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A Fúria dos Reis

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A Fúria dos Reis
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A bandeira do próprio Renly voava bem alto, acima de todas. Do topo da mais alta das suas torres de cerco, uma imensidão de carvalho com rodas cobertas de peles cruas esvoaçava o maior estandarte de guerra que Catelyn já tinha visto – um pano suficientemente grande para cobrir o chão de muitos salões, de um dourado reluzente, com o veado coroado dos Baratheon em negro, empinando-se, orgulhoso e alto.

– Senhora, ouve esse barulho? – perguntou Hallis Mollen, aproximando-se a trote. – O que é aquilo?

Catelyn pôs-se a escutar. Gritos, cavalos berrando, o tinir do aço e…

– Aplausos – ela disse. Tinham subido uma ladeira pouco inclinada na direção de uma fileira de pavilhões de cores brilhantes erguidos no cume. Enquanto passavam entre eles, a multidão tornou-se mais densa, e os sons, mais fortes. E então Catelyn viu.

Embaixo, à sombra das ameias de pedra e madeira de um pequeno castelo, desenrolava-se uma luta corpo a corpo.

Um campo havia sido limpo, e cercas, galerias e barreiras de torneio tinham sido construídas. Centenas de pessoas, talvez milhares, tinham se reunido para assistir. Pelo aspecto do terreno, rasgado, lamacento e semeado de partes de armadura e lanças quebradas, aquilo durava há um dia, ou mais, mas agora o fim se aproximava. Menos de vinte cavaleiros permaneciam montados, lançando-se uns sobre os outros, golpeando-se, enquanto espectadores e combatentes caídos os incentivavam. Viu dois corcéis de batalha com armadura completa colidir e cair num emaranhado de aço e carne de cavalo.

– Um torneio – Hal Mollen declarou. Tinha predileção por anunciar o óbvio em voz alta.

–Ah, magnífico – Sor Wendel Manderly exclamou, quando um cavaleiro com um manto de riscas multicoloridas se virou para trás para golpear, com um machado de cabo longo estilhaçando o escudo do homem que o perseguia, deixando-o cambaleando nos estribos.

A multidão à frente do grupo tornava difícil avançar.

– Senhora Stark – Sor Colen pediu –, se seus homens tiverem a bondade de esperar aqui, vou apresentá-la ao rei.

– Como quiser.

Ela deu a ordem, embora tivesse sido obrigada a levantar a voz para ser ouvida por cima do burburinho do torneio. Sor Colen levou o cavalo lentamente pela mão através da multidão, com Catelyn montada logo atrás. Um rugido subiu da multidão quando um homem de barba vermelha, sem capacete e um grifo no escudo, caiu perante um grande cavaleiro revestido de armadura azul. O aço que usava era de um cobalto profundo, assim como a maça de guerra que manejava com efeitos mortíferos, e os arreios da montaria exibiam a heráldica esquartelada do sol e da lua da Casa Tarth.

– Malditos sejam os deuses, Ronnet Vermelho caiu – praguejou um homem.

– Loras vai tratar desse azul… – respondeu um companheiro, antes que um rugido abafasse o resto das suas palavras.

Outro homem estava no chão, preso por baixo do seu cavalo ferido, ambos gritando de dor. Escudeiros apressaram-se para ajudá-los.

Isto é uma loucura, Catelyn pensou. Com inimigos verdadeiros por todos os lados e metade do reino em chamas, Renly fica aqui brincando de guerra, como um menino com a sua primeira espada de madeira.

Os senhores e senhoras na galeria estavam tão absortos na luta como os homens no terreno. Catelyn observou-os bem. Seu pai tratara com frequência com os senhores do sul, e não tinham sido poucos os que visitaram Correrrio. Reconheceu Lorde Mathis Rowan, mais corpulento e florido que nunca, com a árvore dourada da sua Casa desenhada no gibão branco. Abaixo dele encontrava-se a Senhora Oakheart, minúscula e delicada, e à sua esquerda Lorde Randyll Tarly, de Monte Chifre, com a espada longa, Veneno do Coração, apoiada no encosto da cadeira. Outros ela conhecia apenas pelos símbolos, e alguns lhe eram quase estranhos.

No meio, observando e rindo com sua jovem rainha ao lado, estava um fantasma com uma coroa dourada.

Não é de admirar que os senhores se reúnam em volta dele com tanto fervor, pensou, ele é Robert redivivo. Renly era bonito como Robert havia sido; de membros longos e ombros largos, com o mesmo cabelo negro como carvão, fino e liso, os mesmos profundos olhos azuis e o mesmo sorriso fácil. O estreito aro que envolvia sua testa parecia lhe ficar bem. Era de ouro maciço, um anel de rosas magnificamente trabalhadas; na parte da frente erguia-se uma cabeça de veado em jade verde-escuro, adornada com olhos e chifres dourados.

O veado coroado também decorava a túnica de veludo do rei, bordado em fios de ouro no peito; o símbolo Baratheon nas cores de Jardim de Cima. A moça que dividia o cadeirão com ele também era de Jardim de Cima, sua jovem rainha, Margaery, filha de Lorde Mace Tyrell. Catelyn sabia que aquele casamento era a argamassa que mantinha unida a grande aliança do sul. Renly tinha vinte e um anos, e a moça não era mais velha do que Robb, muito bonita, com suaves olhos de corça e uma crina de cabelo castanho encaracolado que caía sobre seus ombros em largos anéis. Seu sorriso era tímido e doce.

No campo, outro homem foi derrubado pelo cavaleiro do manto de arco-íris listrado, e o rei gritou de satisfação, como todos os outros. “Loras!”, Catelyn o ouviu chamar. “Loras! Jardim de Cima!” A rainha bateu palmas de excitação.

Catelyn virou-se para ver o fim da luta. Só restavam agora quatro homens, e havia poucas dúvidas quanto a quem era o favorito do rei e dos plebeus. Não conhecera Sor Loras Tyrell, mas, mesmo no longínquo norte, ouviam-se histórias sobre a maestria do jovem Cavaleiro das Flores, que agora montava um garanhão branco e alto revestido de cota de malha prateada e lutava com um machado de cabo longo. Uma crista de rosas douradas corria pelo meio do seu elmo.

Dois dos outros sobreviventes tinham se alinhado. Esporearam as montarias na direção do cavaleiro da armadura de cobalto. Enquanto se aproximavam de ambos os lados, o cavaleiro azul puxou as rédeas com força, atingindo um homem em cheio no rosto com seu escudo rachado, enquanto seu cavalo negro de batalha escoiceava o outro com um casco calçado de aço. Num piscar de olhos, um combatente foi derrubado do cavalo e o outro ficou cambaleando no seu. O cavaleiro azul deixou seu escudo partido cair no chão para liberar o braço esquerdo, e, então, o Cavaleiro das Flores caiu sobre ele. O peso do aço que usava parecia quase não diminuir a graça e a rapidez com que Sor Loras se movia, com o manto de arco-íris rodopiando atrás de si.

Os cavalos branco e negro giraram como amantes numa dança das colheitas, com os cavaleiros atirando aço um ao outro em vez de beijos. O machado longo cintilou, e a maça de guerra rodopiou. Ambas as armas estavam embotadas, mas, mesmo assim, causavam um terrível estrondo. Sem escudo, o cavaleiro azul estava ficando com a pior parte. Sor Loras fazia chover golpes sobre sua cabeça e seus ombros, aos gritos de “Jardim de Cima!” vindos da multidão. O outro respondia com a maça, mas, onde quer que a bola chegasse, Sor Loras interpunha seu escudo verde entalhado, adornado com três rosas douradas. Quando o machado atingiu a mão do cavaleiro azul na preparação de um golpe e arrancou dele a maça de armas, a multidão berrou como um animal no cio. O Cavaleiro das Flores ergueu o machado para o golpe final.

O cavaleiro azul lançou-se sobre ele. Os garanhões esbarraram um no outro, a cabeça embotada do machado esmagou-se contra a placa de peito azul arranhada… Mas, de algum modo, o cavaleiro azul conseguiu agarrar o cabo com dedos enluvados em aço. Arrancou-o das mãos de Sor Loras, e de repente os dois estavam lutando sem armas em cima das montarias e um instante depois caíam. Quando os cavalos se afastaram, estatelaram-se no chão com uma força de sacudir os ossos. Loras Tyrell, que ficou por baixo, sofreu com o maior peso do impacto. O cavaleiro azul desembainhou uma longa adaga e abriu o visor de Tyrell. O bramido da multidão era alto demais para Catelyn ouvir o que Sor Loras dissera, mas ela pôde ver a palavra nos seus lábios rachados e ensanguentados: Rendo-me.

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