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A Tormenta de Espadas

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A Tormenta de Espadas
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– Eu conheço a sua história, Sor Denys – disse bruscamente o rei. – Dou-lhe a minha palavra, não lhes pedirei para erguer a espada contra nenhum dos rebeldes e usurpadores que me atormentam. Mas espero que continuem defendendo a Muralha como sempre fizeram.

– Defenderemos a Muralha até o último homem – disse Cotter Pyke.

– Que provavelmente serei eu – disse Edd Doloroso em tom resignado.

Stannis cruzou os braços.

– Também precisarei de mais algumas coisas de vocês. Coisas que talvez não me deem com tanta prontidão. Quero seus castelos. E quero a Dádiva.

Aquelas palavras sem rodeios estouraram entre os irmãos negros como um frasco de fogovivo atirado num braseiro. Marsh, Mallister e Pyke, todos tentaram falar ao mesmo tempo. O Rei Stannis deixou-os falar. Quando terminaram, disse:

– Eu tenho três vezes mais homens do que vocês. Posso ocupar as terras, se quiser, mas preferiria fazer isso legalmente, com o seu consentimento.

– A Dádiva foi perpetuamente oferecida à Patrulha da Noite, Vossa Graça – insistiu Bowen Marsh.

– O que significa que não pode ser legalmente capturada, adquirida ou tomada de vocês. Mas o que foi oferecido uma vez pode voltar a ser oferecido.

– O que fará com a Dádiva? – quis saber Cotter Pyke.

– Darei melhor uso a ela do que vocês deram. Quanto aos castelos, Atalaialeste, Castelo Negro e Torre Sombria continuarão sendo seus. Guarneçam-nos como sempre fizeram, mas tenho de ficar com os outros para as minhas guarnições, se quisermos defender a Muralha.

– Você não tem homens suficientes – retrucou Bowen Marsh.

– Alguns dos castelos abandonados são pouco mais do que ruínas – disse Othell Yarwyck, o Primeiro Construtor.

– Ruínas podem ser reconstruídas.

– Reconstruídas? – disse Yarwyck. – Mas quem fará o trabalho?

– Isso é problema meu. Necessitarei que me forneçam uma lista, detalhando o estado atual de cada castelo e o que será necessário para restaurá-lo. Pretendo tê-los todos guarnecidos de novo dentro de um ano, com fogueiras noturnas ardendo perante seus portões.

– Fogueiras noturnas? – Bowen Marsh dirigiu a Melisandre um olhar hesitante. – Agora devemos acender fogueiras noturnas?

– Sim. – A mulher levantou-se num turbilhão de seda escarlate, com os longos cabelos acobreados caindo em volta de seus ombros. – As espadas, sozinhas, não podem deter esta escuridão. Só a luz do Senhor consegue fazer isso. Não se iludam, bons sores e valentes irmãos, a guerra que viemos travar não é uma querela mesquinha a propósito de terras e honrarias. A nossa é uma guerra pela própria vida, e se falharmos o mundo morre conosco.

Sam viu que os oficiais não sabiam como entender aquilo. Bowen Marsh e Othell Yarwyck trocaram um olhar de dúvida, Janos Slynt estava furioso e Hobb Três-Dedos tinha a expressão de quem preferia estar cortando cenouras naquele momento. Mas todos pareceram surpreendidos ao ouvir Meistre Aemon murmurar:

– A guerra de que fala é a guerra pela alvorada, senhora. Mas onde está o príncipe que foi profetizado?

– Ele está na sua frente – declarou Melisandre –, embora não tenha olhos para ver. Stannis Baratheon é Azor Ahai regressado, o guerreiro do fogo. Nele, as profecias cumprem-se. O cometa vermelho ardeu no céu para anunciar a sua vinda, e ele traz a Luminífera, a espada vermelha dos heróis.

Sam viu que as palavras dela pareceram deixar o rei desesperadamente desconfortável. Stannis rangeu os dentes e disse:

– Chamaram, e eu vim, senhores. Agora têm de sobreviver comigo, ou morrer comigo. É melhor que se habituem a isso. – Fez um gesto brusco. – É tudo. Meistre, fique por um momento. E você também, Tarly. Os outros podem ir.

Eu?, pensou Sam, aflito, enquanto os irmãos faziam reverências e se dirigiam para a porta. O que ele quer comigo?

– É aquele que matou a criatura na neve – disse o Rei Stannis, depois de só restarem os quatro na sala.

– Sam, o Matador. – Melisandre sorriu.

Sam sentiu o rosto enrubescer.

– Não, senhora. Vossa Graça. Quer dizer, sou, sim. Sou Samwell Tarly, sim.

– Seu pai é um soldado capaz – disse o Rei Stannis. – Derrotou uma vez o meu irmão, em Vaufreixo. Mance Tyrell reclamou alegremente as honras dessa vitória, mas Lorde Randyll tinha resolvido o assunto antes de Tyrell sequer encontrar o campo de batalha. Ele matou Lorde Cafferen com aquela sua grande espada valiriana e mandou a cabeça dele a Aerys. – O rei esfregou o queixo com um dedo. – Você não é o tipo de filho que eu esperaria que um homem assim tivesse.

– Eu... eu não sou o tipo de filho que ele desejava, senhor.

– Se não tivesse vestido o negro, daria um refém útil – devaneou Stannis.

– Ele vestiu o negro, senhor – apontou Meistre Aemon.

– Estou bem consciente desse fato – disse o rei. – Estou consciente de mais do que pensa, Aemon Targaryen.

O velho inclinou a cabeça.

– Sou apenas Aemon, senhor. Abandonamos o nome de nossas Casas quando forjamos as correntes de meistre.

O rei respondeu àquilo com um aceno seco, como quem diz que sabia e não se importava.

– Matou aquela criatura com um punhal de obsidiana, segundo me dizem – disse ele a Sam.

– S-sim, Vossa Graça. Foi Jon Snow quem me deu.

– Vidro de dragão. – O riso da mulher vermelha era música. – Fogo congelado, na língua da antiga Valíria. Pouco admira que seja anátema para aqueles frios filhos do Outro.

– Em Pedra do Dragão, onde tinha a minha sede, vê-se muita desta obsidiana nos velhos túneis por baixo da montanha – disse o rei a Sam. – Grandes pedaços, pedregulhos, veios. A maior parte é negra, se bem me lembro, mas havia também alguma verde, alguma vermelha, até púrpura. Mandei dizer a Sor Rolland, o meu castelão, para começar a miná-la. Não controlarei Pedra do Dragão durante muito mais tempo, receio, mas o Senhor da Luz talvez nos permita obter fogo congelado suficiente para nos armarmos contra essas criaturas, antes que o castelo caía.

Sam pigarreou.

– S-senhor. O punhal... o vidro de dragão apenas estilhaçou-se quando tentei apunhalar uma criatura.

Melisandre sorriu.

– É a necromancia que anima essas criaturas, mas elas não deixam de ser apenas carne morta. O aço e o fogo servirão para elas. Aqueles que chamam de Outros são algo mais.

– Demônios feitos de neve, gelo e frio – disse Stannis Baratheon. – O antigo inimigo. O único inimigo que importa. – Voltou a fitar Sam. – Disseram-me que você e aquela garota selvagem passaram por baixo da Muralha, através de um portão mágico qualquer.

– O P-Portão Negro – gaguejou Sam. – Por baixo de Fortenoite.

– Fortenoite é o maior e mais antigo dos castelos na Muralha – disse o rei. – É lá que pretendo me instalar, enquanto travo esta guerra. Você irá me mostrar esse portão.

– Eu – disse Sam –, eu m-mostro, se... – Se ainda estiver lá. Se se abrir para um homem que não veste negro. Se...

– Mostrará – exclamou Stannis. – Eu direi quando.

Meistre Aemon sorriu.

– Vossa Graça – disse –, antes de irmos, pergunto a mim mesmo se poderia nos fazer a grande honra de mostrar essa maravilhosa lâmina de que tanto ouvimos falar.

Você quer ver a Luminífera? Um cego?

– Sam será os meus olhos.

O rei franziu a testa.

– Todo mundo já viu a coisa, por que não um cego? – seu cinto da espada e a bainha estavam pendurados em um gancho perto da lareira. Pegou o cinto e desembainhou a espada. Aço roçou em madeira e couro, e uma radiância encheu o aposento privado; cintilando, ondulando, uma dança de luz dourada, alaranjada e vermelha, todas as cores brilhantes do fogo.

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