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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– Doença? – disse eu.

– Loucura, ou algo assim. E uma loucura estranha, também. Não imaginava que existisse alguém nos dias de hoje que tivesse tanto ódio de Napoleão I a ponto de quebrar toda estátua dele que vê.

Holmes afundou-se na cadeira.

– Não é minha especialidade – disse.

– Exato. Foi o que eu disse. Mas quando o homem pratica um roubo a fim de quebrar as imagens que não são dele, isto o afasta do doutor e o aproxima do policial.

Holmes endireitou-se na cadeira novamente.

– Roubo! Isto é mais interessante. Conte-me os detalhes.

Lestrade pegou seu caderno de anotações e refrescou a memória em suas páginas.

– O primeiro caso relatado ocorreu há quatro dias – disse ele. – Foi na loja de Morse Hudson, que tem um estabelecimento para a venda de pinturas e esculturas na Kennington Road. O assistente havia saído da parte da frente da loja por um instante quando ouviu o barulho de alguma coisa se quebrando. Correu até lá e encontrou um busto de gesso de Napoleão, que estava junto com várias outras obras de arte sobre o balcão, totalmente espatifado. Correu para a rua, mas, embora muitos passantes dissessem ter visto um homem saindo apressado da loja, não conseguiu ver ninguém nem descobriu meios de identificar o patife. Parecia ser um desses atos absurdos de vandalismo que ocorrem de tempos em tempos, e foi isso que ele informou a um guarda na mesma hora. A peça de gesso não valia mais do que alguns xelins, e o caso todo parecia uma infantilidade para merecer uma investigação especial.

– Mas o segundo caso foi mais grave e também mais estranho. Ocorreu na noite passada.

– Na Kennington Road, e a algumas centenas de metros da loja de Morse Hudson, mora um conhecido médico chamado dr. Barnicot, que tem uma grande clientela no lado sul do Tâmisa. Sua residência e principal consultório ficam na Kennington Road, mas tem um setor de cirurgia e farmácia na Lower Brixton Road, a 3 quilômetros de lá. Este dr. Barnicot é um entusiástico admirador de Napoleão, e a sua casa é cheia de livros, pinturas e relíquias do imperador francês. Há pouco tempo ele comprou de Morse Hudson duas cópias em gesso da famosa cabeça de Napoleão feita pelo escultor francês Devine. Colocou uma delas no saguão da casa, na Kennington Road, e a outra no consolo da lareira do setor de cirurgia, em Lower Brixton. Bem, quando o dr. Barnicot chegou esta manhã, ficou surpreso ao descobrir que sua casa fora assaltada durante a noite, mas que nada tinha sido levado a não ser a cabeça de gesso do saguão. Ela fora levada para fora e esmigalhada selvagemente contra o muro do jardim, junto ao qual foram encontrados fragmentos espalhados.

Holmes esfregou as mãos.

– Isto com certeza é uma novidade – disse.

– Imaginei que gostaria. Mas ainda não cheguei ao final. O dr. Barnicot tinha de estar na sua sala de operações ao meio-dia, e o senhor pode imaginar o seu espanto quando, ao chegar lá, descobriu que a janela fora aberta durante a noite, e que os pedaços quebrados do segundo busto estavam espalhados por todo o aposento. Foi esmigalhado em pedacinhos bem no lugar onde ficava. Em nenhum dos casos havia qualquer vestígio que nos pudesse dar uma pista do criminoso ou lunático que fizera esses estragos. Agora, sr. Holmes, o senhor tem os fatos.

– Eles são estranhos, para não dizer grotescos – disse Holmes. – Posso perguntar se os dois bustos esmagados nos aposentos do dr. Barnicot eram cópias exatas do que foi destruído na loja de Morse Hudson?

– Foram tirados do mesmo molde.

– Este fato vai contra a teoria de que o homem que os quebra está influenciado por algum ódio generalizado contra Napoleão. Se levarmos em conta as centenas de estatuetas do grande imperador que devem existir em Londres, seria demais supor a coincidência de que um iconoclasta aleatório começaria, por acaso, por três exemplares do mesmo busto.

– Bem, penso como o senhor – disse Lestrade. – Por outro lado, este Morse Hudson é o fornecedor de bustos daquela parte de Londres, e estes três eram os únicos que tinham estado na sua loja durante anos. De modo que, embora, como diz, existam centenas de estatuetas em Londres, é muito provável que estas três fossem as únicas naquele distrito. Portanto, um fanático local começaria com eles. O que acha, dr. Watson?

– Não há limites para a monomania – respondi. – Existe a condição que os psicólogos franceses modernos chamaram de idée fixe, que pode ser insignificante num caráter, e acompanhada de completa sanidade em todos os outros aspectos. Um homem que tenha lido profundamente sobre Napoleão, ou que possivelmente tenha algum mal hereditário de família por causa da grande guerra, poderia perfeitamente criar uma idée fixe e sob sua influência ser capaz de atos fantásticos.

– Isto não serve, meu caro Watson – disse Holmes, balançando a cabeça –, pois nenhuma dimensão da idée fixe daria condições ao nosso interessante monomaníaco de descobrir onde estavam esses tais bustos.

– Bem, como você explica isso?

– Não tento explicar. Apenas observaria que há um certo método nos procedimentos excêntricos do cavalheiro. Por exemplo, no saguão do dr. Barnicot, onde qualquer ruído poderia acordar a família, o busto foi levado para fora antes de ser quebrado, ao passo que no setor de cirurgia, onde havia menos perigo de alarme, foi esmagado no lugar onde estava. O caso parece ridiculamente banal, e mesmo assim não ouso chamar nada de trivial quando me lembro de que alguns dos meus casos mais clássicos tiveram um início nada promissor. Lembre-se, Watson, como o horrível caso da família Abernetty me chamou a atenção primeiro pelo sulco que a salsa fizera na manteiga num dia quente. Portanto não posso sorrir ante seus três bustos quebrados, Lestrade, e ficarei muito grato a você se me informar de qualquer fato novo nesta série tão estranha de acontecimentos.

O fato que meu amigo esperava veio de uma forma mais rápida e infinitamente mais trágica do que ele podia ter imaginado. Ainda estava me vestindo em meu quarto, na manhã seguinte, quando ouvi uma batida na porta e Holmes entrou com um telegrama na mão. Leu-o em voz alta:

Venha imediatamente, 131 rua Pitt, Kensington.

Lestrade.

– Então, o que é? – perguntei.

– Não sei – pode ser qualquer coisa. Mas suspeito que é a continuação da história das estatuetas. Nesse caso o nosso amigo, o destruidor de imagens, começou suas operações numa outra parte de Londres. Há café na mesa, Watson, e tenho um cabriolé esperando na porta.

Em meia hora chegávamos à rua Pitt, um lugarzinho atrasado e tranqüilo bem ao lado de uma das mais agitadas correntes da vida de Londres. O número 131 era um de uma fila de residências, caixotes horizontais, respeitáveis e nada românticas. Quando nos aproximamos, vimos a cerca em frente à casa tomada por um grupo curioso. Holmes assobiou.

– Por Deus! É homicídio premeditado, no mínimo. Nada menos do que isso atrairia o garoto de recados de Londres. Há um ato de violência indicado nos ombros curvos e no pescoço esticado daquele sujeito. O que é isso, Watson? Os degraus do alto estão lavados e os outros, secos. Muitas pegadas, de qualquer maneira! Ora, ora, lá está Lestrade na janela da frente, e logo saberemos de tudo.

O policial nos recebeu com uma expressão bastante grave e nos conduziu a uma sala de estar, onde um senhor idoso, muito inquieto e agitado, vestido com um roupão de flanela, andava de um lado para o outro. Foi-nos apresentado como o dono da casa, sr. Horace Harker, do Sindicato Central da Imprensa.

– É o caso do busto de Napoleão de novo – disse Lestrade. – Parecia interessado ontem à noite, sr. Holmes, então pensei que gostaria de estar presente agora que o caso assumiu um aspecto muito mais grave.

– O que aconteceu então?

– Um assassinato. Sr. Harker, poderia contar a estes cavalheiros exatamente o que ocorreu?

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