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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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Mas Lestrade estava ansioso para levar o homem para um local seguro; de modo que em poucos minutos nossa carruagem foi chamada e estávamos todos os quatro indo para Londres. Nosso prisioneiro não dizia uma palavra, mas nos observava com seus olhos embaciados, e uma vez, quando minha mão parecia estar ao seu alcance, tentou mordê-la como um lobo faminto. Ficamos na delegacia o suficiente para descobrir que uma revista em suas roupas não revelou nada a não ser uns poucos xelins e uma longa faca de bainha, cujo cabo tinha muitos vestígios de sangue recente.

– Está tudo certo – disse Lestrade quando saíamos. – Hill conhece toda essa gente e dará um nome a ele. O senhor descobrirá que minha teoria sobre a Máfia será correta. Mas tenho certeza de que lhe devo muitos agradecimentos, sr. Holmes, pela eficiência com que deitou as mãos nele. Ainda não estou entendendo tudo.

– Receio que seja uma hora um pouco tardia para explicações – disse Holmes. – Além disso, existem um ou dois detalhes que ainda não estão completos, e este é um daqueles casos em que é melhor ir até o fim. Se vier aos meus aposentos mais uma vez amanhã às 18 horas, acho que poderei lhe mostrar que mesmo agora você ainda não captou o significado completo deste negócio, que apresenta algumas características que o tornam absolutamente original na história do crime. Se eu chegar a permitir que escreva a história de mais alguns de meus probleminhas, Watson, posso prever que encherá suas páginas com o relato da aventura singular dos bustos napoleônicos.

Quando nos encontramos novamente na noite seguinte, Lestrade tinha muitas informações relacionadas com o nosso prisioneiro. Seu nome, parece, era Beppo, sobrenome desconhecido. Era um vagabundo conhecido na colônia italiana. Já fora um hábil escultor e levava uma vida honesta, mas passou a trilhar os caminhos do mal e já estivera preso duas vezes – uma por furto, e outra, como já sabíamos, por esfaquear um conterrâneo. Sabia falar inglês perfeitamente. Seus motivos para destruir os bustos ainda eram desconhecidos, e ele se recusava a responder a qualquer pergunta sobre o assunto, mas a polícia descobriu que estes mesmos bustos poderiam muito bem ter sido feitos por suas próprias mãos, já que estava envolvido nesse tipo de trabalho no estabelecimento de Gelder & Co. Holmes ouviu com atenção cortês todas essas informações, muitas das quais já eram do nosso conhecimento, mas eu, que o conhecia tão bem, podia ver que seus pensamentos estavam em outro lugar, e percebi uma mistura de agitação e expectativa por baixo da máscara que adotara. Por fim, endireitou-se na cadeira e seus olhos brilharam. Alguém tocara a campainha. Um instante depois ouvimos passos na escada, e um homem idoso, de rosto vermelho e suíças grisalhas, entrou apressado. Na mão direita carregava uma antiga mala de viagem, que pôs sobre a mesa.

– O sr. Sherlock Holmes está aqui?

Meu amigo inclinou-se e sorriu. – Sr. Sandeford, de Reading, suponho? – disse.

– Sim, senhor, receio estar um pouco atrasado, mas os trens estavam horríveis. Escreveu para mim sobre um busto que está em meu poder.

– Exatamente.

Tenho sua carta aqui. Diz: “Desejo possuir uma cópia do Napoleão de Devine, e estou disposto a pagar 10 libras pelo que está com o senhor.” Está correto?

– Perfeitamente.

– Fiquei muito surpreso com sua carta, pois não posso imaginar como soube que eu possuía esse objeto.

– É claro que deve ter ficado surpreso, mas a explicação é muito simples. O sr. Harding, de Harding Brothers, contou-me que lhe vendeu a última cópia, e me deu seu endereço.

– Oh, então foi assim? Ele lhe disse quanto paguei por ela?

– Não, não disse.

– Bem, sou um homem próspero, embora não muito rico. Dei apenas 15 xelins pelo busto, e acho que deveria saber disso antes de eu lhe tomar 10 libras.

– Estou certo de que seu escrúpulo faz a sua honra, sr. Sandeford. Mas eu disse o preço e pretendo pagá-lo.

– Bem, é muito bonito de sua parte, sr. Holmes. Trouxe o busto comigo, como me pediu. Aqui está! – abriu a mala e afinal vimos colocado sobre nossa mesa um exemplar inteiro daquele busto que já víramos mais de uma vez em fragmentos.

Holmes pegou um papel no bolso e pôs uma nota de 10 libras sobre a mesa.

– Gostaria que fizesse a gentileza de assinar aquele papel, sr. Sandeford, na presença destas testemunhas. É apenas para dizer que transfere para mim qualquer possível direito que já tenha tido sobre o busto. Sou um homem metódico, como vê, e nunca se sabe o rumo que os acontecimentos podem tomar depois. Obrigado, sr. Sandeford; aqui está seu dinheiro, e lhe desejo uma boa noite.

Quando nosso visitante desapareceu, os movimentos de Sherlock Holmes atraíram nossa atenção. Começou por tirar um pano branco limpo de um armário, colocando-o sobre a mesa. Depois depositou o busto recém-adquirido no centro do pano. Finalmente, pegou seu chicote e deu uma chicotada no Napoleão bem no alto da cabeça. A peça se despedaçou e Holmes curvou-se ansiosamente sobre os fragmentos espalhados. Logo depois, com um grito de triunfo, pegou um pedaço, no qual estava grudado um objeto redondo e escuro, como uma ameixa num pudim.

– Cavalheiros – exclamou –, deixem-me apresentá-los à famosa pérola negra dos Bórgias.

Lestrade e eu ficamos em silêncio por um instante, e, então, num impulso espontâneo, começamos a bater palmas, como num momento culminante de uma peça bem elaborada. Um rubor se espalhou pela face pálida de Holmes, e ele se curvou para nós – como um mestre dramaturgo que recebe a homenagem de sua platéia. Era nessas ocasiões que ele deixava por um instante de ser uma máquina de raciocínio e traía sua paixão humana por admiração e aplauso. A mesma natureza singularmente orgulhosa e reservada que se afastava com desdém da notoriedade pública era capaz de ir às suas profundezas pela admiração e pelo elogio espontâneos de um amigo.

– Sim, cavalheiros – disse –, é a pérola mais famosa no mundo atualmente, e tive a sorte de, pela cadeia de raciocínio indutivo, segui-la desde o quarto do príncipe de Colonna, no Hotel Dacre, onde foi perdida, até o interior disto, o último dos seis bustos de Napoleão que foram feitos por Gelder & Co., de Stepney. Deve se lembrar, Lestrade, da sensação causada pelo desaparecimento dessa jóia valiosa, e das tentativas inúteis da polícia de Londres para recuperá-la. Eu mesmo fui consultado, mas não consegui ajudar a esclarecer o caso. As suspeitas recaíram sobre a empregada da princesa, que era italiana e tinha um irmão em Londres, mas não conseguimos encontrar nenhuma ligação entre eles. O nome dessa empregada era Lucretia Venucci, e não tenho dúvida de que esse Pietro que foi assassinado duas noites atrás era o irmão dela. Estive vendo as datas nos velhos arquivos do jornal, e descobri que o desaparecimento da pérola ocorreu exatamente dois dias antes da prisão de Beppo por algum crime de violência – um fato que aconteceu na fábrica de Gelder & Co., exatamente quando esses bustos estavam sendo feitos. Agora vocês vêem claramente a seqüência de fatos, embora vejam, é claro, numa ordem inversa da que se apresentaram a mim. Beppo estava de posse da pérola. Deve tê-la roubado de Pietro, deve ter sido cúmplice dele, o intermediário entre Pietro e sua irmã. Não nos importa qual dessas é a solução correta.

– O principal é que ele tinha a pérola, e naquele momento, quando ela estava com ele, foi perseguido pela polícia. Correu para a fábrica em que trabalhava e sabia que tinha apenas alguns minutos para esconder aquele objeto imensamente valioso, que, do contrário, seria encontrada com ele quando fosse alcançado. Seis peças de gesso estavam secando no corredor. Uma delas ainda estava mole. Num instante Beppo, um escultor habilidoso, fez um pequeno buraco no gesso mole, colocou a pérola, e com alguns toques cobriu a abertura novamente. Era um ótimo esconderijo. Possivelmente ninguém iria descobri-lo. Mas Beppo foi condenado a um ano de prisão, e nesse período os seis bustos se espalharam por Londres. Ele não podia saber qual continha o seu tesouro. Só quebrando-os é que poderia ver. Mesmo se os sacudisse, não adiantaria nada, pois como o gesso estava mole, era possível que a pérola aderisse a ele – como, de fato, aconteceu. Beppo não se desesperou, e conduziu sua pesquisa com bastante engenho e perseverança. Por intermédio de um primo que trabalha na Gelder, descobriu as firmas que compraram os bustos. Conseguiu emprego com Morse Hudson, e assim achou três deles. A pérola não estava lá. Depois, com a ajuda de algum empregado italiano, conseguiu descobrir para onde os outros três bustos tinham ido. O primeiro estava com Harker. Ali ele foi seguido por seu cúmplice, que o responsabilizou pela perda da pérola e foi apunhalado na luta que se seguiu.

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