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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– Há uma coisa que preciso dizer antes de continuar. Quando nos casamos, minha mulher transferiu para o meu nome todos os seus bens, contra a minha vontade, porque seria muito desagradável se meus negócios corressem mal. Mas Effie insistiu, e assim foi feito. Há cerca de seis semanas ela me procurou.

– “Jack, quando transferi meu dinheiro para o seu nome, você disse que se eu precisasse de alguma quantia, bastaria pedir.”

– “Certamente. O dinheiro é todo seu.”

– “Preciso de 100 libras.”

– Fiquei espantado, porque pensei que ela queria um vestido novo, ou algo semelhante.

– “Para quê?”

– Com um jeito brincalhão, ela respondeu: “Você disse que seria apenas o meu banqueiro, e banqueiros não fazem perguntas.”

– “Se quer mesmo a quantia, é claro que a terá”,  respondi.

– “Sim, estou falando sério.”

– “E não vai me dizer para que você quer o dinheiro?”

– “Um dia, talvez, Jack, mas não agora.”

– Tive de me contentar com isso, embora, pela primeira vez, surgisse um segredo entre nós. Entreguei-lhe um cheque e não pensei mais no assunto. Talvez isso nada tenha a ver com o que aconteceu em seguida, mas achei que devia mencioná-lo.

– Bem, acabei de contar que há um chalé perto da nossa casa. Há um descampado entre o chalé e a casa, mas para alcançá-lo é preciso ir até a estrada e depois entrar por uma alameda. Logo adiante fica um lindo bosque de abetos escoceses, onde eu gostava de passear, porque as árvores são sempre acolhedoras. O chalé estava desocupado havia oito meses, o que era uma pena, pois trata-se de uma construção simpática de dois andares, com uma varanda em estilo antigo, coberta de trepadeiras. Observei-a diversas vezes, pensando que seria muito agradável morar ali.

– Bem, na segunda-feira passada, ao anoitecer, eu passeava por aqueles lados quando encontrei um caminhão vazio vindo da casa e vi uma pilha de tapetes e objetos espalhados pelo gramado diante da varanda.

Era evidente que o chalé finalmente fora alugado. Passei diante dele e depois parei para observá-lo, imaginando que tipo de gente teria vindo morar tão perto de nós. De repente, percebi que um rosto me observava de uma das janelas do andar superior.

– Não sei o que havia naquele rosto, sr. Holmes, mas o fato é que me provocou um calafrio. Eu estava a certa distância, de modo que não podia distinguir as feições, mas havia nele algo que não era natural nem humano. Foi a impressão que eu tive. Aproximei-me para olhar mais de perto a pessoa que me observava. Mas o rosto desapareceu de modo tão repentino que parecia ter sido absorvido pela escuridão do quarto. Permaneci ali uns cinco minutos, pensando no caso e tentando analisar as minhas impressões. Não seria capaz de dizer se o rosto era de homem ou de mulher, porém o que mais me impressionou foi a cor. Era de uma palidez amarelada, e com uma rigidez espantosamente anormal. Fiquei tão perturbado que decidi saber mais um pouco a respeito dos novos moradores da casa. Aproximei-me e bati na porta, que foi imediatamente aberta por uma mulher alta e magra, de expressão severa e dura.

– “O que quer?”, perguntou com um sotaque do norte.

–“Sou seu vizinho. Moro ali”, disse, apontando para minha casa. “Vejo que acabam de se mudar, e pensei que talvez pudesse ajudar em alguma coisa...”

–“Sim, nós pediremos ao senhor quando for necessário”, disse ela, fechando a porta na minha cara.

– Aborrecido com aquela recepção grosseira, fiz meia-volta e fui para casa. À noite, embora tentasse pensar em outras coisas, a lembrança daquela aparição na janela e da grosseria da mulher voltou à minha mente. Decidi não contar nada à minha esposa, porque é uma pessoa nervosa e tensa, e eu não queria que ela ficasse com a mesma impressão desagradável que eu havia tido. Mas antes de adormecer, comentei que a casa vizinha fora alugada. Ela não disse nada.

– Em geral, tenho sono pesado. Minha família costumava brincar dizendo que nada seria capaz de me despertar durante a noite. Mas naquela noite, fosse por causa da ligeira excitação provocada pela minha pequena aventura ou por outro motivo qualquer, não sei, meu sono foi mais leve que de costume. Ainda meio adormecido, percebi que algo estava acontecendo no quarto e aos poucos percebi que minha mulher se vestira e estava pondo uma capa e o chapéu. Já iria dizer algumas palavras sonolentas de espanto ou censura por causa daqueles preparativos absurdos, quando meus olhos entreabertos fixaram-se no rosto dela, iluminado por uma vela. Mas fiquei mudo de surpresa. Effie estava com uma expressão que eu jamais vira e da qual a julgava incapaz. Estava mortalmente pálida, a respiração acelerada. Olhou furtivamente para a cama enquanto ajustava a capa, para ver se me despertara. Então, pensando que eu dormia, saiu silenciosamente do quarto, e instantes depois ouvi um áspero rangido que só podia ser o da porta de entrada. Sentei-me na cama e bati com os nós dos dedos na borda para verificar se estava realmente acordado. Então olhei para o relógio. Eram três horas. O que minha mulher estaria fazendo numa estrada deserta às três horas?

– Fiquei sentado na cama uns vinte minutos, remoendo o assunto e tentando encontrar uma explicação. Quanto mais pensava no caso, mais extraordinário e absurdo ele me parecia. Ainda estava remoendo o assunto quando ouvi a porta se abrindo devagar e passos subindo as escadas.

– “Onde esteve, Effie?”, perguntei, mal ela entrou.

– Ela estremeceu violentamente e conteve um grito quando me ouviu falar, e o grito e o estremecimento perturbaram-me mais do que tudo, pois continham algo de profundamente culpado. Minha mulher sempre tivera uma natureza franca, aberta, e fiquei arrepiado ao vê-la esgueirar-se para o seu próprio quarto e conter um grito e um estremecimento quando seu marido falou com ela.

– “Está acordado, Jack?”, disse, com um riso nervoso. “Pensei que nada seria capaz de despertá-lo.”

– “Onde esteve?”, repeti, num tom mais severo.

–“Não admira que você esteja surpreso”, disse, dedos trêmulos ao abrir o fecho da capa. “Creio que nunca fiz uma coisa dessas na minha vida. O fato é que tive a impressão de sufocar aqui dentro e quis respirar um pouco de ar puro. Creio que teria desmaiado se não saísse. Fiquei na porta durante alguns minutos e agora estou me sentindo melhor.”

– Enquanto falava, não olhou para mim nem uma vez, e sua voz não era a habitual. O que dizia era falso, evidentemente. Não respondi e virei o rosto para a parede sentindo-me doente, a cabeça cheia de dúvidas e suspeitas venenosas. O que minha mulher estaria escondendo de mim? Qual seria o objetivo de sua estranha saída? Estava convencido de que não descansaria até descobrir o mistério, mas não tinha ânimo para interrogá-la novamente depois de ter-me mentido. Passei o resto da noite me revirando na cama, elaborando uma teoria após outra, cada qual mais improvável que a anterior.

– Tinha de ir à cidade naquele dia, mas estava tão perturbado que não consegui concentrar-me nos negócios. Minha mulher parecia tão perturbada quanto eu, e pelos rápidos olhares que me lançava, percebi que sabia que eu não havia acreditado nas suas palavras e estava sem saber o que fazer. Mal trocamos uma palavra durante o café-da-manhã, e logo depois saí para dar um passeio e pensar no assunto ao ar fresco da manhã.

– Fui até o passei uma hora nos jardins e voltei a Norbury por volta de 13 horas. Ao passar pelo chalé, parei um instante para observar as janelas e tentar ver novamente o estranho rosto que me olhara na véspera. Naquele momento, imagine a minha surpresa, sr. Holmes, quando a porta se abriu de repente e minha mulher saiu para o jardim!

– Fiquei abismado ao vê-la, mas as minhas emoções nada foram comparadas às que se estamparam no rosto dela quando nossos olhares se encontraram. Por um instante, ele deu a impressão de que queria recuar e entrar novamente na casa. Mas, ao perceber que seria inútil tentar esconder-se, aproximou-se, com o rosto muito pálido e um olhar apavorado que contrastava com o sorriso.

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