbury.

E não disse mais nada sobre o caso até tarde da noite, quando se dirigia, com uma vela acesa, para o quarto.

– Watson – ele disse – se algum dia perceber que estou me tornando excessivamente confiante nos meus talentos, ou me dedicando a um caso com menos afinco do que ele merece, fale baixinho no meu ouvido, por favor, a palavra “Norbury” e eu lhe serei infinitamente grato.

o corretor

Pouco tempo depois do meu casamento, abri um consultório no bairro de Paddington. O velho sr. Farquhar, de quem o comprei, tivera excelente clientela, mas a idade e uma doença semelhante à dança de São Vito, que o atacara, reduziram-na consideravelmente. O público, como é natural, parte do princípio de que quem cura os outros deve ser sadio, e olha com desconfiança os poderes curativos de alguém que parece incapaz de curar a si próprio. Assim, à medida que meu antecessor ficava mais fraco, sua clientela diminuía e, quando eu o substituí, seus lucros haviam caído de 1.200 libras anuais para pouco mais de trezentas. Mas, confiante na minha juventude e energia, eu estava convencido de que em poucos anos a clientela estaria maior do que nunca.

Nos primeiros três meses após a compra da clínica fiquei muito concentrado no trabalho e via muito pouco meu amigo Sherlock Holmes, porque estava ocupado demais para ir até Baker Street. E ele raramente ia a algum lugar, a não ser por motivos profissionais. Portanto, fiquei surpreso quando, certa manhã de junho, enquanto lia o depois do café, ouvi a campainha, seguida da voz alta e um tanto estridente do meu velho amigo.

– Ah, meu caro Watson! – disse, entrando na sala. – Estou encantado em vê-lo. Espero que a sra. Watson esteja inteiramente recuperada das pequenas emoções ligadas à nossa aventura do .

– Estamos muito bem, obrigado – respondi, apertando-lhe efusivamente a mão.

Sentando-se na cadeira de balanço, ele continuou:

– E espero também que a dedicação à clínica médica não tenha eliminado completamente o seu interesse pelos nossos problemas dedutivos.

– Pelo contrário – respondi. – Ontem à noite estive relendo minhas antigas anotações, classificando alguns dos nossos resultados.

– Espero que não considere encerrada a sua coletânea.

– De modo algum. O que mais desejo é ter mais algumas dessas experiências.

– Hoje, por exemplo?

– Sim, hoje, se quiser.

– Mesmo que seja em Birmingham?

– Certamente.

– E os clientes?

– Atendo aos do meu vizinho quando ele viaja. Ele está sempre disposto a pagar a dívida.

– Ah, tanto melhor – exclamou Holmes recostando-se na poltrona e observando-me por entre as pálpebras semicerradas. – Noto que andou adoentado ultimamente. Resfriados de verão são sempre um tanto irritantes.

– Estive preso em casa por causa de um forte resfriado na semana passada. Mas pensei que tinha me livrado de todos os vestígios dele.

– E livrou-se. Parece muito saudável.

– Então, como soube?

– Meu caro amigo, tenho os meus métodos.

– Dedução?

– Certamente.

– E como?

– Seus chinelos.

Olhei para os chinelos novos de couro que eu estava usando. – Mas como... ?

Holmes respondeu antes que eu terminasse a pergunta.

– Seus chinelos são novos. Não devem ter mais que algumas semanas. As solas que você me mostra no momento estão ligeiramente arranhadas. Primeiro pensei que se tinham molhado e depois queimado ao secar. Mas na parte interna há um pequeno círculo de papel com a marca do vendedor. A umidade o teria removido, é claro. Então você tem ficado com os pés estendidos para o fogo, o que alguém dificilmente faria, mesmo num mês de junho úmido como este, caso estivesse com a saúde perfeita.

Como todos os raciocínios de Holmes, aquele era a própria simplicidade, depois que ele explicava. Leu o pensamento estampado no meu rosto e seu sorriso tinha um traço de amargura ao dizer:

– Temo que eu me revele demais ao dar explicações. Resultados sem causas são bem mais impressionantes. Está disposto a ir a Birmingham?

– É claro. Qual é o caso?

– Você saberá no trem. Meu cliente está esperando lá fora numa carruagem. Pode sair agora?

– Um momento.

Rabisquei um bilhete para o meu vizinho, fui explicar o caso à minha mulher e encontrei-me com Holmes no patamar de entrada.

– Seu vizinho é médico? – perguntou, indicando com a cabeça a placa de bronze.

– Sim. Comprou a clínica, assim como eu.

– Clientela antiga?

– Tão antiga quanto a minha. Os dois consultórios foram abertos logo que a casa foi construída.

– Neste caso, você ficou com a melhor parte.

– Creio que sim. Mas como é que você sabe?

– Pelos degraus, meu rapaz. Os seus estão muito mais gastos que os dele... O cavalheiro que está na carruagem é meu cliente e se chama Hall Pycroft. Permita que o apresente. Chicoteie o cavalo, cocheiro, pois temos o tempo exato para pegar o trem.

A pessoa diante da qual me sentei era um rapaz de boa estatura, rosto corado, expressão franca, honesta, e com um bigodinho louro. Usava uma cartola lustrada e um sóbrio terno preto, que lhe davam a aparência exata daquilo que era – um esperto homem da cidade pertencente à classe denominada mas que fornece excelentes regimentos de voluntários e gera uma quantidade maior de bons atletas e desportistas do que qualquer outro grupo destas ilhas. Seu rosto redondo e vermelho era naturalmente animado, mas os cantos da boca pareceram-me inclinados para baixo, numa preocupaçãoquase cômica. Só quando nos encontrávamos num vagão deprimeira classe e a caminho de Birmingham é que soube qual o problema que o levara a procurar Sherlock Holmes.

– Dispomos de setenta minutos – observou Holmes. – Sr. Hall Pycroft, quero que conte ao meu amigo a sua interessante experiência exatamente como me contou e com maiores detalhes, se possível. Será útil para mim ouvir novamente a seqüência de acontecimentos. Trata-se de um caso, Watson, que pode conter algo, ou não conter coisa alguma. Mas apresenta características insólitas e absurdas, tão atraentes para você como para mim. Agora, sr. Pycroft, não voltarei a interrompê-lo.

Nosso jovem companheiro virou-se para mim com um brilho malicioso nos olhos.

– O pior da história é mostrar que sou um perfeito idiota. Talvez tudo dê certo, é claro, e não vejo como poderia ter agido de outro modo; mas se perdi meu emprego e não obtiver nada em troca, sentirei que fui crédulo demais. Não sou um bom contador de histórias, dr. Watson, mas foi isto que aconteceu.

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