A Fúria dos Reis
- Автор: Мартин Джордж Рэймонд Ричард
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Год: Saida de Emerg
- Жанр: Прочая древняя литература
Электронная книга - «A Fúria dos Reis». Краткое содержание книги:
Arya não conseguia evitar olhar por sobre o ombro, imaginando quando os homens de manto dourado os apanhariam. Durante a noite, acordava com qualquer ruído e agarrava o cabo da Agulha. Agora, nunca acampavam sem colocar sentinelas, mas Arya não confiava nelas, principalmente nos órfãos. Eles podiam ter se dado bastante bem nas vielas de Porto Real, mas aqui estavam perdidos. Quando era silenciosa como uma sombra, podia passar por todos eles, esgueirando-se à luz das estrelas para urinar nos bosques, onde ninguém a visse. Uma vez, quando era turno de Lommy Mãos-Verdes, subiu num carvalho e passou de árvore em árvore até estar bem em cima da sua cabeça, e ele não chegou a ver nada. Podia ter caído em cima dele, mas sabia que o grito do rapaz acordaria todo o acampamento, e Yoren podia voltar a bater nela com um pau.
Lommy e os outros órfãos agora tratavam Touro como alguém especial, porque a rainha queria a sua cabeça, embora ele detestasse isso.
– Nunca fiz nada à rainha – dizia, zangado. – Fazia o meu trabalho, só isso. Foles e tenazes, buscar e carregar. Deveria ter me tornado armeiro e, um dia, mestre Mott diz que tenho de me alistar na Patrulha da Noite. É tudo que sei.
Depois, ia polir seu elmo. Era um belo elmo, arredondado e curvo, com um visor em fenda e dois grandes cornos de touro em metal. Arya observava-o polir o metal com um pouco de oleado, deixando-o tão brilhante que se podia ver as chamas da fogueira refletidas no aço. Mas nunca o colocava na cabeça.
– Aposto que é bastardo daquele traidor – disse Lommy uma noite, numa voz abafada para que Gendry não o ouvisse. – O senhor lobo, aquele que bateu as botas nos degraus de Baelor.
– Não é nada – declarou Arya. Meu pai só teve um bastardo, o Jon. Caminhou a passos largos por entre as árvores, desejando poder simplesmente selar o cavalo e cavalgar para casa. Era um bom animal, uma égua alazã com uma mancha branca na testa. E Arya sempre foi boa cavaleira. Poderia se afastar a galope e nunca mais ver nenhum deles, a menos que quisesse. Só que, então, não teria ninguém para bater o terreno à sua frente, ou vigiar a retaguarda, ou ficar de guarda enquanto cochilava, e quando os homens de manto dourado a apanhassem, estaria só. Era mais seguro ficar com Yoren e os outros.
– Não estamos longe do Olho de Deus – disse o irmão negro uma manhã. – A estrada real não será segura até atravessarmos o Tridente. Por isso, rodearemos o lago pela margem ocidental. Não é provável que nos procurem lá.
No ponto seguinte onde dois sulcos se cruzaram, viraram as carroças para oeste.
Ali, as terras de cultivo deram lugar à floresta, as aldeias e os castros eram menores e mais espaçados, as colinas, mais altas, e os vales, mais profundos. Tornou-se mais difícil arranjar comida. Na cidade, Yoren tinha carregado as carroças com peixe salgado, pão duro, toucinho, nabos, sacos de feijão e cevada e discos de queijo amarelo, mas tudo já tinha sido comido. Forçado a viver da terra, Yoren recorreu a Koss e Kurz, que tinham sido presos por caça furtiva. Mandava-os para a floresta à frente da coluna, e ao cair da noite eles estavam de volta, carregando entre os dois um veado pendurado em uma vara, ou com um par de codornas penduradas nos cintos. Os rapazes mais novos eram colocados para apanhar frutos silvestres ao longo da estrada, ou pulavam cercas para encher uma saca de maçãs se acaso se deparassem com um pomar.
Arya era hábil em subir em árvores e apanhava frutas com rapidez, e gostava de andar sozinha. Um dia, encontrou um coelho, por puro acaso. Era marrom e gordo, com longas orelhas e um nariz nervoso. Os coelhos corriam mais depressa do que os gatos, mas não eram nem de perto tão bons em subir nas árvores. Bateu nele com o pau e o agarrou pelas orelhas; e Yoren o cozinhou com cogumelos e cebolas silvestres. Arya recebeu uma perna inteira, já que o coelho era seu. Dividiu-a com Gendry. Os outros receberam uma colherada cada, até os três que seguiam algemados. Jaqen H’ghar agradeceu-lhe educadamente pelo acepipe, e o Dentadas lambeu a gordura dos dedos sujos com um ar feliz, mas Rorge, o que não tinha nariz, limitou-se a rir e a dizer:
– Ai está, um caçador agora. Cabeça de Caroço Cara de Caroço Mata Coelhos.
Perto de um castro chamado Sarçabranca, um grupo de camponeses os cercou num campo de milho, exigindo dinheiro pelas espigas que tinham cortado. Yoren deu uma espiada nas suas foices e atirou-lhes algumas moedas de cobre.
– Em outros tempos, um homem vestido de negro era banqueteado de Dorne a Winterfell, e até os grandes senhores achavam uma honra abrigá-lo sob seu teto – ele disse amargamente. – Agora, covardes como vocês querem dinheiro vivo por uma dentada numa maçã bichada – cuspiu.
– Isto é milho doce, mais do que um pássaro preto fedorento como você merece – um deles respondeu rudemente. – Some das nossas terras e leve junto esses gatunos e assassinos, senão a gente te espeta no milharal pra espantar os outros corvos.
Naquela noite, assaram o milho doce na casca, virando as espigas com longos paus bifurcados, e comeram-no quente, direto do sabugo. Arya achou delicioso, mas Yoren estava zangado demais para comer. Uma nuvem parecia pairar sobre ele, esfarrapada e negra como o seu manto. Andou pelo acampamento, inquieto, murmurando consigo mesmo.
No dia seguinte, Koss voltou correndo para avisar Yoren de um acampamento mais à frente.
– Vinte ou trinta homens, com cota de malha e capacetes – ele disse. – Alguns estão muito feridos, e um deles, moribundo. Com todo o barulho que ele estava fazendo, consegui chegar bem perto. Têm lanças e escudos, mas só um cavalo, e está coxo. Acho que estão ali há algum tempo, pelo fedor que vem do lugar.
– Viu um estandarte?
– Gato-das-árvores malhado, preto e amarelo, em fundo marrom lamacento.
Yoren dobrou uma folhamarga, enfiou-a na boca e começou a mascar.
– Não conheço – admitiu. – Podem ser de um lado ou do outro. Se estão assim tão feridos, o mais certo é que roubem nossas montarias, sejam quem forem. Pode ser que roubem mais do que isso. Acho que vamos rodeá-los de longe – isso lhes custaria milhas fora do caminho, e pelo menos dois dias, mas o velho disse que o preço era baixo. – Vocês vão ter tempo suficiente na Muralha. O resto das suas vidas, provavelmente. Parece-me que não há pressa em chegar lá.
Arya viu cada vez mais homens guardando os campos quando voltaram a seguir para o norte. Muitas vezes ficavam em silêncio junto à estrada, lançando olhares frios a quem passava. Em outros locais, faziam patrulhas a cavalo, percorrendo as cercas com machados presos nas selas. Em um lugar, viu um homem empoleirado numa árvore morta, com um arco na mão e uma aljava pendurada no galho a seu lado. No momento em que os viu, encaixou uma flecha no arco e não afastou os olhos até que a última carroça estivesse fora de vista. Durante todo o tempo, Yoren praguejou.
– Aquele na árvore, vamos ver se ele gosta daquilo ali em cima quando os Outros vierem levá-lo. Vai gritar pela Patrulha, ah, se vai.
Um dia depois, Dobber vislumbrou um clarão vermelho no céu do fim da tarde.
– Ou esta estrada mudou de direção, ou aquele sol está se pondo no Norte.
Yoren subiu em um morro para ver melhor.
– Fogo – anunciou. Lambeu um polegar e o levantou. – O vento deve soprá-lo pra longe da gente. Mesmo assim, é melhor vigiar.
E vigiaram. À medida que o mundo escurecia, o incêndio foi se tornando cada vez mais brilhante, até parecer que tudo ao norte estava em chamas. De tempos em tempos, conseguiam até sentir o cheiro da fumaça, embora o vento se mantivesse firme e as chamas nunca chegassem a se aproximar. Pela alvorada, o incêndio apagou-se, mas nenhum deles dormiu muito bem naquela noite.
Era meio-dia quando chegaram ao local onde antes existia a aldeia. Os campos eram uma desolação carbonizada ao longo de milhas em todas as direções, e as casas, conchas enegrecidas. As carcaças de animais queimados e abatidos coloriam o chão, sob mantas vivas de gralhas pretas necrófagas que levantavam voo, crocitando furiosamente, quando eram perturbadas. Ainda saía fumaça de dentro do castro. Sua paliçada de madeira parecia forte de longe, mas provara não ser o suficiente.