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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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Acrescentei várias aventuras anteriores, guardadas há bastante tempo nos seus arquivos, a fim de completar o volume.

John H. Watson, M. D.

o caso da vila glicínia

1. A estranha aventura do sr. John Scott Eccles

Vejo que está anotado no meu caderno que era um dia gelado, de muito vento, ali pelo final de março de 1892. Holmes recebera um telegrama quando estávamos almoçando, e tinha rabiscado uma resposta. Não disse nada, mas o assunto continuou na sua cabeça, porque ele ficou parado diante da lareira, pensativo, fumando o cachimbo e olhando de vez em quando para a mensagem. De repente virou-se para mim, com um brilho malicioso nos olhos.

– Eu acho, Watson, que podemos considerá-lo um homem de letras – ele disse. – Como você definiria a palavra “grotesca”?

– Estranho, notável – eu sugeri.

– Com certeza há algo mais do que isso – ele disse –, uma implicação do trágico e do terrível. Se você se lembrar de algumas das narrativas que tem impingido a um

público paciente, vai perceber com que freqüência o grotesco tem se transformado no criminoso. Lembre-se do caso dos homens de cabelos vermelhos. No começo havia muito de grotesco, e mesmo assim terminou numa desesperada tentativa de roubo. E o caso grotesco das cinco sementes de laranja, que conduziu a uma conspiração de assassinato. A palavra me deixou de prontidão.

– Ela está aí? – perguntei.

Ele leu o telegrama em voz alta:

Acabei de passar pela experiência mais incrível e grotesca. Posso consultá-lo?

Scott Eccles

Correio de Charing Cross

– Homem ou mulher? – perguntei.

– Oh, homem, é claro. Nenhuma mulher enviaria um telegrama com resposta paga. Ela teria vindo.

– Você vai recebê-lo?

– Meu caro Watson, você sabe como ando entediado desde que prendemos o coronel Carruthers. Minha mente é como um carro veloz que se despedaça todo se não for usado para o fim a que se destina. A vida é um lugar-comum, os jornais estão estéreis, a audácia e a aventura parecem ter sumido do mundo do crime. Como pode me perguntar, então, se estou disposto a examinar algum problema novo, por mais banal que possa parecer? Mas, se não me engano, aí está o nosso cliente.

Ouvimos passos cadenciados na escada e logo em seguida entrou na sala uma pessoa corpulenta, alta, de costeletas grisalhas e aspecto solene respeitável. De suas polainas até os óculos de aros dourados, ele era um membro do Partido Conservador, religioso, ortodoxo e convencional até o último grau. A história de sua vida estava escrita em suas feições graves e gestos pomposos. Mas alguma experiência impressionante havia perturbado sua calma natural e deixou sinais nos seus cabelos em desalinho, no rosto vermelho e encolerizado, nas suas maneiras nervosas e agitadas. Foi direto ao assunto.

– Acabei de passar por uma experiência estranha e desagradável, sr. Holmes – disse ele. – Nunca estive numa situação assim em toda a minha vida. É extremamente inconveniente, extremamente chocante. Eu preciso de uma explicação.

Ele estava bufando de raiva.

– Por favor, sente-se, sr. Scott Eccles – disse Holmes, acalmando-o. – Posso lhe perguntar, em primeiro lugar, por que o senhor veio me procurar?

– Bem, senhor, não parecia que o assunto interessasse à polícia, mas, depois de conhecer os fatos, o senhor vai admitir que eu não podia deixar a situação no ponto em que estava. Não tenho nenhuma simpatia pela classe dos detetives particulares, mas, em todo caso, tendo ouvido falar no seu nome...

– Certamente. Mas, em segundo lugar, por que o senhor não veio imediatamente?

– O que quer dizer com isso?

Holmes olhou para o relógio.

– São 14:15h – disse. – Seu telegrama foi mandado por volta de uma da tarde. Mas não se pode olhar para a sua roupa e sua aparência sem ver que sua perturbação começou no momento em que acordou.

Nosso cliente alisou os cabelos em desalinho e passou a mão pelo queixo com a barba por fazer.

– Tem razão, sr. Holmes. Não me preocupei em me arrumar. Tudo o que eu queria era sair daquela casa. Mas estive fazendo algumas investigações antes de vir ver o senhor. Fui até a casa dos agentes, o senhor sabe, e eles disseram que o aluguel do sr. Garcia estava pago e que estava tudo em ordem na Vila Glicínia.

– Calma, calma, meu senhor – disse Holmes, rindo. – O senhor é como o meu amigo, dr. Watson, que tem o péssimo hábito de contar suas histórias começando pelo fim. Por favor, coordene os pensamentos e me conte, na seqüência certa, exatamente por que esses acontecimentos o fizeram sair em busca de conselho e ajuda, despenteado e amarrotado, com botas e colete abotoados de forma errada.

Nosso cliente olhou para baixo, examinando com pesar sua aparência deplorável.

– Tenho certeza de que estou horrível, sr. Holmes, e tenho certeza de que algo assim jamais aconteceu antes em minha vida. Mas vou contar-lhe toda a história esquisita, e quando eu tiver terminado, o senhor com certeza reconhecerá que há muita coisa que possa me desculpar.

Mas a narrativa dele foi cortada pela raiz. Houve um alarido do lado de fora e a sra. Hudson abriu a porta para que dois indivíduos entrassem, dois sujeitos robustos, com aspecto de polícia, um dos quais era conhecido nosso, o inspetor Gregson, da Scotland Yard, um policial enérgico, cortês e, dentro de suas limitações, competente. Apertou a mão de Holmes e apresentou seu companheiro, inspetor Baynes, da polícia de Surrey.

– Estamos juntos numa caçada, sr. Holmes, e nossa pista indicava esta direção.

Virou os olhos de buldogue para o nosso visitante.

– O senhor é John Scott Eccles, de Popham House, Lee?

– Sim, sou eu.

– Nós o seguimos a manhã inteira.

– Sem dúvida você o localizou por causa do telegrama – disse Holmes.

– Exatamente, sr. Holmes. Pegamos a pista na agência do correio de Charing Cross e viemos para cá.

– Mas por que me seguem? O que desejam?

– Queremos um esclarecimento, sr. Scott Eccles, a respeito dos fatos que resultaram na morte do sr. Aloysius Garcia, da Vila Glicínia, nos arredores de Esher, ontem à noite.

Nosso cliente retesou-se na cadeira, com os olhos arregalados e sem um pingo de cor no rosto atônito.

– Morto? O senhor disse que ele morreu?

– Sim, senhor, ele está morto.

– Mas, como? Acidente?

– Assassinato, se já houve um no mundo.

– Meu Deus! Isto é terrível! O senhor não está dizendo... o senhor não está dizendo que eu sou um suspeito?

– Foi encontrada uma carta sua no bolso do morto e ficamos sabendo que o senhor pretendia passar na casa dele ontem à noite.

– Sim, eu passei.

– Oh, então passou, não é?

Tirou o livro de anotações do bolso.

– Espere um pouco, Gregson – disse Sherlock Holmes. – Tudo o que você quer é uma simples declaração, não é?

– E é meu dever prevenir o sr. Scott Eccles que ela pode ser usada contra ele.

– O sr. Eccles ia nos contar o caso quando vocês entraram aqui. Eu acho, Watson, que um conhaque com soda vai ajudá-lo. Agora, senhor, sugiro que não se importe com o aumento de sua platéia e continue sua narrativa exatamente como teria feito se não tivesse sido interrompido.

Ele engolira o conhaque e a cor voltou às suas faces. Com um olhar desconfiado para o livro de anotações do inspetor, começou imediatamente seu relato extraordinário.

– Sou um celibatário – disse ele – e, sendo sociável, tenho muitos amigos. Entre eles está a família de um cervejeiro chamado Melville, que mora em Albermarle Mansion, Kensington. Foi na casa dele que conheci um jovem chamado Garcia, há algumas semanas. Ele era, fiquei sabendo, de descendência espanhola, e tinha uma ligação com a embaixada. Falava inglês corretamente, era agradável, e um sujeito simpático como nunca vi antes. Começamos uma sólida amizade, ele e eu. Ele pareceu gostar de mim desde o início e dois dias depois de nosso encontro ele foi me visitar em Lee. Uma coisa leva à outra, e ele acabou me convidando para passar alguns dias em sua casa em Vila Glicínia, entre Esher e Oxshott. Ontem à noite fui a Esher para atender ao seu convite. Antes de ir lá, ele já tinha me contado sobre sua casa. Morava com um caseiro de confiança, um patrício dele, que cuidava de tudo. Esse sujeito falava inglês e tomava conta da casa. Tinha também um magnífico cozinheiro, ele disse, um mestiço que tinha encontrado numa de suas viagens, e que podia servir um jantar excelente. Lembro-me de que ele comentou que só se encontrava uma criadagem estranha no coração de Surrey, e eu concordei com ele, embora ela tenha mostrado que era muito mais estranha do que eu pensei. Dirigi-me para lá, mais ou menos 3 quilômetros ao sul de Esher. A casa é grande, afastada da estrada, com um caminho em curva, ladeado de arbustos verdes. É uma construção antiga, em ruínas, num lamentável estado de desordem. Quando a carruagem parou no caminho coberto de mato, diante da porta manchada e desbotada, eu duvidei de minha sanidade pelo fato de ir visitar um homem que eu mal conhecia. Mas ele mesmo abriu a porta e me cumprimentou com grande cordialidade. Ele me deixou por conta do criado, um sujeito taciturno e moreno que me guiou até meu quarto, carregando minha mala. O lugar todo era deprimente. Jantamos os dois sozinhos, e embora meu anfitrião tivesse feito tudo para me entreter, tive a impressão de que seus pensamentos estavam longe, e ele falava de uma maneira tão vaga e incoerente que eu mal conseguia entendê-lo. Ficava constantemente batucando com os dedos, roía as unhas, e dava outros sinais de impaciência. O jantar propriamente não foi nem bem servido, nem foi preparado, e a presença do empregado taciturno não ajudou a nos alegrar. Eu lhes garanto que muitas vezes durante a noite quis inventar uma desculpa para poder voltar a Lee. Eu me lembro de uma coisa que pode ter alguma relação com aquilo que os senhores estão investigando. Não dei a mínima importância na ocasião. Quase no fim do jantar o criado entregou a ele um bilhete. Notei que meu anfitrião ficou ainda mais distraído e estranho depois que leu a mensagem. Deixou de conversar e ficou sentado, fumando um cigarro atrás do outro, perdido nos próprios pensamentos, mas nada disse sobre o bilhete. Fiquei contente por estar na cama por volta das 11 horas. Um pouco mais tarde Garcia apareceu na porta do meu quarto – estava tudo escuro – e me perguntou se eu tinha tocado a campainha. Eu disse que não. Ele se desculpou por me perturbar tão tarde, dizendo que já era uma da manhã. Peguei no sono depois disso e dormi profundamente a noite toda. E agora vem a parte impressionante da minha história. Quando acordei, já era dia claro, consultei o relógio e vi que eram quase nove horas. Eu tinha pedido para ser chamado às oito, de modo que fiquei espantado com o esquecimento. Levantei-me e toquei a campainha, chamando o empregado. Não houve resposta. Toquei mais duas vezes, com o mesmo resultado. Então cheguei à conclusão de que a campainha não estava funcionando. Vesti-me apressadamente e desci correndo as escadas, de mau humor, a fim de pedir um pouco de água quente. Podem imaginar minha surpresa quando descobri que não havia ninguém lá. Gritei no vestíbulo. Sem resposta. Então fui de quarto em quarto. Tudo deserto. Meu anfitrião tinha me mostrado na noite anterior qual era o quarto dele, e então bati na porta. Nenhuma resposta. Virei a maçaneta e entrei. O quarto estava vazio e a cama não tinha sido usada. Ele tinha ido embora com os outros. O anfitrião estrangeiro, o criado estrangeiro, o cozinheiro estrangeiro, todos tinham se evaporado na noite! Esse foi o fim de minha visita à Vila Glicínia.

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