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O jardim de Rama

Электронная книга - «O jardim de Rama». Краткое содержание книги:

Nesta sequência de O Enigma de Rama, é mostrada a vida dos astronautas que foram deixados a bordo da espaçonave extraterrestre Rama. Em sua interação com esse estranho habitat vão descobrir que existem outros tripulantes que os acompanham na viagem para fora do Sistema Solar.
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Richard estava pensando sobre sua odisséia anterior novamente quando, na última volta da sua caminhada diária, passou debaixo da solitária lâmpada do corredor. Olhando para a frente, viu que a porta de sua prisão estava aberta.

Pronto, disse a si mesmo, finalmente enlouqueci. Agora estou vendo coisas.

Porém, a porta permaneceu aberta quando ele se aproximou. Richard continuou andando, atravessando-a, parando para tocar a porta aberta e para verificar que não perdera sua sanidade. Passou por mais duas lâmpadas antes de chegar a uma pequena sala de depósito do lado direito. Oito ou nove melões manás estavam meticulosamente empilhados nas prateleiras. Ah, ha, pensou Richard, já compreendi. Ampliaram a minha prisão. De agora em diante tenho permissão de vir pegar minha própria comida. Mas se houvesse um banheiro em algum lugar…

Mais adiante na passagem havia realmente água corrente em um outro pequeno quarto do lado esquerdo. Richard bebeu com prazer, lavou o rosto e ficou muito tentado a tomar um banho. No entanto, sua curiosidade foi forte demais. Ele queria saber qual era a extensão de seus novos domínios.

O corredor fora de sua cela terminava em uma intersecção perpendicular.

Richard poderia ir para um lado ou para outro. Pensando que talvez estivesse em algum tipo de labirinto que fosse testar sua capacidade mental, ele deixou cair sua camisa na intersecção e continuou para a direita. Positivamente, havia mais luzes naquela direção.

Depois de caminhar uns vinte metros, ele viu um par de aves se aproximando na distância. Na verdade, primeiro ele ouviu seu matraquear, pois elas estavam engajadas em animadíssima discussão. Quando estavam a apenas cinco metros, Richard parou. As duas aves olharam para ele, assinalaram sua presença com um guincho breve em tom diferente, depois continuaram pelo corredor afora.

Mais adiante, encontrou um trio de aves com aproximadamente o mesmo tipo de reação. O que está acontecendo por aqui? ficou pensando Richard enquanto caminhava pelo corredor. Será que não estou mais preso?

Na primeira sala grande que passou, quatro aves estavam sentadas juntas, em círculo, passando um conjunto de varas de madeira polida de uma para outra, e matraqueando sem cessar. Mais tarde, logo antes do corredor alargar-se para formar uma grande sala de reuniões, Richard parou na porta de um outro quarto e ficou olhando fascinado enquanto um par de pernudinhos fazia o que parecia ser uma série de flexões, em cima de uma mesa quadrada. Meia dúzia de aves, quietas, estudavam atentamente os pernudinhos.

Havia vinte daquelas criaturas com aspecto de ave na sala de reuniões.

Estavam todas reunidas em torno de uma mesa, olhando para um documento feito de algo que parecia papel, aberto à sua frente. Uma das aves tinha um bastão indicador preso na garra e usava-o para identificar itens específicos no documento. Havia estranhos rabiscos no papel, totalmente incompreensíveis, porém Richard convenceu-se de que as aves estavam examinando um mapa.

Quando Richard tentou aproximar-se da mesa para ver melhor, as aves na frente dele gentilmente chegaram para o lado. Uma vez, durante a conversa que se seguiu, Richard chegou a pensar, deduzindo da linguagem corporal em torno da mesa, que uma das perguntas fora dirigida a ele. Eu estou realmente perdendo a cabeça, pensou ele, sacudindo a dita cuja.

Mas continuo sem saber por que me foi concedida toda essa liberdade, ruminou Richard, quando se sentou em seu quarto e comeu seu melão maná. Já se haviam passado seis semanas desde que a porta de sua prisão fora aberta.

Muitas mudanças haviam sido feitas em sua cela. Duas luzes do tipo lanterna foram instaladas em suas paredes e agora Richard dormia em cima de uma pilha de material semelhante a feno. Havia até um recipiente sempre cheio de água em um canto do quarto.

Richard ficou certo, logo que as restrições a ele foram levantadas, que seria apenas uma questão de horas, ou no máximo um dia ou dois, antes que alguma coisa realmente significativa acontecesse. De certo modo, estava correto, pois na manhã seguinte duas aves muito jovens o despertaram e começaram suas lições de linguagem de aves. Começaram com coisas muito simples, tais como melão maná, água e até mesmo Richard, sempre apontando primeiro e depois repetindo lentamente um som, claramente uma palavra em matraqueamento, para aquele item determinado. Com algum esforço, Richard adquiriu um vocabulário considerável, embora sua capacidade para diferenciar guinchos e matraqueamentos muito próximos um do outro não fosse das melhores. Mas seu fracasso total era quando chegava a hora de emitir aqueles sons. Ele simplesmente não tinha o equipamento necessário para falar a linguagem das aves.

Mas Richard esperava que de algum modo seu conhecimento de um quadro mais amplo fosse se esclarecendo, porém isso não aconteceu. Era certo que as aves estavam tentando educá-lo, e lhe haviam dado liberdade total para perambular por onde quisesse em seu cilindro — ele até mesmo comeu com elas ocasionalmente, quando estava com o grupo e os melões manás chegavam — mas para que servia tudo aquilo? O modo de olharem para ele, particularmente os líderes, sugeria a Richard que estavam à espera de alguma resposta de sua parte, mas que resposta? perguntou Richard a si mesmo pela centésima vez, ao terminar seu melão maná.

No que lhe foi possível perceber, as aves não tinham qualquer linguagem escrita. Richard não vira um único livro e nenhuma das criaturas jamais escreveu o que quer que seja. Havia aqueles estranhos documentos que pareciam mapas, que elas estudavam ocasionalmente, pelo menos segundo a interpretação que Richard dava àquela atividade, porém jamais criavam um deles… ou marcavam um deles… Eram um enigma.

E o que dizer dos pernudinhos? Richard esbarrara com as criaturinhas duas ou três vezes por semana, e certa vez um par ficou em seu quarto por várias horas, mas não ficavam quietos nunca nem deixavam que analisasse um deles.

Outra vez, quando tentou segurar um pernudinho em sua mão, Richard recebera um choque forte, quase que certamente elétrico, que o levara a soltar o pernudinho quase que imediatamente.

A mente de Richard saltava de imagem para imagem enquanto tentava assegurar-se da existência de algum plano ou modelo perceptível para sua vida na terra das aves. Ficou frustradíssimo. No entanto, não aceitava nem por um momento a não-existência de algum plano por trás de sua captura e subseqüente ampliação de liberdade. E continuava a procurar uma resposta revendo todas as suas experiências naquele domínio.

Só uma área principal da residência das aves permanecia fora dos limites para Richard, que provavelmente não poderia mesmo alcançá-la, já que não sabia voar. Ocasionalmente, via uma ou duas aves descer pelo grande corredor vertical e ir até abaixo dos níveis normalmente freqüentados por ele. Uma vez, Richard viu um par de pintainhos, não maiores do que uma mão humana, sendo trazidos para cima, vindos lá das escuras regiões inferiores. Em outra ocasião, Richard apontou para a escuridão que ficava embaixo, mas a ave que o acompanhava sacudiu a cabeça. A maior parte das criaturas já aprendera os simples movimentos de cabeça correspondentes a sim ou não na linguagem de Richard.

Mas em algum lugar deve haver informações adicionais. Eu devo estar deixando escapar algumas pistas. Ele jurou conduzir um levantamento completo de toda a área em que viviam as aves, não só os densos apartamentos do outro lado do corredor vertical, onde geralmente sentia ser indesejado, mas também nos grandes depósitos de melão maná dos níveis mais baixos. Eu farei um mapa, pensou, para ter a certeza de que não me esqueci de algo importante.

Tão logo Richard transcreveu a área em que viviam as aves em gráfico tridimensional, percebeu o que antes deixara de notar. As muitas passagens, muitas vezes desorganizadas, inclusive corredores verticais e horizontais tanto para se andar quanto para voar, jamais haviam sido sintetizadas por Richard em uma imagem coerente. É claro, disse para si mesmo quando projetou vistas diferentes de seu complexo mapa no monitor de seu computador. Como pude ser tão estúpido? Mais de setenta por cento do cilindro ainda não têm explicação.

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