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A Fúria dos Reis

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A Fúria dos Reis
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– Stannis precisa ter algum pretexto para justificar sua rebelião. Que esperava que ele escrevesse? “Joffrey é o filho e herdeiro legítimo do meu irmão, mas, apesar de tudo, pretendo tirar o trono dele”?

– Não admitirei que me chamem de prostituta!

Ora, mana, ele nunca disse que Jaime lhe pagou. Tyrion fingiu que voltava a passar os olhos pelo texto. Havia uma certa frase…

– “Feito à Luz do Senhor” – leu em voz alta. – Estranha escolha de palavras, esta.

Pycelle pigarreou.

– Essas palavras aparecem com frequência em cartas e documentos vindos das Cidades Livres. Não significam mais do que, digamos, escrito à vista de deus. O deus dos sacerdotes vermelhos. É o costume deles, creio.

– Varys contou-nos há alguns anos que a Senhora Selyse tinha se tornado devota de uma sacerdotisa vermelha – Mindinho lembrou-lhes.

Tyrion bateu levemente no papel.

– E agora, ao que parece, o senhor seu esposo fez o mesmo. Podemos usar isso contra ele. Instigue o Alto Septão a revelar como Stannis se virou contra os deuses, tal como se virou contra seu legítimo rei…

– Sim, sim – a rainha disse impacientemente. – Mas, primeiro, temos de impedir que esta sujeirada se espalhe mais. O conselho deve emitir um édito. Qualquer homem que for ouvido falando de incesto ou chamando Joff de bastardo deverá perder a língua.

– Uma medida prudente – disse o Grande Meistre Pycelle, com a corrente do seu cargo tilintando enquanto balançava a cabeça.

– Uma loucura – Tyrion suspirou. – Quando arranca a língua de um homem, não está provando que ele é mentiroso, mas apenas dizendo ao mundo que teme o que ele possa dizer.

– Então o que você acha que devemos fazer? – quis saber sua irmã.

– Muito pouco. Deixe-os cochichar, pois vão se cansar da história em breve. Qualquer homem com um pingo de bom-senso verá nela uma tentativa desastrada de justificar a usurpação de uma coroa. Por acaso Stannis mostra provas? Como poderia, se nunca aconteceu? – Tyrion dirigiu à irmã seu sorriso mais doce.

– É verdade – ela se obrigou dizer. –Mas, mesmo assim…

– Vossa Graça, seu irmão tem razão nisso – Petyr Baelish juntou os dedos. – Se tentarmos silenciar este boato, isso só lhe dará crédito. É melhor tratá-lo com desprezo, como a patética mentira que é. E, enquanto isso, combater o fogo com fogo.

Cersei mediu-o com o olhar.

– Que tipo de fogo?

– Talvez uma história da mesma natureza. Mas mais fácil de se acreditar. Lorde Stannis passou a maior parte do seu casamento afastado da esposa. Não que o culpe, pois faria o mesmo se fosse casado com a Senhora Selyse. Em todo caso, se espalharmos que a filha dela é bastarda, e Stannis um marido traído, bem… o povo está sempre ansioso por acreditar no pior em relação aos seus senhores, em especial àqueles que são tão rígidos, amargos e orgulhosos, como Stannis Baratheon.

– Ele nunca foi muito amado, é verdade – Cersei refletiu por um momento. – Então, revidamos na sua própria moeda. Sim, gosto disso. Quem podemos indicar como amante da Senhora Selyse? Creio que tem dois irmãos. E um dos seus tios tem estado com ela em Pedra do Dragão durante todo este tempo…

– Sor Axell Florent é seu castelão – embora Tyrion relutasse em admitir, o plano de Mindinho tinha potencial. Stannis nunca tinha se apaixonado pela esposa, mas era eriçado como um porco-espinho quando se tratava da sua honra e desconfiado por natureza. Se conseguissem semear a discórdia entre ele e seus seguidores, isso só fortaleceria a causa deles. – Disseram-me que a criança tem as orelhas dos Florent.

Mindinho fez um gesto desinteressado.

– Um enviado comercial de Lys, uma vez observou, para mim, que Lorde Stannis devia amar muito a filha, pois erigiu centenas de estátuas dela ao longo das muralhas de Pedra do Dragão. “Senhor”, tive de lhe dizer, “aquilo são gárgulas” – e soltou uma pequena gargalhada. – Sor Axell poderia servir para pai de Shireen, mas, segundo a minha experiência, quanto mais bizarra e chocante for a história, mais provável é que a repitam. Stannis tem um bobo especialmente grotesco, um imbecil com a cara tatuada.

Grande Meistre Pycelle olhou-o boquiaberto, horrorizado.

– Com certeza não pretende sugerir que a Senhora Selyse levaria um bobo para sua cama?

– É preciso ser um bobo para querer se deitar com Selyse Florent – Mindinho respondeu. – Sem dúvida, Cara-Malhada fez-me lembrar de Stannis. E as melhores mentiras contêm dentro de si pepitas de verdade, suficientes para dar o que pensar ao ouvinte. Ora, acontece que este bobo é completamente devoto à menina e a segue para todo lado. Até se parecem um pouco. Shireen também tem uma cara malhada e meio congelada.

Pycelle estava perdido.

– Mas isso foi da escamagris, que quase a matou quando bebê, pobrezinha.

– Gosto mais da minha história – disse Mindinho. – E o mesmo acontecerá com o povo. A maioria acredita que, se uma mulher comer coelho durante a gravidez, dará à luz um filho com grandes orelhas de abano.

Cersei sorriu o tipo de sorriso que costumava reservar para Jaime.

– Lorde Petyr, você é uma criatura perversa.

– Obrigado, Vossa Graça.

– E um mentiroso de grande talento – acrescentou Tyrion, com menos calor. Esse aí é mais perigoso do que eu pensava, refletiu.

Os olhos cinza-esverdeados de Mindinho enfrentaram o olhar desigual do anão sem sinal de desconforto.

– Todos temos nossos dons, senhor.

A rainha estava envolvida demais na sua vingança para reparar na conversa.

– Chifrado por um bobo imbecil! Vão rir de Stannis em todas as tabernas deste lado do mar estreito.

– A história não deve partir de nós – Tyrion observou –, pois seria vista como uma mentira contada em proveito próprio – que é o que ela é, é claro.

De novo, foi Mindinho quem forneceu a resposta.

– As prostitutas adoram fofocar, e acontece que possuo alguns bordéis. Sem dúvida Varys poderá plantar sementes nas cervejarias e refeitórios.

– Varys – Cersei franziu a sobrancelha. – Onde está Varys?

– Eu próprio tenho pensado nisso, Vossa Graça.

– A Aranha tece suas teias secretas de dia e de noite – disse o Grande Meistre Pycelle em tom sinistro. – Não confio nesse homem, senhores.

– E ele fala tão bem de você... – Tyrion empurrou-se da cadeira. Acontece que sabia o que o eunuco andava fazendo, mas não era nada que os outros conselheiros precisassem ouvir. – Peço-lhes perdão, senhores. Outros assuntos me chamam.

Cersei ficou imediatamente desconfiada:

– Assuntos do rei?

– Nada com que tenha de se preocupar.

– Prefiro eu mesma avaliar isso.

– Quer estragar minha surpresa? Vou mandar fazer um presente para Joffrey. Uma pequena corrente.

– Para que ele precisaria de mais uma corrente? Tem correntes de ouro e de prata em maior número do que consegue usar. Se pensa por um instante que pode comprar o amor de Joff com presentes…

– Ora, certamente tenho o amor do rei, tal como ele tem o meu. E creio que ele um dia apreciará esta corrente mais do que todas as outras.

O homenzinho fez uma reverência e bamboleou-se em direção à porta.

Bronn esperava na entrada da sala do conselho para escoltá-lo de volta à Torre da Mão.

– Os ferreiros estão na sua sala de audiências, no aguardo da sua vontade – ele disse enquanto atravessavam o pátio.

– No aguardo da minha vontade. Gosto de como isso soa, Bronn. Quase parece um cortesão de verdade. A seguir, vai se ajoelhar.

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