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A Fúria dos Reis

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A Fúria dos Reis
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– Da última vez que vi Renly, ele era um garoto da idade de Bran. Não o conheço. Envie outra pessoa. Meu lugar é aqui, com meu pai, pelo tempo que lhe restar.

O filho olhara-a pouco satisfeito.

– Não há mais ninguém. Não posso ir em pessoa. Seu pai está doente demais. Peixe Negro é os meus olhos e ouvidos, não me atrevo a perdê-lo. Preciso do seu irmão para defender Correrrio quando nos pusermos em marcha…

– Em marcha? – ninguém lhe tinha dito uma palavra a respeito de marchas.

– Não posso ficar em Correrrio à espera da paz. Faz parecer que tenho medo de voltar ao campo de batalha. Meu pai me disse que, quando não há batalhas para lutar, os homens começam a pensar nas lareiras e nas colheitas. Até meus homens do Norte começam a ficar desassossegados.

Meus homens do Norte, ela pensou. Ele até começa a falar como um rei.

– Nunca ninguém morreu de desassossego, mas a precipitação é diferente. Plantamos sementes, é preciso deixá-las crescer.

Robb sacudiu a cabeça com teimosia:

– Atiramos algumas sementes ao vento, é tudo. Se sua irmã Lysa viesse nos ajudar, já teríamos tido notícias. Quantas aves enviamos para o Ninho da Águia? Quatro? Eu também quero a paz, mas por que os Lannister me dariam seja lá o que for se tudo o que fizer for ficar aqui à espera, enquanto meu exército se derrete à minha volta tão depressa como a neve do verão?

– Então, em vez de parecer covarde, vai dançar ao som da flauta de Lorde Tywin? – ela atirou em resposta. – Ele quer que marche sobre Harrenhal. Pergunte ao seu tio Brynden se…

– Nada disse de Harrenhal – Robb respondeu. – Bem, vai falar por mim com Renly, ou terei de mandar Grande-Jon?

A recordação lhe trouxe um sorriso abatido ao rosto. Aquela havia sido uma manobra tão óbvia, porém hábil para um rapaz de quinze anos. Robb sabia como um homem como Grande-Jon Umber era pouco adequado para tratar com um homem como Renly Baratheon, e sabia que ela também reconhecia isso. O que podia fazer a não ser concordar, rezando para que seu pai sobrevivesse até sua volta? Catelyn sabia que, se Lorde Hoster estivesse bem de saúde, teria ido ele próprio. Mas, mesmo assim, aquela partida foi dura, muito dura. Ele nem a reconheceu quando foi lhe dizer adeus.

– Minisa – ele a tinha chamado –, onde estão as crianças? Minha pequena Cat, minha querida Lysa…

Catelyn o beijou na testa e disse que seus bebês estavam bem.

– Espere por mim, senhor – ela dissera, enquanto os olhos dele se fechavam. – Esperei por você... Ah, tantas vezes.... Agora tem de esperar por mim.

O destino empurra-me para o sul, e mais para o sul, Catelyn pensou enquanto bebericava o chá adstringente. Quando é para o norte que eu devia ir, para o norte, para casa. Tinha escrito a Bran e Rickon na última noite que passara em Correrrio. Não esqueço de vocês, meus queridos, têm de acreditar nisso. É só que seu irmão precisa mais de mim.

– Devemos chegar hoje ao Vago superior, senhora – anunciou Sor Mandel quando Shadd servia o mingau. – Lorde Renly não estará longe, se o que dizem for verdade.

E o que lhe direi quando o encontrar? Que meu filho não o considera um verdadeiro rei? Não sentia prazer naquele encontro. Precisavam de amigos, não de mais inimigos, mas Robb nunca dobraria o joelho em homenagem a um homem que sentia não ter pretensão legítima ao trono.

Sua tigela estava vazia, embora quase não se lembrasse de saborear o mingau. Deixou-a de lado.

– É hora de seguirmos caminho.

Quanto mais depressa falasse com Renly, mais depressa poderia voltar para casa. Foi a primeira a montar, e determinou o ritmo da coluna. Hal Mollen cavalgava ao seu lado, transportando o estandarte da Casa Stark, o lobo gigante cinza num campo branco de gelo.

Estavam ainda a meio dia de viagem do acampamento de Renly, quando foram capturados.

Robin Flint tinha avançado para bater terreno, e regressou a galope com a notícia de um vigia que observava do telhado de um moinho de vento distante. Quando o grupo de Catelyn chegou ao moinho, o homem há muito tinha partido. Seguiram caminho, mas ainda não tinham percorrido uma milha quando os batedores de Renly caíram sobre eles, vinte homens a cavalo com cota de malha, liderados por um envelhecido cavaleiro de barba grisalha com gaios azuis na capa.

Quando o cavaleiro viu as bandeiras deles, trotou sozinho até junto de Catelyn.

– Senhora – ele se apresentou –, sou Sor Colen de Lagoas Verdes, ao seu dispor. Estas terras que atravessa são perigosas.

– Nosso assunto é urgente – respondeu-lhe Catelyn. – Venho como enviada do meu filho, Robb Stark, Rei do Norte, para tratar com Renly Baratheon, o Rei do Sul.

– Rei Renly é o senhor coroado e ungido de todos os Sete Reinos, senhora – respondeu Sor Colen, embora com cortesia suficiente. – Sua Graça está acampada com a sua tropa perto de Ponteamarga, onde a estrada das rosas atravessa o Vago. Será uma grande honra escoltá-la até ele – o cavaleiro levantou uma mão coberta de cota de malha e seus homens formaram uma dupla coluna a flanquear Catelyn e sua guarda. Escolta ou captor?, ela se perguntou. Nada havia a fazer a não ser confiar na honra de Sor Colen e na de Lorde Renly.

Viram a fumaça das fogueiras do acampamento quando ainda estavam a uma hora do rio. Então, chegou-lhes o som, pairando sobre fazendas, campos e planície ondulada, indistinto como o murmúrio de um mar distante, mas aumentando à medida que se aproximavam. Quando viram as águas barrentas do Vago cintilando ao sol, já conseguiam distinguir as vozes dos homens, o tinir do aço, os relinchos de cavalos. Mas nem o som nem a fumaça os prepararam para a tropa propriamente dita.

Milhares de fogueiras enchiam o ar com uma neblina fumacenta. Só as linhas de cavalaria estendiam-se ao longo de léguas. Sem dúvida, uma floresta havia sido abatida para fazer os grandes mastros de onde voavam as bandeiras. Grandes máquinas de cerco delineavam a beira relvada da estrada das rosas, catapultas, trabuquetes e aríetes rolantes montados em rodas que eram mais altas do que um homem a cavalo. As pontas de aço dos piques incendiavam-se, vermelhas, com a luz do sol, como se já estivessem ensanguentadas, ao passo que os pavilhões dos cavaleiros e dos grandes senhores nasciam da grama como cogumelos de seda. Viu homens com lanças, outros com espadas, e outros, ainda, com capacetes de aço e camisas de cota de malha, seguidoras de acampamentos exibindo seus encantos, arqueiros colocando penas em flechas, condutores levando carroças, pastores de suínos guardando porcos, pajens entregando mensagens, escudeiros afiando espadas, cavaleiros montando palafréns, cavalariços conduzindo corcéis de mau temperamento.

– É uma quantidade assustadora de homens – observou Sor Wendel Manderly enquanto atravessavam a antiga ponte de pedra da qual Ponteamarga retirara o nome.

– É verdade – Catelyn concordou.

Ao que parecia, quase toda a cavalaria do sul tinha respondido ao chamado de Renly. A rosa dourada de Jardim de Cima era vista por toda parte, cosida do lado direito do peito de homens de armas e criados, batendo e esvoaçando dos estandartes de seda verde que adornavam lanças e piques, pintada nos escudos pendurados à porta dos pavilhões dos filhos, irmãos, primos e tios da Casa Tyrell. Catelyn viu também a raposa e as flores da Casa Florent, as maçãs vermelha e verde dos Fossoway, o caçador andante de Lorde Tarly, folhas de carvalho dos Oakheart, os grous dos Crane, a nuvem de borboletas negras e laranjas dos Mullendore.

Na outra margem do Vago, os senhores da tempestade tinham erguido seus estandartes, os vassalos de Renly, juramentados à Casa Baratheon e a Ponta Tempestade. Catelyn reconheceu os rouxinóis de Bryce Caron, as penas dos Penrose e a tartaruga marinha de Lorde Estermont, verde em fundo verde. Mas, para cada escudo que reconhecia, havia uma dúzia que lhe eram estranhos, usados pelos pequenos senhores juramentados aos vassalos e por cavaleiros menores e outros livres que tinham se reunido aos montes para transformar Renly Baratheon num rei de fato, e não apenas de nome.

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