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A Fúria dos Reis

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A Fúria dos Reis
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– Tomarei isso como um grande elogio.

– O que é você, Varys? – Tyrion descobriu que queria mesmo saber. – Uma aranha, segundo dizem?

– Os espiões e informantes raramente são amados, senhor. Não sou mais do que um servidor leal do reino.

– E um eunuco. Não nos esqueçamos disso.

– Raramente me esqueço.

– Também já me chamaram meio homem, mas acho que os deuses foram mais gentis comigo. Sou pequeno, tenho as pernas tortas e as mulheres não me olham com grande desejo… Mas ainda sou um homem. Shae não é a primeira a embelezar minha cama, e um dia poderei vir a ter uma esposa e gerar um filho. Se os deuses forem bons, será parecido com o tio e pensará como o pai. Você não tem uma esperança semelhante para se apoiar. Os anões são uma brincadeira dos deuses… Mas são os homens que fazem eunucos. Quem o cortou, Varys? Quando e por quê? Quem é você, na verdade?

O sorriso do eunuco nunca vacilou, mas seus olhos cintilaram com algo que não era riso.

– É gentil por perguntar, senhor, mas a história é longa e triste, e há traições que precisamos discutir – ele tirou um pergaminho da manga da sua túnica. – O mestre da Galé Real Veado Branco conspira para levantar âncora daqui a três dias, a fim de oferecer a espada e o navio a Lorde Stannis.

Tyrion suspirou.

– Suponho que temos de dar ao homem algum tipo de lição sangrenta.

– Sor Jacelyn poderia fazê-lo desaparecer, mas um julgamento perante o rei ajudaria a assegurar uma continuada lealdade por parte dos outros capitães.

E também manteria ocupado meu real sobrinho.

– Será como diz. Encomende para ele uma dose da justiça de Joffrey.

Varys rabiscou um tique no pergaminho.

– Sor Horas e Sor Hobber Redwyne subornaram um guarda para deixá-los sair por uma porta dos fundos daqui a duas noites. Foram feitos preparativos para que embarcassem na galé Corredor da Lua, de Pentos, disfarçados de remadores.

– Poderíamos mantê-los nesses remos durante alguns anos para ver se gostam? – Tyrion sorriu. – Não. Minha irmã ficaria perturbada por perder hóspedes tão preciosos. Informe Sor Jacelyn. Capture o homem que subornaram e explique a honra que é servir como um irmão da Patrulha da Noite. Coloque homens em torno do Corredor da Lua, para o caso de os Redwyne encontrarem um segundo guarda com falta de moedas.

– Será como deseja – outro tique no pergaminho. – Seu homem, Timett, matou o filho de um vendedor de vinho esta noite, num antro de jogo na Rua da Prata. Acusou-o de trapacear nas pedras.

– É verdade?

– Ah, sem a menor dúvida.

– Então os homens honestos da cidade têm uma dívida de gratidão para com Timett. Vou me assegurar de que receba os agradecimentos do rei.

O eunuco soltou uma pequena gargalhada nervosa e fez outro tique.

– Também temos uma súbita praga de homens santos. Aparentemente, o cometa gerou toda espécie de sacerdotes estranhos, pregadores e profetas. Mendigam nas tavernas e refeitórios e predizem o fim do mundo e a destruição a todos os que param para ouvir.

Tyrion encolheu os ombros:

– Estamos perto do tricentenário do Desembarque de Aegon, imagino que era de esperar. Deixe-os pregar.

– Estão espalhando o medo, senhor.

– Pensei que este fosse o seu trabalho.

Varys cobriu a boca com a mão.

– É muito cruel por dizer isso. Um último assunto. A Senhora Tanda organizou um pequeno jantar ontem à noite. Tenho o menu e a lista de convidados para sua inspeção. Quando o vinho foi servido, Lorde Gyles levantou-se para fazer um brinde ao rei, e Sor Balon Swann foi ouvido comentando: “Iremos precisar de três taças para isso”. Muitos riram…

Tyrion levantou uma mão:

– Basta. Sor Balon disse uma frase de efeito. Não estou interessado em conversas de mesa traiçoeiras, Lorde Varys.

– É tão sensato como gentil, senhor – o pergaminho desapareceu na manga do eunuco. – Ambos temos muito o que fazer. Vou deixá-lo a sós.

Depois de o eunuco sair, Tyrion ficou durante muito tempo sentado, observando a vela e se perguntando como sua irmã receberia a notícia da dispensa de Janos Slynt. Se bem a conhecia, não ficaria feliz, mas nem perto de enviar um protesto irado a Lorde Tywin em Harrenhal. Não via o que Cersei podia esperar fazer a respeito. Tyrion controlava agora a Patrulha da Cidade, mais uma centena e meia de ferozes homens dos clãs e uma crescente força de mercenários recrutados por Bronn. Aparentemente, estava bem protegido.

Sem dúvida Eddard Stark achava o mesmo.

A Fortaleza Vermelha estava escura e silenciosa quando Tyrion saiu do Pequeno Salão. Bronn esperava-o no aposento privado.

– Slynt? – perguntou.

– Lorde Janos zarpará para a Muralha na maré da manhã. Varys quis me fazer acreditar que substituí um dos homens de Joffrey por um meu. O mais provável é que tenha substituído um homem do Mindinho por um pertencente a Varys. Mas, que seja.

– É bom que saiba que Timett matou um homem…

– Varys me disse – o mercenário não mostrou surpresa. – O palerma achou que um homem com um olho só seria mais fácil de enganar. Timett cravou seu pulso na mesa com um punhal e rasgou sua garganta com as mãos nuas. Ele faz um truque em que enrijece os dedos…

– Poupe-me dos detalhes macabros, meu jantar mal parou quieto dentro da barriga – Tyrion protestou. – Como vai seu recrutamento?

– Bastante bem. Esta noite arranjei três novos homens.

– Como sabe quem recrutar?

– Examino-os. Interrogo-os para saber onde lutaram e como são mentindo – Bronn sorriu. – E então dou-lhes uma chance de me matar, enquanto faço o mesmo com eles.

– Matou algum?

– Ninguém que pudéssemos ter usado.

– E se um deles matá-lo?

– Será esse que vai querer contratar.

Tyrion estava um pouco bêbado, e muito cansado.

– Diga-me, Bronn, se lhe dissesse para matar um bebê… digamos, uma menina, ainda no peito da mãe… Mataria? Sem questionar?

– Sem questionar? Não – o mercenário esfregou o polegar no indicador. – Perguntava o preço.

E para que eu precisaria do seu Allar Deem, Lorde Slynt?, pensou Tyrion. Tenho cem meus. Desejou rir; desejou chorar; mas, acima de tudo, desejou Shae.

Arya

A estrada era pouco mais do que dois sulcos no meio do mato.

A parte boa era que, com tão pouco tráfego, não haveria ninguém para apontar e dizer para onde tinham ido. A enchente humana que jorrara para o sul pela estrada do rei era ali apenas um riacho.

A parte ruim era que a estrada ziguezagueava de um lado para outro, emaranhando-se em trilhas ainda menores e, às vezes, parecendo desaparecer por completo, para reaparecer apenas meia légua adiante, quando já tinham quase perdido a esperança. Arya detestava aquilo. O terreno era bastante suave, colinas onduladas e campos em terraços intercalados com prados, bosques e pequenos vales, onde salgueiros se aglomeravam junto a riachos rasos e vagarosos. Mesmo assim, o caminho era tão estreito e tortuoso, que o ritmo do grupo tinha diminuído até quase parar.

Eram as carroças que os atrasavam, arrastando-se penosamente, com os eixos estalando sob o peso das suas cargas pesadas. Uma dúzia de vezes ao dia tinham de parar para soltar uma roda que se prendera num sulco, ou duplicar as parelhas para subir uma encosta barrenta. Uma vez, no meio de um denso bosque de carvalhos, deram de frente com três homens que traziam uma carga de lenha num carro de bois, sem que houvesse espaço para que nenhum dos grupos se desviasse. Não puderam fazer nada, a não ser esperar que os lenhadores soltassem os bois, os levassem por entre as árvores, virassem o carro de lado, voltassem a prender os bois e seguissem o caminho por onde tinham vindo. Os bois ainda eram mais lentos do que as carroças, e nesse dia quase não avançaram nada.

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