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A Tormenta de Espadas

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A Tormenta de Espadas
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Teria de raptá-la se quisesse o seu amor, mas ela poderia me dar filhos. Eu poderia um dia segurar nos braços um filho de meu próprio sangue. Um filho era algo com que Jon Snow nunca se atrevera a sonhar, desde que decidira viver a sua vida na Muralha. Podia chamá-lo de Robb. Val gostaria de ficar com o filho da irmã, mas poderíamos criá-lo em Winterfell, e o filho da Goiva também. Sam nunca teria de contar a sua mentira. E também encontraríamos lugar para Goiva, e Sam poderia ir visitá-la uma vez por ano, ou algo assim. O filho de Mance e o de Craster cresceriam como irmãos, como aconteceu comigo e Robb.

Jon compreendeu então que desejava aquilo. Desejava-o tanto como jamais tinha desejado alguma coisa. Sempre o desejei, pensou, sentindo-se culpado. Que os deuses me perdoem. Era uma fome que trazia dentro de si, afiada como uma lâmina de vidro de dragão. Uma fome... conseguia senti-la. Era de comida que necessitava, de presas, de um veado vermelho que fedesse a medo ou de um grande alce, orgulhoso e desafiador. Desejava matar e encher a barriga de carne fresca e sangue quente e escuro. Sua boca começou a se encher de saliva ao pensar nisso.

Passou-se um longo momento até compreender o que estava acontecendo. Quando isso aconteceu, pôs-se em pé de um salto.

Fantasma? – virou-se para a floresta, e ali estava ele, saltando em silêncio do interior do ocaso verde, com a respiração saindo quente e branca de suas mandíbulas abertas. – Fantasma! – gritou, e o lobo gigante desatou a correr. Estava mais esguio do que antes, mas também estava maior, e o único som que fazia era o suave estalar de folhas mortas sob as patas. Quando se aproximou de Jon, saltou, e ambos lutaram entre a grama amarronzada e as longas sombras, enquanto as estrelas surgiam por cima deles. – Deuses, lobo, onde esteve? – disse Jon quando o Fantasma parou de lhe mordiscar o braço. – Achava que tinha morrido, como Robb e Ygritte e todos os outros. Não consegui senti-lo desde que escalei a Muralha, nem mesmo em sonhos. – O lobo gigante não tinha resposta a dar, mas lambeu o rosto de Jon com uma língua que era como lixa úmida, e seus olhos capturaram a última luz e brilharam como dois grandes sóis vermelhos.

Olhos vermelhos, percebeu Jon, mas não como os de Melisandre. O lobo tinha olhos de represeiro. Olhos vermelhos, boca vermelha, pelo branco. Sangue e osso, como uma árvore-coração. Este pertence aos deuses antigos. E só ele, entre todos os lobos gigantes, era branco. Tinham encontrado seis filhotes nas neves do fim do verão, ele e Robb; cinco que eram cinzentos, negros e castanhos, para os cinco Stark, e um branco, tão branco como a neve. Snow.

Então obteve a sua resposta.

Sob a Muralha, os homens da rainha estavam acendendo a sua fogueira noturna. Viu Melisandre emergir do túnel com o rei a seu lado, para liderar as preces que acreditava que manteriam a escuridão afastada.

– Vem, Fantasma – disse Jon ao lobo. – Comigo. Você tem fome, eu sei. Consegui sentir. – Correram juntos para o portão, dando uma volta larga em torno da fogueira noturna, na qual altas chamas enfiavam as garras na barriga negra da noite.

Os homens do rei encontravam-se em grande evidência nos pátios de Castelo Negro. Paravam quando Jon passava por eles, e ficavam olhando de boca aberta. Compreendeu que nenhum deles jamais tinha visto um lobo gigante, e Fantasma era duas vezes maior do que os lobos comuns que patrulhavam as suas florestas do sul. Enquanto se dirigia ao arsenal, Jon olhou casualmente para cima e viu Val em pé, na sua janela de torre. Lamento, pensou, não sou o homem que a raptará daí.

No pátio de treinos deparou com uma dúzia de homens do rei com archotes e longas lanças nas mãos. O sargento olhou para Fantasma e franziu a testa, e dois dos seus homens baixaram as lanças até que o cavaleiro que os liderava disse:

– Afastem-se e deixem-nos passar. – E, dirigindo-se a Jon, disse: – Está atrasado para o jantar.

– Então saia do meu caminho, sor – respondeu Jon, e foi o que o outro fez.

Ouviu o ruído antes mesmo de chegar ao pé das escadas; vozes alteradas, xingamentos, alguém esmurrando uma mesa. Jon entrou na adega praticamente sem ser notado. Os irmãos enchiam os bancos e as mesas, mas os que estavam em pé e aos gritos eram mais numerosos do que aqueles que se encontravam sentados, e ninguém comia. Não havia comida. O que está acontecendo aqui? Lorde Janos Slynt berrava qualquer coisa sobre vira-casacas e traições, Emmett de Ferro encontrava-se em pé sobre uma mesa com a espada desembainhada na mão, Hobb Três-Dedos amaldiçoava um patrulheiro da Torre Sombria... um homem qualquer de Atalaialeste bateu com o punho algumas vezes na mesa, exigindo silêncio, mas tudo que conseguiu foi somar esse ruído ao burburinho que ecoava sob o teto abobadado.

Pyp foi o primeiro a notar a presença de Jon. Sorriu ao ver Fantasma, levou dois dedos à boca e assobiou como só um filho de saltimbanco sabia assobiar. O som estridente cortou o clamor como uma espada. Enquanto Jon caminhava na direção das mesas, mais irmãos reparavam nele e ficavam quietos. Um silêncio espalhou-se pela adega, até que os únicos sons que se ouviram foram os calcanhares de Jon soltando estalidos do chão de pedra, e o suave crepitar da lenha na lareira.

Sor Alliser Thorne estilhaçou o silêncio.

– O vira-casacas finalmente agracia-nos com sua presença.

Lorde Janos estava ruborizado e tremendo.

– A fera – arquejou. – Olhem! A fera que arrancou a vida do Meia-Mão. Um warg caminha entre nós, irmãos. Um WARG! Esta... esta criatura não é digna de nos liderar! Este lobisomem não é digno de viver!

Fantasma mostrou as presas, mas Jon apoiou uma mão na cabeça dele.

– Senhor – disse –, quer me dizer o que está acontecendo aqui?

Meistre Aemon respondeu do outro lado da sala.

– Seu nome foi sugerido para Senhor Comandante, Jon.

Aquilo era tão absurdo que Jon teve de sorrir.

– Por quem? – disse, em busca dos amigos. Aquilo tinha de ser uma das brincadeiras de Pyp, com certeza. Mas Pyp encolheu os ombros, e Grenn balançou a cabeça. Foi Edd Doloroso Tollett quem se levantou.

– Por mim. Sim, fazer isso a um amigo é terrivelmente cruel, mas antes você do que eu.

Lorde Janos recomeçou a falar furiosamente.

– Isso, isso é um ultraje. Nós devíamos enforcar esse rapaz. Sim! Enforquem-no, enforquem-no por ser um vira-casacas e warg, juntamente com o amigo Mance Rayder. Senhor Comandante? Não aceitarei isso, não admitirei isso!

Cotter Pyke pôs-se em pé.

Você não admite isso? Pode ser que tenha treinado aqueles homens de manto dourado para lamber a merda do seu cu, mas agora está usando um manto preto.

– Qualquer irmão pode pôr qualquer nome à nossa consideração, desde que o homem tenha proferido seus votos – disse Sor Dennis Mallister. – Tollett está inteiramente no seu direito, senhor.

Uma dúzia de homens começou a falar ao mesmo tempo, cada um tentando sobrepor sua voz à dos outros, e não tardou muito até que metade da sala estivesse de novo aos gritos. Daquela vez foi Sor Alliser Thorne quem saltou para cima da mesa e ergueu as mãos exigindo silêncio.

Irmãos! – gritou – Não lucramos nada com isso. Sugiro que votemos. Este rei que ocupou a Torre do Rei colocou homens em todas as portas para se assegurar de que não comamos nem saiamos até que a escolha seja feita. Que seja! Votaremos, e votaremos de novo, a noite inteira se necessário, até termos o nosso comandante... mas antes de depositarmos os penhores, creio que nosso Primeiro Construtor tem algo a nos dizer.

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