A Tormenta de Espadas
- Автор: Мартин Джордж Рэймонд Ричард
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Год: Leya
- ISBN: 9788580442625
- Переводчик: Jorge Candeias
- Жанр: Прочая древняя литература
Электронная книга - «A Tormenta de Espadas». Краткое содержание книги:
E Marillion. Há sempre Marillion. Quando tocava para eles no jantar, com frequência o jovem cantor parecia estar cantando diretamente para Sansa. A tia não ficava nada satisfeita. A Senhora Lysa tinha um fraco por Marillion e banira duas criadas e até um pajem por dizerem mentiras a respeito dele.
Lysa estava tão solitária quanto Sansa. Seu novo esposo parecia passar mais tempo no sopé da montanha do que em seu cume. Agora andava longe, já partira havia quatro dias, para um encontro com os Corbray. Juntando aqui e ali as conversas que tinha ouvido, Sansa sabia que os vassalos de Jon Arryn se ressentiam do casamento de Lysa e só de má vontade concediam a Petyr a sua autoridade como Senhor Protetor do Vale. O ramo principal da Casa Royce estava perto da revolta aberta devido à recusa da tia de Sansa em ajudar Robb na guerra, e os Waynwood, Redfort, Belmore e Templeton davam-lhes todo o apoio. Os clãs da montanha também andavam causando problemas, e o velho Lorde Hunter morrera de forma tão súbita que os dois filhos mais novos andavam acusando o irmão mais velho de o ter assassinado. O Vale de Arryn podia ter sido poupado do pior da guerra, mas estava longe de ser o local idílico pelo qual a Senhora Lysa o queria fazer passar.
Não vou voltar a dormir, percebeu Sansa. Tenho a cabeça num tumulto. Afastou relutantemente a almofada, atirou os cobertores para trás, dirigiu-se à janela e abriu as venezianas.
Nevava no Ninho da Águia.
Lá fora, os flocos pairavam com a suavidade e o silêncio da memória. Teria sido isso que me acordou? A neve já jazia numa camada espessa sobre o jardim, lá embaixo, cobrindo a grama, salpicando de branco os arbustos e as estátuas e pesando nos galhos das árvores. A cena levou Sansa de volta a noites frias de muito tempo atrás, no longo verão de sua infância.
A última vez que vira neve havia sido no dia em que tinha partido de Winterfell. Aquela foi uma nevada mais leve do que esta, recordou. Robb tinha flocos derretendo nos cabelos quando me abraçou, e a bola de neve que Arya tentou fazer não parava de se desfazer em suas mãos. Doía-lhe lembrar-se de como tinha se sentido feliz naquela manhã. Hullen ajudara-a a montar, e ela partira a cavalo com os flocos de neve girando à sua volta, para ver o grande e vasto mundo. Pensei que a minha canção estava começando naquele dia, mas tinha quase terminado.
Sansa deixou as janelas abertas enquanto se vestia. Sabia que estaria frio, embora as torres do Ninho da Águia rodeassem o jardim e o protegessem do pior dos ventos de montanha. Vestiu roupa de baixo de seda e uma combinação de linho e, por cima, um vestido quente de lã azul de carneiro. Dois pares de meias longas para as pernas, botas que eram atadas até os joelhos, pesadas luvas de couro, e por fim um manto com capuz de suave pele de raposa branca.
A aia enrolou-se melhor em seu cobertor quando a neve começou a entrar pela janela. Sansa entreabriu a porta e desceu pela escada em caracol. Quando abriu a porta do jardim, ele estava tão lindo que prendeu a respiração, sem desejar perturbar uma beleza tão perfeita. A neve caía e caía, tudo num silêncio fantasmagórico, e acumulava-se numa camada grossa e contínua no chão. Todas as cores tinham fugido do mundo exterior. Era um lugar de brancos, negros e cinza. Torres brancas, neve branca e estátuas brancas, sombras negras e árvores negras, tudo coberto pelo céu cinza-escuro. Um mundo puro, pensou Sansa. Este não é o meu lugar.
Mas saiu mesmo assim. As botas rasgaram buracos até os tornozelos na superfície alva e lisa da neve, mas não fizeram nenhum som. Sansa vagueou por entre arbustos congelados e esguias árvores escuras e perguntou a si mesma se estaria ainda sonhando. Flocos de neve que caíam roçavam seu rosto com a leveza dos beijos de um amante e derretiam-se em suas bochechas. No centro do jardim, ao lado da estátua da mulher chorosa que jazia no chão, quebrada e meio enterrada, virou o rosto para o céu e fechou os olhos. Sentiu a neve nas pálpebras, saboreou-a nos lábios. Era o sabor de Winterfell. O sabor da inocência. O sabor dos sonhos.
Quando Sansa voltou a abrir os olhos, estava de joelhos. Não se lembrava de ter caído. Parecia-lhe que o céu tinha tomado um tom mais claro de cinza. A alvorada, pensou. Outro dia. Outro novo dia. Era dos dias antigos que tinha fome. Era por eles que rezava. Mas a quem podia rezar? Sabia que um dia o jardim se destinara a um bosque sagrado, mas o solo era raso e pedregoso demais para que um represeiro ganhasse raízes. Um bosque sagrado sem deuses, tão vazio quanto eu.
Pegou um punhado de neve e apertou-a entre os dedos. Pesada e úmida, a neve comprimia-se com facilidade. Sansa ficou fazendo bolas de neve, dando-lhes forma e alisando-as até ficarem redondas, brancas e perfeitas. Recordou uma nevada de verão em Winterfell, durante a qual Arya e Bran a emboscaram ao sair da fortaleza, uma bela manhã. Cada um deles tinha uma dúzia de bolas de neve à mão, e ela nenhuma. Bran estava empoleirado no telhado da ponte coberta, fora de alcance, mas Sansa perseguiu Arya pelos estábulos e em volta das cozinhas até ambas ficarem sem fôlego. Até podia tê-la apanhado, mas tinha escorregado em um pouco de gelo. A irmã voltou para ver se teria se machucado. Quando disse que não, Arya atingiu-a no rosto com outra bola de neve, mas Sansa agarrou-lhe a perna e puxou-a para baixo e estava esfregando neve no cabelo dela quando Jory apareceu e as separou, rindo.
O que faço com as bolas de neve? Olhou para o seu pequeno e triste arsenal. Não há ninguém em quem atirá-las. Deixou que a que estava fazendo lhe caísse das mãos. Em vez disso, podia fazer um cavaleiro de neve, pensou. Ou até...
Juntou duas das bolas de neve, acrescentou uma terceira, comprimiu mais neve em volta delas e deu a tudo a forma de um cilindro. Quando ficou pronto, colocou-o em pé e usou a ponta do mindinho para fazer os buracos das janelas. As ameias em volta do topo precisaram de um pouco mais de cuidado, mas quando ficaram prontas, tinha uma torre. Agora preciso de muralhas, pensou Sansa, e, depois, de uma fortaleza. Pôs mãos à obra.
A neve caía e o castelo erguia-se. Duas muralhas que se erguiam até a altura do tornozelo, a interior mais alta do que a exterior. Torres e torreões, fortalezas e escadarias, uma cozinha redonda, um arsenal quadrado, os estábulos ao longo do interior da muralha ocidental. Quando começou era apenas um castelo, mas não muito depois Sansa soube que era Winterfell. Encontrou gravetos e galhos caídos por baixo da neve e quebrou suas extremidades para fazer as árvores do bosque sagrado. Para as lápides do cemitério usou pedaços de casca de árvore. Pouco tempo depois tinha as luvas e as botas cobertas por uma crosta branca, as mãos formigando e os pés ensopados e frios, mas não fazia mal. O castelo era tudo o que importava. Algumas coisas eram difíceis de recordar, mas a maior parte vinha com facilidade, como se tivesse estado lá apenas no dia anterior. A Torre da Biblioteca, com a íngreme escada de pedra enrolada à sua volta, pelo exterior. A guarita, dois enormes baluartes, o portão arqueado entre eles, ameias ao longo do topo...