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A Tormenta de Espadas

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A Tormenta de Espadas
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Também lá estavam os corvos, gritando contra os lobos e enchendo o ar de penas. O sangue deles era mais quente, e uma de suas irmãs abocanhou um ao levantar voo, apanhando-o por uma asa. Aquilo fez com que também desejasse um corvo. Queria sentir o sabor do sangue, ouvir os ossos se esmagando entre seus dentes, encher a barriga com carne quente em vez de fria. Tinha fome e havia carne por toda a volta, mas sabia que não podia comer.

O cheiro agora era mais forte. Levantou as orelhas e escutou os rosnados da alcateia, os guinchos de corvos irritados, o sussurro das asas e o som da água corrente. Ouviu sons de cavalos e os gritos dos vivos vindos de algum lugar a distância, mas não eram eles que importavam. Só o odor importava. Voltou a farejar o ar. Ali estava ele, e agora também via a sua origem, algo pálido à deriva no rio, virando-se quando roçava por um obstáculo submerso. Os juncos faziam reverências à sua frente.

Chapinhou ruidosamente pelos baixios e atirou-se em águas mais profundas, batendo as patas. A correnteza era forte, mas ela era mais. Nadou, seguindo o nariz. Os cheiros do rio eram ricos e úmidos, mas não eram esses que a atraíam. Nadou atrás do vivo sussurro rubro do sangue frio, do fedor enfastiante e doce da morte. Perseguiu-os como perseguira frequentemente um veado vermelho por entre as árvores, e por fim apanhou-os e suas mandíbulas fecharam-se em volta de um braço pálido. Sacudiu-o para obrigá-lo a se mexer, mas havia apenas morte e sangue em sua boca. Começava a se cansar, e foi com dificuldade que puxou o cadáver para a terra. Enquanto o arrastava para a margem lamacenta, um de seus irmãos menores veio investigar, com a língua saindo da boca. Teve de rosnar para afastá-lo, caso contrário ele teria comido. Só então parou para sacudir a água do pelo. A coisa branca jazia de bruços na lama, com a carne morta enrugada e pálida e sangue frio pingando de sua garganta. Levante-se, pensou. Levante-se, e venha comer e correr conosco.

O ruído de cavalos fez a loba virar a cabeça. Homens. Vinham contra o vento, e por isso não sentira o cheiro deles, mas agora estavam quase ali. Homens a cavalo, com asas pretas, amarelas e cor-de-rosa que batiam ao vento e longas garras brilhantes nas mãos. Alguns de seus irmãos mais novos mostraram os dentes para proteger a comida que tinham achado, mas ela mordeu-os até fugirem. Era essa a lei da natureza. Veados, lebres e corvos fugiam perante lobos, e lobos fugiam dos homens. Abandonou a captura fria e branca na lama para onde a arrastara, e fugiu, e não sentiu vergonha.

Quando a manhã chegou, Cão de Caça não precisou gritar ou sacudir Arya para que acordasse. Ela havia acordado antes dele, por uma vez, e até tinha dado água aos cavalos. Quebraram o jejum em silêncio, até que Sandor disse:

– Aquela conversa de sua mãe...

– Não importa – disse Arya numa voz sem vida. – Eu sei que está morta. Vi-a num sonho.

Cão de Caça observou-a por um longo momento, e depois assentiu. Nada mais foi dito sobre o assunto. Continuaram a viagem na direção das montanhas.

Nas colinas mais elevadas, chegaram a uma minúscula aldeia isolada rodeada por árvores-sentinela de um cinza-esverdeado e grandes pinheiros marciais azuis, e Clegane decidiu arriscar entrar.

– Precisamos de comida – afirmou – e de um telhado sobre a cabeça. Não é provável que eles saibam o que aconteceu nas Gêmeas, e com um pouco de sorte não vão me reconhecer.

Os aldeões estavam construindo uma paliçada de madeira em volta de suas casas, e quando viram a largura dos ombros de Cão de Caça, ofereceram-lhes comida e abrigo, e até dinheiro em troca de trabalho.

– Se também houver vinho, aceito – rosnou-lhes ele. Por fim, acabou se contentando com cerveja, e todas as noites bebia até adormecer.

Mas o seu sonho de vender Arya à Senhora Arryn morreu ali nas colinas.

– Há geada acima de nós e neve nos passos de altitude – disse o ancião da aldeia. – Se não congelar ou passar fome, os gatos-das-sombras vão pegá-lo, ou então serão os ursos das cavernas. E também há os clãs. Os Homens Queimados andam destemidos desde que Timett Zarolho voltou da guerra. E há meio ano, Gunthor, filho de Gurn, desceu com os Corvos de Pedra até uma aldeia a menos de treze quilômetros daqui. Levaram todas as mulheres e todos os restos de cereais e mataram metade dos homens. Agora têm aço, espadas boas e camisas de cota de malha, e vigiam a estrada de altitude... os Corvos de Pedra, as Serpentes de Leite, os Filhos da Névoa, todos eles. Talvez possa levar alguns com você, mas no fim vão matá-lo e ir embora com a sua filha.

Não sou filha dele, podia ter gritado Arya, se não se sentisse tão cansada. Agora não era filha de ninguém. Não era ninguém. Nem Arya, nem a Doninha, nem Nan, nem Arry, nem a Pombinha, nem sequer Cabeça de Caroço. Era apenas uma garota qualquer que corria de dia com um cão e à noite sonhava com lobos.

A aldeia era sossegada. Tinham colchões de palha sem muitos piolhos, a comida era simples mas satisfazia e o ar cheirava a pinheiros. Mesmo assim, Arya depressa decidiu que a detestava. Os aldeões eram covardes. Nenhum deles sequer olhava para a cara do Cão de Caça, pelo menos não por muito tempo. Algumas das mulheres tentaram enfiá-la num vestido e obrigá-la a bordar, mas não eram a Senhora Smallwood, e Arya nem quis ouvir falar do assunto. E havia uma garota que decidiu segui-la, filha do ancião da aldeia. Tinha a idade de Arya, mas não passava de uma criança; chorava se esfolasse um joelho, e carregava uma estúpida boneca de trapos para todo lado. A boneca tinha sido feita para se assemelhar a um homem de armas, mais ou menos, e por isso a menina chamava-a de Sor Soldado e gabava-se de como ele a mantinha a salvo.

– Vá embora – disse-lhe Arya meia centena de vezes. – Deixe-me em paz. – Mas ela não deixava, e Arya acabou por lhe tirar a boneca, rasgá-la, enfiar um dedo na barriga e puxar os trapos que a enchiam. – Agora parece mesmo um soldado! – disse, antes de atirar a boneca em um riacho.

Depois daquilo a garota deixou de importuná-la, e Arya passou a gastar os dias tratando da Covarde e do Estranho ou passeando pela floresta. Por vezes achava um pedaço de madeira e praticava seus trabalhos de agulha, mas então recordava o que havia acontecido nas Gêmeas e batia com ele numa árvore até que se partisse.

– Talvez devêssemos ficar aqui por algum tempo – disse-lhe Cão de Caça depois de uma quinzena. Estava bêbado de cerveja, mas mostrava-se mais pensativo do que sonolento. – Nunca chegaremos ao Ninho da Águia, e os Frey ainda devem andar à caça de sobreviventes nas terras fluviais. Parece que por aqui precisam de quem saiba manejar uma espada, com os ataques desses clãs. Podíamos descansar e talvez achar uma maneira de fazer chegar uma carta à sua tia.

O rosto de Arya tornou-se sombrio ao ouvir aquilo. Não queria ficar, mas também não havia para onde ir. Na manhã seguinte, quando Cão de Caça saiu para abater árvores e carregar troncos, voltou a enfiar-se na cama.

Mas quando o trabalho terminou e a grande paliçada de madeira ficou pronta, o ancião da aldeia deixou claro que não havia lugar para eles.

– Quando chegar o inverno, vamos ter dificuldade em alimentar os nossos – explicou. – E você... um homem como você traz sangue consigo.

A boca de Sandor comprimiu-se.

– Então sabe quem eu sou.

– Sim. Os viajantes não chegam aqui, é verdade, mas vamos ao mercado e a feiras. Sabemos do cão do Rei Joffrey.

– Quando esses Corvos de Pedra vierem visitá-los, podem ficar felizes por ter um cão.

– Pode ser que sim. – O homem hesitou, mas depois reuniu coragem. – Mas dizem que perdeu o estômago para a luta na Água Negra. Dizem...

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