Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
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– E quem é o chantagista?
– Deve ser a criatura que vive no único aposento confortável da casa e tem a fotografia dela sobre a lareira. Há algo de muito atraente, Watson, naquele rosto lívido espreitando pela janela. Não perderia este caso por nada neste mundo.
– Tem alguma teoria?
– Sim, provisória. Mas ficarei surpreso se não estiver correta. O primeiro marido mora no chalé.
– Por que pensa assim?
– Como explicar a frenética ansiedade para que o segundo marido não entre na casa? Os fatos, a meu ver, dizem o seguinte: a mulher casou-se nos Estados Unidos. Descobriu que o marido tinha traços de caráter detestáveis, ou talvez tenha contraído uma doença repulsiva, tornando-se leproso ou imbecil. Fugiu dele viajando para a Inglaterra, mudou de nome e começou vida nova, segundo pensava. Estava casada há três anos e considerava sua situação totalmente segura – tendo exibido ao marido o atestado de óbito de alguém cujo nome adotou – e de repente o primeiro marido, ou quem sabe uma mulher sem escrúpulos que se ligou ao doente, descobriu o paradeiro dela e escreveu ameaçando denunciá-la. Ela pediu 100 libras e tentou comprar o silêncio deles, que a perseguem, apesar disso. Quando o marido menciona casualmente que há novos inquilinos na casa, ela compreende que são os seus perseguidores. Espera que ele adormeça e corre até lá, tentando convencê-los a deixá-la em paz. Não conseguindo, volta na manhã seguinte, o marido a encontra, como contou, saindo da casa. Promete não voltar, mas, dois dias depois, a esperança de livrar-se daqueles vizinhos detestáveis foi forte demais e ela fez nova tentativa, levando a fotografia que eles provavelmente exigiram. No meio da conversa surge a criada dizendo que o patrão voltou para casa. A mulher, sabendo que ele iria direto para lá, faz com que os moradores saiam pelos fundos e se escondam no bosque de abetos que fica nas proximidades. Ele encontra a casa deserta. Mas eu me surpreenderia muito se ainda a encontrasse vazia ao observá-la esta noite. O que acha da minha teoria?
– Pura suposição.
– Mas, pelo menos, abrange todos os fatos. Se soubermos de novos fatos que não se encaixem nela, poderemos reconsiderar. Não podemos fazer mais nada até recebermos uma comunicação do nosso amigo de Norbury.
Mas não foi preciso esperar muito. Ela chegou quando terminávamos o chá.
“A casa continua habitada”, dizia o telegrama. “Vi novamente o rosto na janela. Esperarei o trem das 19 horas e não tomarei nenhuma atitude até chegarem.”
Ele nos aguardava na plataforma quando saltamos, e na luz da estação vimos que estava muito pálido, trêmulo e agitado.
– Continuam lá, sr. Holmes – disse, apoiando a mão no braço do meu amigo. – Vi luzes no chalé quando vinha para cá. Resolveremos tudo agora, de uma vez por todas.
– Qual é o seu plano? – perguntou Holmes enquanto caminhávamos pela estrada escura, ladeada de árvores.
– Vou entrar à força e ver quem mora na casa. Quero que vocês dois estejam lá como testemunhas.
– Está decidido a fazer isso apesar do aviso de sua mulher no sentido de que seria melhor não desvendar o mistério?
– Sim, estou decidido.
– Acho que tem razão. Qualquer verdade é preferível a uma dúvida indefinida. É melhor irmos logo. Claro que, do ponto de vista legal, estamos em situação irregular, mas creio que vale a pena.
Era uma noite muito escura, e uma chuva fina começou a cair quando saímos da estrada e enveredamos pelo caminho estreito e acidentado, com sebes de ambos os lados. O sr. Grant Munro seguia rápido, impaciente, mas nós andávamos aos tropeções, acompanhando-o como podíamos.
– Lá estão as luzes da minha casa – disse ele, apontando para cintilações entre as árvores. – E aqui está a casa que pretendo invadir.
Dobramos uma curva do caminho e demos com uma construção bem próxima. Uma faixa de luz amarelada mostrava que a porta não estava completamente fechada e uma janela do andar superior estava profusamente iluminada. Naquele momento, percebemos um vulto passando diante da veneziana.
– Lá está a criatura! – exclamou Grant Munro. – Podem ver que há alguém ali. Agora sigam-me e resolveremos logo tudo isso.
Aproximamo-nos da porta, mas de repente surgiu das sombras uma mulher, que se postou na faixa iluminada. Era impossível ver as feições dela no escuro, mas estendeu os braços num gesto de súplica.
– Pelo amor de Deus, não entre, Jack! Eu estava com um pressentimento de que você viria esta noite. Pense melhor, meu bem! Confie em mim, e nunca terá motivos para se arrepender.
– Já confiei demais, Effie! – ele gritou, zangado. – Me largue! Preciso entrar. Meus amigos e eu vamos resolver este assunto de uma vez por todas.
Empurrou-a para o lado e nós fomos atrás dele. Quando ele abriu a porta, uma mulher idosa apareceu correndo e tentou impedi-lo de entrar, mas ele a afastou e começamos a subir a escada. Grant Munro correu para o quarto iluminado e nós o seguimos.
Era uma peça acolhedora e bem mobiliada, com duas velas acesas sobre a mesa e duas sobre a lareira. A um canto, inclinada sobre uma escrivaninha, havia alguém que me pareceu uma garotinha. Estava de costas quando entramos, mas vimos que usava um vestido vermelho e luvas brancas compridas. Quando ele se virou para nós, soltei uma exclamação de surpresa e horror. O rosto que nos encarava tinha a coloração mais estranha que eu já vira, e os traços eram totalmente destituídos de expressão. Um instante depois, o mistério se esclareceu. Holmes, com uma risada, passou a mão por trás da orelha da criança e a máscara caiu do rosto dela. E vimos uma negrinha retinta, com os dentes brancos à mostra, divertida com o nosso espanto. Desatei a rir, contagiado pela alegria dela, mas Grant Munro ficou olhando para ela imóvel, a mão apertando a garganta.
– Meu Deus! O que significa isto?
– Vou dizer o que significa – exclamou a mulher, entrando no quarto com uma expressão altiva e rígida no rosto. – Você me obrigou, contra minha vontade, a contar-lhe. Agora nós dois teremos de agir da melhor maneira possível. Meu marido morreu em Atlanta. Minha filha salvou-se.
– Sua filha!
Ela tirou do seio um grande medalhão de prata.
– Você nunca o viu aberto.
– Pensei que fosse maciço.
Ela apertou uma mola e abriu o medalhão. Dentro havia o retrato de um homem de grande beleza e expressão inteligente, mas revelando traços inconfundíveis de sua ascendência africana.
– Este é John Hebron, de Atlanta. E nunca existiu homem mais nobre sobre a terra. Afastei-me de minha raça para casar-me com ele e nem por um instante me arrependi. Infelizmente, nossa única filha puxou à família dele e não à minha. Acontece com freqüência, e minha pequena Lucy é bem mais escura que o pai. Mas, negra ou branca, é a minha filhinha, a querida da mamãe.
Ao ouvir aquelas palavras, a garotinha correu para aninhar-se junto à mãe.
– Quando a deixei nos Estados Unidos, só o fiz porque sua saúde era frágil e a mudança de clima talvez a prejudicasse. Ficou entregue aos cuidados de uma fiel escocesa que havia sido nossa criada. Nem por um instante pensei em rejeitá-la. Mas quando o destino o colocou no meu caminho, Jack, e aprendi a amá-lo, tive medo de falar a respeito da minha filha. Deus me perdoe, mas temi perdê-lo, não tive coragem de contar. Precisava escolher entre os dois e, na minha fraqueza, dei as costas à minha própria filha. Durante três anos mantive em segredo sua existência, mas recebia notícias dela através da ama e sabia que estava bem de saúde. Mas finalmente senti um desejo irresistível de revê-la. Lutei contra ele, mas em vão. Embora percebesse o perigo, estava decidida a mandar trazer a criança, ainda que fosse por algumas semanas. Enviei 100 libras à ama, com instruções para que alugasse esta casa, de modo que pudesse apresentar-se como vizinha, sem que eu, aparentemente, tivesse alguma ligação com ela. Levei a cautela a ponto de recomendar-lhe que mantivesse a criança dentro de casa durante o dia e cobrisse o rosto e as mãos da menina para que, no caso de alguém vê-la pela janela, não houvesse comentários a respeito de uma criança negra na vizinhança. Se eu tivesse sido menos cautelosa, teria sido mais sensata, porém estava apavorada com a idéia de que você soubesse a verdade.