O jardim de Rama
- Автор: Ли Джентри, Кларк Артур Чарльз
- Серия: Рама #3
- Год: 1991
- Язык: португальский
- Год: Nova Fronteira
- ISBN: 85-209-0584-6
- Переводчик: Barbara Heliodora
- Жанр: Научная фантастика
Электронная книга - «O jardim de Rama». Краткое содержание книги:
“Acho que sim”, respondeu Kenji muito à vontade. Riu-se. “Mas tenho dificuldade em me lembrar de qualquer coisa além de Keiko, naquela noite.”
O sr. Watanabe esvaziou seu copo de saque. A garçonete mais moça, discretamente ajoelhada em um canto do tatame da salinha, aproximou-se da mesa para tornar a enchê-lo. “Kenji, estou preocupado com os criminosos”, disse o sr. Watanabe depois que a moça se afastou.
“Do que é que está falando, meu pai?”
“Li uma longa reportagem em uma revista dizendo que a AEI recrutara várias centenas de condenados para serem parte da Colônia Lowell. O artigo enfatizava o fato de todos os criminosos terem tido fichas perfeitas durante seus períodos de detenção, além de qualificações de alto nível. Mas que necessidade havia de se levar todos esses condenados?” Kenji tomou um gole de sua cerveja. “Na verdade, meu pai, houve alguma dificuldade no processo de recrutamento. Primeiro, tivemos uma previsão pouco realista sobre quantas pessoas iriam candidatar-se, e por isso criamos critérios de seleção muito difíceis. Em segundo lugar, o período mínimo de cinco anos foi um erro. Principalmente para os jovens, a decisão de fazer o que quer que seja por período tão longo parece um compromisso arrasador. O mais importante, porém, é que a imprensa solapou seriamente todo o processo da criação de quadros. Na época em que estávamos buscando candidaturas, houve miríades de artigos em revistas e ‘especiais’ de televisão sobre o desaparecimento das colônias marcianas há centenas de anos. As pessoas ficaram com medo de que a história se repetisse, e que elas também pudessem vir a ser abandonadas permanentemente em Marte.”
Kenji fez uma ligeira pausa, porém o sr. Watanabe não pronunciou qualquer comentário. “Além do quê, como o senhor bem sabe, o projeto tem tido uma série de crises financeiras. Foi durante um desses apertos orçamentários no ano passado que começamos a pensar em condenados de alta capacidade como um modo de resolver alguns de nossos problemas de pessoal e de orçamento. Embora devessem receber salários apenas modestos, vários outros incentivos levavam os sentenciados a se candidatarem. A escolha significava a concessão de perdão completo, e portanto liberdade quando voltassem à Terra ao fim de cinco anos.
Além do mais, os ex-prisioneiros teriam plena cidadania na Colônia Lowell, como todo mundo, sem ter mais de tolerar a onerosa monitoração de todas as suas atividades…”
Kenji parou quando dois pequenos pedaços de peixe grelhado, delicados, bonitos e arranjados em um ninho de folhas variadas, foram postos na mesa. O sr. Watanabe pegou um dos pedaços com seus pauzinhos e deu uma dentadinha.
“Oishii desu’“ comentou ele, sem olhar para o filho.
Kenji estendeu a mão para pegar seu pedaço de peixe. Aparentemente, a conversa sobre os condenados estava terminada. Kenji olhou por cima de seu pai, onde podia ver o belo jardim pelo qual era famoso o restaurante. Um fiozinho de água descia por degraus polidos e corria ao lado de meia dúzia de árvores anãs. O assento defronte à janela era sempre o lugar de honra em uma refeição tradicional japonesa. O sr. Watanabe insistira em que Kenji tivesse a vista para o jardim neste último jantar.
“Não puderam atrair colonos chineses?”, perguntou o pai, depois que haviam terminado o peixe.
Kenji sacudiu a cabeça. “Só uns poucos, de Cingapura e da Malásia. Tanto o governo da China quanto do Brasil proibiram seus cidadãos de se candidatar. A decisão brasileira já era esperada — seu império sul-americano está virtualmente em guerra com o CDG — mas esperávamos que os chineses amolecessem sua posição. Acho que cem anos de isolamento não morrem com facilidade.”
“Não se pode realmente culpá-los”, retrucou o sr. Watanabe. “Sua nação passou por horríveis sofrimentos durante o Grande Caos. Todo o capital estrangeiro sumiu da noite para o dia e sua economia entrou imediatamente em colapso.”
“Conseguimos recrutar alguns africanos negros, talvez uns cem ao todo, e um punhado de árabes. Mas a maior parte dos colonizadores vem de países que contribuem significativamente para a AEI, o que era mais ou menos de se esperar.”
Kenji ficou repentinamente embaraçado. Toda a conversa, desde que os dois chegaram ao restaurante, versava exclusivamente sobre ele e suas atividades. Durante os pratos que se seguiram, Kenji fez perguntas ao pai a respeito de seu trabalho na Robótica Internacional. O sr. Watanabe, que a essa altura era o principal executivo operacional da corporação, sempre se iluminava de orgulho quando falava de “sua” companhia. Tratava-se da maior manufatura de robôs para fábricas e escritórios do mundo inteiro. As vendas anuais da RI, como sempre era chamada, colocava-a entre os cinqüenta principais fabricantes do mundo.
“Faço 62 anos no ano que vem”, disse o sr. Watanabe, que vários copos de saque haviam tornado mais comunicativo, “e pensava poder me aposentar. Mas Nakamura diz que seria um erro. Diz que a companhia ainda precisa de mim…”
Antes que servissem as frutas, Kenji e seu pai estavam novamente discutindo a projetada expedição a Marte. Kenji explicou que Nai e a maioria dos outros colonizadores asiáticos que viajariam na Pinta ou na Nina já se encontravam no centro de treinamento japonês no sul de Kiushu. Ele iria juntar-se a sua mulher tão logo deixasse Kioto, e após mais dez dias de treinamento, eles e os outros passageiros da Pinta seriam transportados para uma estação espacial OTB (Orbita Terrena Baixa), onde teriam uma semana de treino de imponderabilidade. A última etapa de sua viagem junto à Terra seria um passeio a bordo de um rebocador espacial, de OTB até a estação espacial geossincrônica em GTB-4, onde no momento a Pinta estava sendo montada enquanto era submetida aos últimos testes e também sendo equipada para a longa viagem até Marte.
A garçonete mais moça trouxe-lhes dois copos de conhaque. “Aquela sua mulher é realmente uma criatura magnífica”, disse o sr. Watanabe, tomando um golezinho do licor. “Sempre julguei que as mulheres tai fossem as mais bonitas do mundo.”
“Ela também é bonita por dentro”, acrescentou logo Kenji, sentindo falta repentinamente de sua nova esposa. “E também é muito inteligente.”
“Seu inglês é excelente”, comentou o pai, “mas sua mãe diz que o japonês dela é horrível.”
Kenji encrespou-se. “Nai tentou falar japonês — que, aliás, ela jamais estudou — porque mamãe se recusou a falar em inglês. Foi tudo feito deliberadamente para fazer Nai sentir-se pouco à vontade…”
Kenji controlou-se. Seus comentários em defesa de Nai não eram adequados à ocasião.
“Gomen nasai”, disse ele ao pai.
O sr. Watanabe tomou um bom gole de seu conhaque. “Bem, Kenji, esta será a última vez que ficamos juntos sozinhos por pelo menos cinco anos.
Apreciei muitíssimo nosso jantar e nossa conversa.” Fez uma pausa. “Há, porém, mais um item que gostaria de discutir com você.”
Kenji mudou de posição (não estava mais acostumado a ficar sentado no chão de pernas cruzadas por períodos de quatro horas) e esticou bem o corpo, tentando ficar com a mente clara. O tom usado pelo pai já lhe dizia que aquele “mais um item” era sério.
“Meu interesse nos criminosos em sua Colônia Lowell não vem apenas de mera curiosidade”, começou o sr. Watanabe, mas parou um pouco para organizar seus pensamentos antes de continuar. “Nakamura-san veio ao meu escritório no final da semana passada, no fim do expediente, e disse-me que a segunda candidatura de seu filho para a Colônia Lowell também fora recusada.
Perguntou-me se eu podia pedir a você para dar uma olhada no assunto.”
O assunto atingiu Kenji como um raio. Jamais fora informado de que seu rival de infância tivesse se candidatado à Colônia Lowell, e agora lá estava seu pai…
“Não estive envolvido no processo de seleção de candidaturas de condenados”, respondeu Kenji lentamente. “Essa é uma divisão completamente diferente do projeto.”