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A Fúria dos Reis

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A Fúria dos Reis
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A trilha do rio não era nenhuma estrada do rei, mas também não era ruim e, no final, as carroças puderam avançar com rapidez. Viram a primeira casa uma hora antes do cair da noite, uma pequena e confortável casa de campo, com telhado de sapé e rodeada de campos de trigo. Yoren avançou na frente, chamando, mas não obteve resposta.

– Mortos, talvez. Ou escondidos. Dobber, Rey, comigo – os três homens entraram na casa. – Não há vasilhas nem sinal de moedas – Yoren resmungou quando retornaram. – Nenhum animal. O mais certo é que fugiram. Talvez encontremos essa gente na estrada do rei.

Pelo menos a casa e os campos não tinham sido queimados e não havia cadáveres por ali. Tarber encontrou um jardim no fundo. Desenterraram algumas cebolas e rabanetes e encheram um saco com repolhos antes de seguirem caminho.

Um pouco adiante, vislumbraram uma cabana de lenhador rodeada de árvores antigas e de troncos ordenadamente empilhados, prontos para virar lenhas, e mais tarde viram uma casa de palafitas decrépita, que se debruçava sobre o rio, apoiada em estacas com três metros de altura, ambos desertos. Passaram por mais campos, de trigo, milho e cevada amadurecendo ao sol, mas não havia homens sentados nas árvores ou percorrendo as fileiras com foices. Por fim, a vila surgiu à vista; um aglomerado de casas brancas espalhadas em torno das muralhas de um castro, um grande septo com um telhado de madeira, a casa-torre do senhor empoleirada numa pequena elevação a oeste… E nenhum sinal de gente em parte alguma.

Yoren ficou sentado no cavalo, franzindo o cenho por entre o emaranhado da barba:

– Não gosto disso. Mas está aí. Vamos dar uma espiada. E que seja cuidadosa. Ver se há alguém escondido. Pode ser que tenham deixado um barco para trás ou algumas armas que possamos usar.

O irmão negro deixou dez homens guardando as carroças e a garotinha chorona e dividiu o resto em grupos de cinco para fazer uma busca na vila.

– Fiquem de olhos e ouvidos abertos – Yoren os preveniu, antes de se dirigir à casa-torre a fim de ver se havia algum sinal do fidalgo ou dos seus guardas.

Arya viu-se na companhia de Gendry, Torta Quente e Lommy. O atarracado Woth, com sua barriga redonda, tinha antigamente puxado remos numa galé, o que fazia dele o mais próximo que tinham de um marinheiro. Por isso Yoren lhe disse para levá-los até a margem do lago e ver se conseguiam encontrar um barco. Enquanto avançavam a cavalo por entre as silenciosas casas brancas, um arrepio percorreu os braços de Arya. Aquela vila vazia assustava-a quase tanto como o castro queimado onde tinham encontrado a menina chorona e a mulher sem um braço. Por que as pessoas teriam fugido, abandonando suas casas e tudo o mais? O que poderia tê-las assustado tanto?

O sol estava baixo para oeste, e as casas lançavam longas sombras escuras. Um súbito estrondo fez Arya levar a mão à Agulha, mas era apenas uma veneziana batendo com o vento. Depois da margem aberta do rio, a proximidade da vila a deixava cada vez mais nervosa.

Quando vislumbrou o lago à sua frente, por entre as casas e as árvores, Arya bateu os calcanhares no cavalo e passou a galope por Woth e Gendry. Irrompeu no relvado junto à margem pedregosa. O sol poente fazia a superfície tranquila da água cintilar como uma folha de cobre martelado. Era o maior lago que já vira, sem sinal da margem oposta. Viu uma estalagem torta à sua esquerda, construída sobre a água em pesados pilares de madeira. À direita, um longo cais projetava-se lago adentro e havia outras docas mais a leste, dedos de madeira que se estendiam da vila. Mas o único barco que estava visível era um a remo, virado ao contrário, abandonado nas pedras sob a estalagem, com o casco completamente apodrecido.

– Desapareceram – disse Arya, abatida. O que faremos agora?

– Há uma estalagem – disse Lommy quando os outros se aproximaram. – Acham que deixaram alguma comida? Ou cerveja?

– Vamos ver – sugeriu Torta Quente.

– Não liguem para a estalagem – Woth exclamou. – Yoren disse para encontrarmos um barco.

– Eles levaram os barcos.

De algum modo, Arya sabia que era verdade; poderiam revistar a vila inteira, e não encontrariam mais do que o bote a remo de ponta-cabeça. Desanimada, saltou do cavalo e se ajoelhou junto ao lago. A água bateu suavemente em volta das suas pernas. Alguns vaga-lumes estavam surgindo, com suas luzinhas piscando. A água verde estava morna como lágrimas, mas nela não havia sal. Tinha gosto de verão, lama e coisas que cresciam. Arya mergulhou o rosto para lavar a poeira, a sujeira e o suor do dia. Quando se inclinou para trás, a água escorreu por seu pescoço e entrou pelo colarinho. Era bom. Desejou poder tirar a roupa e nadar, deslizando pela água morna como uma lontra cor-de-rosa e magricela. Talvez pudesse percorrer a nado todo o caminho até Winterfell.

Woth estava gritando para que ela o ajudasse a procurar, e foi o que ela fez, espreitando docas e barracões para barcos, enquanto seu cavalo pastava na margem. Encontraram algumas velas e cavilhas, além de alguns baldes de alcatrão endurecido e uma gata com uma ninhada de gatinhos recém-nascidos. Mas nada de barcos.

A vila estava escura como uma floresta quando Yoren e os outros reapareceram.

– A torre está vazia. O senhor saiu para lutar, talvez, ou para deixar seu povo em segurança, não há como saber. Não ficou nem um cavalo ou porco na vila, mas vamos comer. Vi um ganso solto, e algumas galinhas, e há peixe bom no Olho de Deus.

– Os barcos desapareceram – Arya relatou.

– Podíamos remendar o casco daquele bote a remo – Koss sugeriu.

– Podia servir para quatro de nós – Yoren confirmou.

– Tem cavilhas – Lommy interveio – e árvores por todo o lado. Poderíamos fazer barcos para todos.

Yoren cuspiu:

– Sabe alguma coisa sobre construção de barcos, filho de tintureiro?

Lommy ficou sem expressão.

– Uma jangada – Gendry sugeriu. – Qualquer um pode construir uma jangada e varas compridas para empurrá-la.

Yoren pareceu pensativo.

– O lago é fundo demais para se atravessar com varas, mas, se ficássemos nos baixios junto à margem… Isso significaria abandonar as carroças. Pode ser o melhor. Vou dormir com a ideia.

– Podemos ficar na estalagem? – Lommy perguntou.

– Ficaremos no castro, com os portões trancados – Yoren respondeu. – Gosto de sentir muralhas de pedra à minha volta quando durmo.

Arya não conseguiu ficar calada:

– Não deveríamos ficar aqui. As pessoas não ficaram. Fugiram todos, até o seu senhor.

– Arry tem medo – Lommy gritou, com uma gargalhada rouca.

– Não tenho nada – ela exclamou –, mas eles tiveram.

– Garoto esperto – Yoren observou. – Mas o fato é que os que viviam aqui estavam em guerra, gostassem ou não. Nós, não. A Patrulha da Noite não toma partido, de modo que nenhum homem é nosso inimigo.

E nenhum homem é nosso amigo, Arya pensou, mas dessa vez segurou a língua. Lommy e os outros a estavam encarando, e não queria parecer covarde na frente deles.

Os portões do castro eram reforçados com cravos de ferro. Lá dentro, encontraram um par de barras de ferro do tamanho de arbustos, com buracos de encaixe no chão e suportes de metal no portão. Quando enfiaram as barras nos suportes, formaram uma enorme escora em X. Não era nenhuma Fortaleza Vermelha, declarou Yoren depois de explorarem o castro de cima a baixo, mas era melhor do que a maioria e devia servir bastante bem para uma noite. As muralhas eram de pedra grosseira sem argamassa, com três metros de altura e uma passarela de madeira na parte de dentro das ameias. Havia uma porta traseira ao norte, e Gerren descobriu um alçapão, sob a palha no velho celeiro de madeira, que levava para um túnel estreito e sinuoso. Seguiu-o por um longo trajeto subterrâneo e emergiu junto ao lago. Yoren fez com que pusessem uma carroça por cima do alçapão, a fim de se certificar de que ninguém entraria por ali. Dividiu-os em três turnos de vigia e mandou Tarber, Kurz e Cutjack para a casa-torre abandonada, a fim de manter vigilância lá em cima. Kurz tinha um berrante para soprar se algum perigo os ameaçasse.

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