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A Tormenta de Espadas

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A Tormenta de Espadas
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Os capitães e senhores vassalos de Robb espalhavam-se pelo salão, alguns armados e com as cotas de malha vestidas, outros em vários estados de desalinho e nudez. Sor Raynald e o tio, Sor Rolph, encontravam-se entre eles, mas Robb tinha achado por bem poupar sua rainha daquela monstruosidade. O Despenhadeiro não fica longe de Rochedo Casterly, recordou Catelyn. Jeyne pode perfeitamente ter brincado com esses garotos quando eram crianças.

Voltou a baixar o olhar para os cadáveres dos escudeiros Tion Frey e Willem Lannister, e esperou que o filho falasse.

Pareceu passar-se muito tempo até que Robb erguesse o olhar dos mortos ensanguentados.

– Pequeno-Jon – disse –, diga ao seu pai que os traga. – Sem uma palavra, Pequeno-Jon Umber virou-se para obedecer, com os passos ecoando no grande salão de pedra.

Enquanto Grande-Jon introduzia os prisioneiros na sala, Catelyn notou o modo como alguns dos outros homens recuavam para lhes dar espaço, como se a traição pudesse de algum modo ser transmitida por um toque, um olhar, um pouco de tosse. Os captores e os cativos eram muito parecidos; homens grandes, todos eles, com barbas espessas e cabelos compridos. Dois dos homens de Grande-Jon estavam feridos, e três de seus prisioneiros também. Só o fato de alguns terem lanças e outros bainhas vazias os distinguia. Todos usavam camisões de cota de malha ou camisas de anéis cosidos, com botas pesadas e mantos grossos, alguns de lã, outros de peles. O Norte é duro e frio, e não tem misericórdia, Ned tinha lhe dito quando ela veio a Winterfell pela primeira vez, mil anos antes.

– Cinco – disse Robb quando os prisioneiros foram postos à sua frente, molhados e silenciosos. – São todos?

– Eram oito – trovejou Grande-Jon. – Matamos dois quando os capturamos e um terceiro está agora agonizando.

Robb estudou o rosto dos presos.

– Foram precisos oito de vocês para matar dois escudeiros desarmados.

Edmure Tully interveio.

– Eles também assassinaram dois de meus homens para chegar à torre. Delp e Elwood.

– Não foi assassinato, sor – disse Lorde Rickard Karstark, que não se mostrava mais derrotado pela corda que prendia seus pulsos do que pelo sangue que corria por seu rosto. – Qualquer homem que se interponha entre um pai e a sua vingança está pedindo a morte.

As palavras dele ressoaram nos ouvidos de Catelyn, duras e cruéis, como o bater de um tambor de guerra. Sua garganta estava completamente seca. Fui eu que fiz isso. Estes dois rapazes morreram para que minhas filhas pudessem sobreviver.

– Eu vi seus filhos morrerem naquela noite no Bosque dos Murmúrios – disse Robb ao Lorde Karstark. – Tion Frey não matou Torrhen. Willem Lannister não tirou a vida de Eddard. Assim, como pode chamar isso de vingança? Isso foi uma loucura, e um assassinato sangrento. Seus filhos morreram honradamente no campo de batalha, de espada nas mãos.

– Eles morreram – disse Rickard Karstark, sem ceder um milímetro. – O Regicida abateu-os. Estes dois eram da laia dele. Só sangue pode pagar sangue.

– O sangue de crianças? – Robb apontou para os cadáveres. – Que idade eles tinham? Doze anos, treze? Escudeiros.

– Morrem escudeiros em todas as batalhas.

– Sim, morrem lutando. Tion Frey e Willem Lannister entregaram as espadas no Bosque dos Murmúrios. Eram prisioneiros, trancados numa cela, adormecidos, desarmados... garotos. Olhe para eles!

Lorde Kastark preferiu olhar para Catelyn.

– Diga à sua mãe para olhar para eles – falou. – Ela matou-os tanto quanto eu.

Catelyn apoiou uma mão no espaldar da cadeira de Robb. O salão pareceu girar à sua volta. Sentiu-se prestes a vomitar.

– Minha mãe não teve nada a ver com isso – disse Robb, irritado. – Isso foi obra sua. O assassinato foi seu. A traição foi sua.

– Como pode ser traição matar Lannisters quando não é traição libertá-los? – perguntou rudemente Karstark. – Vossa Graça esqueceu-se de que estamos em guerra com o Rochedo Casterly? Na guerra, matam-se os inimigos. Seu pai não lhe ensinou isso, rapaz?

Rapaz? – com o punho revestido de cota de malha, Grande-Jon deu uma bofetada que deixou Rickard Karstark de joelhos.

– Deixe-o! – a voz de Robb ressoou com autoridade. Umber afastou-se do cativo.

Lorde Karstark cuspiu um dente.

– Sim, Lorde Umber, deixe-me para o rei. Ele pretende me dar uma descompostura antes de me perdoar. É assim que ele lida com a traição, o nosso Rei no Norte. – Sorriu um sorriso úmido e vermelho. – Ou será que devo chamá-lo de Rei que perdeu o Norte, Vossa Graça?

Grande-Jon tirou uma lança das mãos do homem que estava ao seu lado e ergueu-a sobre o ombro.

– Deixe-me atravessá-lo, senhor. Deixe-me abrir a barriga dele para vermos a cor de suas tripas.

As portas do salão abriram-se com estrondo, e Peixe Negro entrou com água escorrendo do manto e do elmo. Homens de armas Tully seguiram-no, enquanto lá fora relâmpagos cruzavam o céu e uma chuva forte e negra assolava as pedras de Correrrio. Sor Brynden tirou o elmo e caiu sobre um joelho.

– Vossa Graça – foi tudo que disse, mas seu tom lúgubre falava por si.

– Ouvirei em privado o que Sor Brynden tem a dizer, na sala de audiências. – Robb levantou-se. – Grande-Jon, mantenha Lorde Karstark aqui até a minha volta, e enforque os outros sete.

Grande-Jon abaixou a lança.

– Até os mortos?

– Sim. Não quero essa gente conspurcando os rios do senhor meu tio. Que alimentem os corvos.

Um dos prisioneiros ajoelhou-se.

– Misericórdia, senhor. Eu não matei ninguém, fiquei só à porta, de vigia, por causa dos guardas.

Robb refletiu naquilo por um momento.

– Conhecia as intenções de Lorde Rickard? Viu as facas desembainhadas? Ouviu os gritos, as súplicas de misericórdia?

– Sim, mas não participei. Era só o vigia, juro...

– Lorde Umber – disse Robb –, este era só o vigia. Enforque-o por último, para que possa vigiar a morte dos outros. Mãe, tio, venham comigo, por favor. – Deu as costas enquanto os homens de Grande-Jon cerravam fileiras em volta dos prisioneiros e os levavam do salão sob a ameaça de lanças. Lá fora, os trovões ribombavam e estrondeavam, tão alto que parecia que o castelo estava ruindo em volta de seus ouvidos. Será este o som de um reino desmoronando?, perguntou Catelyn a si mesma.

Estava escuro dentro da sala de audiências, mas pelo menos o som dos trovões era abafado por mais uma parede de pedra. Um criado entrou com uma candeia de azeite para acender a lareira, mas Robb mandou-o embora e ficou com a candeia. Havia mesas e cadeiras, mas só Edmure se sentou, e levantou-se quando percebeu que os outros permaneceram em pé. Robb tirou a coroa e pousou-a na mesa, à sua frente.

Peixe Negro fechou a porta.

– Os Karstark desapareceram.

– Todos? – seria ira ou desespero o que pesava daquela maneira na voz de Robb? Nem mesmo Catelyn tinha certeza.

– Todos os guerreiros – respondeu Sor Brynden. – Algumas seguidoras de acampamento e criados foram deixados com os feridos. Interrogamos tantos quantos foram necessários para nos certificarmos da verdade. Começaram a partir ao cair da noite, escapando a princípio um a um ou dois a dois, e depois em grupos maiores. Foi ordenado aos feridos e criados que mantivessem as fogueiras acesas para que ninguém soubesse que tinham partido, mas depois que começou a chover, deixou de valer a pena.

– Irão voltar a se agrupar longe de Correrrio? – perguntou Robb.

– Não. Espalharam-se, à caça. Lorde Karstark jurou oferecer a mão de sua filha donzela a qualquer homem, bem ou malnascido, que lhe traga a cabeça do Regicida.

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