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A Fúria dos Reis

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A Fúria dos Reis
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– Martell é honrado demais para assassinar uma menina de nove anos, especialmente se for tão doce e inocente como Myrcella. Enquanto a tiver em sua posse, pode ficar razoavelmente certo de que do nosso lado honraremos o acordo, cujos termos são ricos demais para recusar. Myrcella é a menor parte do trato. Também lhe ofereci o assassino da irmã, um lugar no conselho, alguns castelos na Marca…

– É demais! – Cersei afastou-se dele, irrequieta como uma leoa, com as saias rodopiando. – Ofereceu demais, e sem a minha autorização ou consentimento.

– É do Príncipe de Dorne que estamos falando. Se lhe oferecesse menos, o mais certo era que cuspisse na minha cara.

É demais! – Cersei insistiu, rodopiando para olhar o irmão de frente.

– O que você lhe teria oferecido? Esse buraco que tem entre as pernas? – Tyrion a desafiou, com sua própria fúria rebentando.

Dessa vez ele viu o tabefe chegando. A cabeça oscilou, soltando um crac.

– Querida, querida irmã... Garanto-lhe que esta foi a última vez que me bateu na vida.

A irmã riu.

– Não me ameace, homenzinho. Acredita que a carta de nosso pai o mantém a salvo? Um pedaço de papel. Eddard Stark também tinha um pedaço de papel, e olhe o bem que lhe fez.

Eddard Stark não tinha a Patrulha da Cidade, Tyrion pensou, nem os meus homens dos clãs, nem os mercenários que Bronn contratou. Eu tenho. Ou assim ele esperava, confiando em Varys, em Sor Jacelyn Bywater, em Bronn. Lorde Stark provavelmente também tivera suas desilusões.

Mas nada disse. Um homem sensato não lançava fogovivo num braseiro. Em vez disso, serviu-se de outra taça de vinho.

– Em que segurança julga que Myrcella estará se Porto Real cair? Renly e Stannis pendurarão a cabeça dela ao lado da sua.

Cersei começou a chorar.

Tyrion Lannister não teria ficado mais estupefato se o próprio Aegon, o Conquistador, tivesse entrado de rompante na sala, montado num dragão e fazendo malabarismos com tortas de limão. Não via a irmã chorar desde que eram crianças em Rochedo Casterly. Acanhadamente, deu um passo na sua direção… Mas aquela mulher era Cersei! Estendeu uma mão hesitante para o seu ombro.

– Não me toque – ela reagiu, afastando-se. Não devia, mas aquela reação magoou mais do que qualquer tapa. De rosto afogueado, tão zangada como atingida pela dor, Cersei lutou para respirar: – Não me olhe, não… assim, não… você, não.

Delicadamente, Tyrion voltou-lhe as costas:

– Não pretendia assustá-la. Prometo que nada acontecerá a Myrcella.

– Mentiroso – ela disse atrás dele. – Não sou uma criança para ser acalmada com promessas ocas. Também me disse que libertaria Jaime. Pois bem. Onde está ele?

– Em Correrrio, eu calculo. A salvo e sob vigilância, até que eu encontre uma maneira de libertá-lo.

Cersei fungou:

– Eu devia ter nascido homem. Não teria necessidade de nenhum de vocês. Não permitiria que nada disso acontecesse. Como Jaime pôde se deixar capturar por aquele garoto? E meu pai? Confiei nele, como uma idiota, mas onde está agora, justamente quando é necessário aqui? O que ele está fazendo?

– A guerra.

– De dentro das muralhas de Harrenhal? – Cersei exclamou desdenhosamente. – Curiosa maneira de lutar. A meu ver, parece, de forma suspeita, com se esconder.

– Pois veja de novo.

– Do que mais chamaria? Nosso pai está num castelo, e Robb Stark em outro, e nenhum deles faz coisa alguma.

– Assim deve ser – Tyrion sugeriu. – Cada um espera que o outro se mova, mas o leão está quieto, equilibrado, retorcendo a cauda, enquanto o corço está paralisado pelo medo, com as tripas transformadas em gelatina. Qualquer que seja o lado onde saltar, o leão vai capturá-lo, e ele sabe disso.

– E você tem mesmo certeza de que nosso pai é o leão?

Tyrion sorriu.

– Está em todos os nossos estandartes.

Ela ignorou a brincadeira.

– Se tivesse sido nosso pai o capturado, Jaime não estaria parado, garanto-lhe.

Jaime estaria desfazendo sua tropa em pedaços sangrentos contra as muralhas de Correrrio, e os Outros teriam sua chance. Nunca teve paciência, tal como você, querida irmã.

– Nem todos podemos ser tão ousados como Jaime. Mas há outras maneiras de ganhar guerras. Harrenhal é forte e está bem situado.

– E Porto Real não, como ambos sabemos perfeitamente. Enquanto nosso pai brinca de leão e corço com o garoto Stark, Renly marcha pela estrada das rosas. Pode estar junto aos nossos portões a qualquer momento!

– A cidade não cairá em um dia. De Harrenhal até aqui é uma marcha rápida e reta pela estrada do rei. Renly quase não terá tempo de preparar suas máquinas de cerco antes que nosso pai o pegue pela retaguarda. A tropa dele será o martelo; as muralhas da cidade, a bigorna. É uma linda imagem.

Os olhos verdes de Cersei penetraram-no, desconfiados, mas com fome da confiança com que ele a alimentava.

– E se Robb Stark se puser em marcha?

– Harrenhal está suficientemente perto dos vaus do Tridente para que Roose Bolton possa atravessá-lo com a infantaria nortenha e ir se juntar à cavalaria do Jovem Lobo. Stark não pode marchar sobre Porto Real sem tomar primeiro Harrenhal, e mesmo com Bolton não tem força suficiente para fazer isso – Tyrion experimentou o mais conquistador dos seus sorrisos. – Nesse meio-tempo, nosso pai se alimenta da gordura das terras fluviais enquanto nosso tio Stafford reúne recrutas frescos no Rochedo.

Cersei olhou-o com suspeita.

– Como pode saber tudo isso? Nosso pai falou das suas intenções quando o enviou para cá?

– Não. Passei os olhos por um mapa.

O olhar dela transformou-se em desdém.

– Imaginou cada uma dessas palavras nessa sua cabeça grotesca, não foi, Duende?

Tyrion deu um pequeno estalo com a língua.

– Querida irmã, eu pergunto: se não estivéssemos ganhando, teriam os Stark pedido a paz? – puxou a carta que Sor Cleos Frey trouxera. – O Jovem Lobo enviou-nos condições, entende? Condições inaceitáveis, com certeza, mas é um começo, mesmo assim. Quer vê-las?

– Sim – e assim, subitamente, Cersei era de novo uma rainha. – Como é que você as tem? Deviam ter sido entregues a mim.

– Para que serve uma Mão se não for para lhe entregar coisas?

Tyrion entregou-lhe a carta. A bochecha ainda latejava onde a mão de Cersei havia deixado sua marca. Que me esfole a cara se for esse o pequeno preço a pagar pelo seu consentimento com o casamento de Dorne. Agora iria obtê-lo, podia senti-lo.

E também o conhecimento certo a respeito de um informante… Bem, isso era a cereja do bolo.

Bran

A Dançarina estava envolvida em jaezes de lã branca como a neve, adornada com o lobo gigante cinza da Casa Stark, ao passo que Bran usava calções cinza e um gibão branco, com as mangas e o colarinho debruados de veiros. Sobre o coração estava seu broche de prata e azeviche polido em forma de cabeça de lobo. Preferiria o Verão a um lobo de prata ao peito, mas Sor Rodrik mostrou-se inflexível.

Os degraus baixos de pedra detiveram a Dançarina apenas por um momento. Quando Bran a incentivou a avançar, ultrapassou-os com facilidade. Para lá das largas portas de carvalho e ferro, oito longas filas de mesas recém-montadas enchiam o Grande Salão de Winterfell, quatro de cada lado da galeria central. Homens aglomeravam-se nos bancos, ombro contra ombro.

– Stark! – gritavam, pondo-se em pé, enquanto Bran passava por eles a trote. – Winterfell! Winterfell!

Já tinha idade suficiente para saber que não era realmente por ele que gritavam… Era a colheita que festejavam, Robb e suas vitórias, o senhor seu pai e o avô e todos os Stark desde há oito mil anos que aclamavam. Mas, mesmo assim, aquilo fez com que inchasse de orgulho. Durante o tempo que levou para atravessar a cavalo aquele salão, esqueceu-se de que era aleijado. Mas a realidade se fez presente quando alcançou o estrado, com todos os olhos postos nele, e Osha e Hodor desprenderam as suas correias e presilhas, ergueram-no do dorso da Dançarina e o transportaram para o cadeirão dos seus antepassados.

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