Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
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– Ouvi dizer isso.
– Minha vida tem sido uma perseguição incessante de um marido que detesto. A lei está do lado dele, e cada dia enfrento a possibilidade de ele poder me obrigar a ir viver com ele. Na ocasião em que escrevi esta carta a sir Charles, eu soubera que havia uma perspectiva de recuperar a minha liberdade se pudesse fazer face a certas despesas. Isso significava tudo para mim, paz de espírito, felicidade, amor-próprio, tudo. Eu conhecia a generosidade de sir Charles, e achei que se ele ouvisse a história dos meus próprios lábios, me ajudaria.
– Então por que a senhora não foi?
– Porque, nesse meio-tempo, recebi ajuda de outra fonte.
– Então por que a senhora não escreveu a sir Charles e explicou isto?
– Era o que eu faria se não tivesse visto a notícia da sua morte no jornal na manhã seguinte.
A história da mulher era coerente, e as minhas perguntas foram incapazes de abalá-la. Eu só podia confirmá-la descobrindo se ela realmente iniciara a ação de divórcio contra seu marido na ocasião da tragédia ou por volta dessa época.
Era pouco provável que ela se atrevesse a dizer que não esteve na Mansão Baskerville se realmente tivesse estado, porque seria necessária uma charrete para levá-la até lá, e só poderia ter voltado a Coombe Tracey nas primeiras horas da manhã. Uma excursão dessas não podia ser mantida em segredo. Portanto, a probabilidade era de que ela estivesse dizendo a verdade ou, pelo menos, parte da verdade. Eu saí confuso e desanimado. Mais uma vez havia chegado àquele beco sem saída que parecia existir em todos os caminhos pelos quais eu tentava chegar ao objetivo da minha missão. Mas, apesar disso, quanto mais eu pensava no rosto da moça e no seu comportamento, mais eu sentia que alguma coisa estava sendo escondida de mim. Por que ela ficara tão pálida? Por que lutara contra cada confissão até que esta fosse extraída dela à força? Por que fora tão reticente na época da tragédia? Certamente a explicação de tudo isto não podia ser tão inocente como ela queria me fazer crer. No momento eu não podia continuar naquela direção, mas devia me voltar para aquela outra pista que tinha de ser procurada entre as cabanas de pedra acima do pântano.
E esse era um rumo muito vago. Percebi isso quando voltava de charrete e notei que colina após colina exibiam vestígios do povo antigo. A única indicação de Barrymore era de que o estranho morava numa dessas cabanas abandonadas, e centenas delas estão espalhadas por todo o pântano. Mas eu tinha a minha própria experiência como guia, já que ela havia me mostrado o homem de pé sobre o cume do Pico Rochoso. Esse, então, deveria ser o centro da minha busca. A partir dali eu devia explorar cada cabana do pântano até encontrar a certa. Se este homem estivesse dentro dela, eu tinha de descobrir pelos seus próprios lábios, apontando o meu revólver se necessário, quem era ele e por que nos seguira por tanto tempo. Ele podia escapar de nós no meio da multidão da Regent Street, mas ficaria embaraçado para fazer isso no pântano deserto. Por outro lado, se eu encontrasse a cabana e o seu inquilino não estivesse dentro dela, eu teria de ficar lá, por mais longa que fosse a vigília, até ele voltar. Holmes o havia perdido em Londres. Seria realmente um triunfo para mim se pudesse achá-lo, coisa em que meu mestre havia falhado.
A sorte tinha estado contra nós várias vezes nesta investigação, mas agora finalmente ela veio em meu auxílio. E o mensageiro da boa nova não era outro senão o sr. Frankland, que estava parado, com as suíças grisalhas e o rosto vermelho, do lado de fora do portão do seu jardim, que dava para a estrada pela qual eu seguia.
– Bom dia, dr. Watson – exclamou ele com um bom humor incomum. – O senhor precisa realmente dar um descanso aos seus cavalos e entrar para tomar um cálice de vinho e me felicitar.
Meus sentimentos em relação a ele estavam longe de ser amistosos depois do que eu ouvira a respeito do modo como tratara a filha, mas eu estava ansioso para mandar Perkins e a charrete para casa, e a oportunidade era boa. Desci e mandei um recado para sir Henry de que voltaria a pé a tempo para o jantar. Depois segui Frankland até a sala de jantar.
– É um grande dia para mim, dr. Watson, um dos dias mais memoráveis da minha vida! – exclamou ele com muitas risadinhas. – Realizei uma façanha dupla. Quero mostrar a eles nesta região que lei é lei, e que há um homem aqui que não tem medo de invocá-la. Estabeleci uma servidão de passagem pelo meio do velho parque de Middleton, bem no meio dele, dr. Watson, a 90 metros da sua própria porta da frente. O que acha disso? Ensinaremos a estes magnatas que eles não podem passar tiranicamente sobre os direitos dos plebeus, diabos os levem! E fechei o bosque no lugar onde a família Fernworthy costumava fazer piqueniques. Esta gente infernal parece pensar que não há nenhum direito de propriedade, e que eles podem invadir o lugar que quiserem com seus papéis e suas garrafas. Os dois casos decididos, dr. Watson, e os dois a meu favor. Não tinha um dia desses desde que processei sir John Morland por invasão, porque ele atirou em seu próprio parque.
– Como diabo o senhor conseguiu isso?
– Procurei referências nos livros, dr. Watson. Vale a pena ler – Frankland versus Morland, Tribunal Superior de Justiça. Custou-me 200 libras, mas consegui minha sentença.
– Isso lhe trouxe algum benefício?
– Nenhum, senhor, nenhum. Orgulho-me de dizer que não tenho nenhum interesse na questão. Ajo inteiramente por um senso de dever público. Não tenho nenhuma dúvida, por exemplo, de que a família Fernworthy vai queimar minha efígie esta noite. Eu disse à polícia, na última vez que eles fizeram isso, que devia impedir estas exibições vergonhosas. A polícia do Condado está numa situação escandalosa, senhor, e não me deu a proteção a que tenho direito. O caso Frankland versus Regina levará o assunto ao conhecimento do público. Eu avisei que eles iriam lamentar o tratamento que me dispensaram, e as minhas palavras já se tornaram realidade.
– Como assim? – perguntei.
O velho assumiu uma expressão muito astuta.
– Porque eu poderia contar a eles o que eles estão loucos para saber; mas nada me convencerá a ajudar os patifes de alguma maneira.
Eu estivera procurando alguma desculpa para poder me livrar dos seus mexericos, mas comecei a querer ouvir mais. Eu já vira o suficiente da natureza caprichosa do velho pecador para compreender que qualquer sinal de interesse seria a maneira mais certa de interromper as suas confidências.
– Algum caso de invasão, sem dúvida? – eu disse de maneira indiferente.
– Ha, ha, meu rapaz, um assunto muito mais importante do que esse! É quanto ao condenado no pântano.
Levei um susto. – O senhor não quer dizer que sabe onde ele está? – perguntei.
– Talvez eu não saiba exatamente onde ele está, mas tenho certeza absoluta de que posso ajudar a polícia a pôr as mãos nele. Nunca lhe ocorreu que a maneira de pegar esse homem é descobrir onde ele consegue a comida, e assim segui-la até ele?
Ele certamente parecia estar chegando incomodamente perto da verdade. – Sem dúvida – eu disse. – Mas como o senhor sabe que ele está em algum lugar do pântano?
– Sei porque vi com os meus próprios olhos o mensageiro que leva a comida para ele.
Meu coração ficou apertado por causa de Barrymore. Era uma coisa séria cair em poder deste velho abelhudo vingativo. Mas seu comentário seguinte tirou um peso da minha alma.
– O senhor ficaria surpreso de saber que a comida dele é levada por uma criança. Eu o vejo todo dia pelo meu telescópio do telhado. Ele passa pelo mesmo caminho à mesma hora, e para quem ele estaria levando senão para o condenado?
Isso era sorte, realmente! Mas controlei todo sinal de interesse. Uma criança! Barrymore havia dito que o nosso desconhecido era abastecido por um rapaz. Foi na pista dele, e não na do condenado, que Frankland havia tropeçado. Se eu conseguisse extrair o que ele sabia, isso podia me poupar uma busca longa e cansativa. Mas incredulidade e indiferença eram, evidentemente, minhas cartas mais fortes.