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A Fúria dos Reis

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A Fúria dos Reis
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– Nos livros antigos de Asshai está escrito que chegará um dia, após um longo Verão, em que as estrelas sangrarão e o bafo frio da escuridão cairá, pesado, sobre o mundo. Nessa hora de terror, um guerreiro retirará do fogo uma espada em chamas. E essa espada será a Luminífera, a Espada Vermelha dos Heróis, e aquele que a pegar será Azor Ahai renascido, e a escuridão fugirá perante ele – e levantou a voz, para que fosse ouvida pela tropa ali reunida. – Azor Ahai, o amado de R’hllor! O Guerreiro da Luz, o Filho do Fogo! Avance, a sua espada o espera! Avance, e tome-a em sua mão!

Stannis Baratheon avançou como um soldado marchando para a batalha. Seus escudeiros se aproximaram para servi-lo. Davos observou seu filho Devan enfiando a mão direita do rei numa longa luva almofadada. O rapaz usava um gibão creme com um coração em chamas cosido no peito. Byran Farrin, vestido de um modo semelhante, atava uma rígida capa de couro em torno do pescoço de Sua Graça. Atrás dele, Davos ouviu um tênue tinir de sinetas.

– Debaixo do mar, a fumaça sobe em bolhas e as chamas ardem verdes, azuis e pretas – cantou em algum lugar o Cara-Malhada. – Eu sei, eu sei, ei, ei, ei.

O rei mergulhou no fogo de dentes cerrados, segurando o manto de couro à sua frente para manter as chamas afastadas. Dirigiu-se diretamente à Mãe, agarrou a espada com a mão enluvada e a libertou da madeira ardente com um único puxão forte. Então recuou, com a espada bem erguida e chamas verde-jade a rodopiar em volta do aço cor de cereja. Guardas correram na sua direção a fim de sacudir as fagulhas que se prendiam à roupa do rei.

Uma espada de fogo! – gritou a Rainha Selyse. Sor Axell Florent e os outros homens da rainha acompanharam-na no grito. – Uma espada de fogo! Ela arde! Ela arde! Uma espada de fogo!

Melisandre ergueu as mãos sobre a cabeça.

Contemplem! Um sinal foi prometido, e agora um sinal é visto! Contemplem a Luminífera! Azor Ahai regressou! Deem vivas ao Guerreiro da Luz! Deem vivas ao Filho do Fogo!

Uma onda irregular de gritos respondeu no momento em que a luva de Stannis começava a ficar incandescente. Praguejando, o rei enterrou a ponta da espada na terra úmida e apagou as chamas com pancadas na perna.

– Senhor, lance sobre nós a sua luz! – Melisandre gritou.

– Pois a noite é escura e cheia de terrores – responderam Selyse e seus homens.

Deveria eu dizer as palavras também?, perguntou-se Davos. Deverei tanto assim a Stannis? Será este deus de fogo realmente o seu? Seus dedos encurtados contorceram-se.

Stannis descalçou a luva e a deixou cair ao chão. Os deuses na pira já quase não podiam ser reconhecidos. A cabeça do Ferreiro desprendeu-se, levantando uma nuvem de cinzas e fagulhas. Melisandre cantou na língua de Asshai, com a voz subindo e descendo como as marés do mar. Stannis soltou-se da sua chamuscada capa de couro e escutou em silêncio. Espetada no chão, a Luminífera ainda brilhava, rubra de calor, mas as chamas presas à espada minguavam e morriam.

Quando a canção terminou, dos deuses só restava madeira carbonizada, e a paciência do rei tinha se esgotado. Pegou a rainha pelo braço e a levou de volta a Pedra do Dragão, deixando Luminífera onde estava. A mulher vermelha ficou um momento para trás, a fim de vigiar Devan e Bryen Farrung, que se ajoelharam e enrolaram a espada queimada e enegrecida no manto de couro do rei. A Espada Vermelha dos Heróis parece uma bela porcaria, Davos pensou.

Alguns dos senhores ficaram conversando em voz baixa fora do alcance do vento que soprava da fogueira. Todos caíram em silêncio quando viram que Davos os olhava. Se Stannis cair, vão me puxar para baixo num instante. Também não fazia parte do grupo dos homens da rainha, aquele grupo de cavaleiros ambiciosos e fidalgos menores que tinham se entregado àquele Senhor da Luz e ganhado assim o favor e a proteção da Senhora… não, Rainha, lembra-se?... Selyse.

O fogo tinha começado a morrer quando Melisandre e os escudeiros se afastaram com a preciosa espada. Davos e os filhos juntaram-se à multidão que se dirigia à costa e aos navios que os aguardavam.

– Devan portou-se bem – ele disse enquanto caminhavam.

– Sim, pegou a luva sem deixá-la cair – Dale confirmou.

Allard concordou com um meneio.

– Aquele símbolo no gibão de Devan, o coração em chamas, o que era aquilo? O brasão Baratheon é um veado coroado.

– Um senhor pode escolher mais do que um símbolo – Davos respondeu.

Dale sorriu.

– Um navio negro e uma cebola, pai?

Allard chutou uma pedra.

– Que os Outros levem a nossa cebola… e aquele coração em chamas. Foi coisa feia queimar os Sete.

– Quando foi que se tornou tão devoto? – perguntou Davos. – O que sabe um filho de contrabandista das coisas dos deuses?

– Eu sou filho de um cavaleiro, pai. Se o senhor não se recorda, por que eles o fariam?

– É filho de um cavaleiro, mas não é um cavaleiro – disse Davos. – E nem será nunca, caso se meta em assuntos que não lhe dizem respeito. Stannis é nosso rei de direito, não nos compete questioná-lo. Nós manobramos os seus navios e fazemos o que ordena. Só isso.

– Quanto a isso, pai – Dale falou –, não gostei daqueles barris de água que me deram para o Espectro. Pinho verde. A água vai estragar em qualquer viagem que se faça.

– Eu recebi o mesmo para o Senhora Marya – retrucou Allard. – Os homens da rainha apoderaram-se de toda a madeira seca.

– Falarei sobre isso com o rei – Davos prometeu. Era melhor que viesse dele do que de Allard. Os filhos eram bons guerreiros e melhores marinheiros, mas não sabiam como falar aos senhores. São malnascidos, como eu, mas não gostam de se lembrar disso. Quando olham para o nosso estandarte, tudo o que veem é um grande navio negro voando com o vento. Fecham os olhos à cebola.

O porto estava mais cheio do que Davos jamais o vira. Todas as docas lotadas de marinheiros carregando provisões, e todas as estalagens cheias de soldados jogando dados, bebendo ou em busca de uma prostituta… Uma busca vã, pois Stannis não autorizava prostitutas na sua ilha. Navios alinhavam-se na margem; galés de guerra e barcos de pesca, robustos galeões e cocas de fundo chato. Os melhores ancoradouros tinham sido ocupados pelos maiores navios: o navio almirante de Stannis, Fúria, balançava entre o Lorde Steffon e o Veado do Mar; o navio de casco prateado de Lorde Velaryon e seus três irmãos, Orgulho de Derivamarca; o ornamentado Garra Vermelha, de Lorde Celtigar; o pesado Peixe-Espada, com sua longa proa de ferro. Ancorada ao largo da costa, via-se a grande Valiriana, de Salladhor Saan, entre os cascos listrados de duas dúzias de galés lisenas menores.

Uma pequena e velha estalagem ficava na extremidade do cais de pedra, onde o Betha Negra, o Espectro e o Senhora Marya partilhavam a área de ancoragem com meia dúzia de outras galés de cem remos ou menos. Davos tinha sede. Despediu-se dos filhos e voltou para a estalagem. Junto à porta, acocorava-se uma gárgula que chegava à sua cintura, tão desgastada pela chuva e o sal que seus traços tinham sido praticamente obliterados. Mas ela e Davos eram velhos amigos. Deu uma palmadinha na cabeça de pedra ao entrar.

– Sorte – ele murmurou.

Na zona mais distante da ruidosa sala comum, Salladhor Saan estava em uma mesa, comendo uvas de uma tigela de madeira. Quando viu Davos, chamou-o com um gesto.

– Sor cavaleiro, venha comer comigo. Coma uma uva. Coma duas. Estão maravilhosamente doces.

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