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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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Mal chegamos em North Walsham e mencionamos o nome de nosso destino, o chefe de estação correu até nós. “Suponho que sejam detetives de Londres?”, disse ele.

Um olhar de irritação passou pelo rosto de Holmes.

– O que o faz pensar assim?

– Porque o inspetor Martin, de Norwich, acabou de passar por aqui. Mas talvez os senhores sejam cirurgiões. Ela não está morta – ou não estava, segundo os últimos relatos. Talvez ainda tenham tempo de salvá-la, embora seja para a forca.

A expressão de Holmes mostrava ansiedade.

– Nós estamos indo para Riding Thorpe Manor – disse ele –, mas não ouvimos nada sobre o que aconteceu lá.

– Algo terrível – disse o chefe da estação. – Foram baleados, o sr. Hilton Cubitt e a esposa. Ela atirou nele e depois em si mesma – é o que dizem os empregados. Ele está morto e ela, desenganada. Meu Deus, meu Deus, uma das famílias mais antigas do condado de Norfolk e uma das mais honradas.

Sem uma palavra, Holmes correu até a carruagem, e durante os sete longos quilômetros do trajeto não abriu a boca. Raras vezes o vi tão desconsolado. Esteve inquieto durante toda a viagem, e notei que folheara os jornais da manhã com uma atenção ansiosa, mas agora a repentina concretização de seus piores temores deixou-o numa melancolia confusa. Recostou-se no assento, perdido em especulações tristes. Ainda assim, havia muita coisa à nossa volta que nos interessasse, pois passávamos pelo campo, tão singular quanto qualquer outro na Inglaterra, onde alguns chalés representam a população de hoje em dia, enquanto, por todo lado, enormes igrejas de torres quadradas levam-se na paisagem verde e contam a glória e a prosperidade da velha East Anglia. Por fim surgiu a orla violeta do mar do Norte por sobre a borda verde da costa de Norfolk, e o condutor apontou com seu chicote para dois telhados de tijolos e madeira que se projetavam de um bosque. “Aquela é Riding Thorpe Manor”, ele disse.

Ao passarmos pela entrada de colunas, observei diante dela, ao lado da quadra de tênis, o galpão de ferramentas preto e o relógio de sol com o pedestal, com os quais tínhamos associações tão estranhas. Um homem baixo e ativo, com um bigode enorme, acabara de descer de uma carruagem. Apresentou-se como o inspetor Martin, da polícia de Norfolk, e ficou muito surpreso quando ouviu o nome do meu amigo.

– Oh, sr. Holmes, o crime só foi cometido às três horas. Como pôde ouvir falar dele em Londres e estar no local ao mesmo tempo que eu?

– Eu o previ. Vim com a esperança de evitá-lo.

– Então deve ter um indício importante que ignoramos, pois dizia-se que eles eram um casal muito unido.

– Só tenho o indício dos homenzinhos dançantes – disse Holmes. – Explicarei tudo a você depois. Enquanto isso, já que é tarde demais para evitar a tragédia, estou ansioso para usar o conhecimento que possuo, a fim de que a justiça seja feita. Vai me incluir na sua investigação ou prefere que eu aja de modo independente?

– Ficaria orgulhoso de saber que estamos trabalhando juntos, sr. Holmes – disse o inspetor com sinceridade.

– Nesse caso, gostaria de ouvir os depoimentos e examinar o local sem demora.

O inspetor Martin teve o bom senso de deixar meu amigo fazer as coisas a seu modo, contentando-se em anotar cuidadosamente os resultados. O cirurgião local, um homem idoso, de cabelos brancos, acabara de vir do quarto da sra. Hilton Cubitt, e nos informou que seus ferimentos eram graves mas não necessariamente fatais. A bala atravessara a região frontal do cérebro, e ela provavelmente levaria algum tempo até recobrar a consciência. Quanto a saber se ela fora baleada ou atirara em si mesma, ele não se arriscava a dar nenhuma opinião definitiva. Certamente a bala fora disparada de muito perto. Encontramos uma única pistola no quarto, da qual dois cartuchos tinham sido esvaziados. O sr. Hilton Cubitt fora atingido no coração. Também era possível que tivesse atirado nela e depois em si mesmo, ou que ela fora a criminosa, pois o revólver estava no chão, entre os dois.

– Ele foi retirado? – perguntou Holmes.

– Não retiramos nada, a não ser a senhora. Não podíamos deixá-la caída no chão, ferida.

– Há quanto tempo está aqui, doutor?

– Desde as quatro horas.

– Mais alguém?

– Sim, o guarda aqui.

– E tocou em alguma coisa?

– Nada.

– Agiu com muita discrição. Quem o chamou?

– A criada, Saunders.

– Foi ela quem deu o alarme?

– Ela e a sra. King, a cozinheira.

– Onde estão agora?

– Na cozinha, eu acho.

– Pois então é melhor ouvir logo a história delas.

O velho saguão, com painéis de carvalho e janelas altas, fora transformado em corte de investigação. Holmes sentou-se numa cadeira grande e antiga, seus olhos inexoráveis brilhando no rosto ansioso. Podia ler neles o firme propósito de dedicar sua vida a esta questão, até que o cliente, que ele não conseguira salvar, fosse vingado. O elegante inspetor Martin, o velho médico do campo, de cabelos brancos, eu e um robusto policial da vila completávamos aquele grupo estranho.

As duas mulheres contaram sua história de modo bem claro. Foram acordadas pelo som de uma explosão, seguido por outro, um minuto depois. Desceram juntas a escada. A porta do estúdio estava aberta e uma vela estava acesa sobre a mesa. O patrão estava caído no centro do quarto, com o rosto para o chão. Estava morto. Perto da janela sua esposa estava agachada, com a cabeça apoiada na parede. Estava horrivelmente ferida, com o lado do rosto vermelho de sangue. Respirava pesadamente, mas não era capaz de dizer nada. O corredor, bem como o quarto, estava cheio de fumaça e com cheiro de pólvora. Certamente a janela ficara fechada e trancada por dentro. As duas mulheres eram positivas sobre este ponto. Imediatamente foram chamar o médico e o policial. Depois, com a ajuda do criado e do rapaz da estrebaria, levaram a patroa ferida para o quarto. Ela e o marido tinham usado a cama. Ela estava vestida – ele estava com o roupão sobre o pijama. Nada fora mexido no estúdio. Até onde sabiam, nunca houve uma discussão entre marido e mulher. Sempre os consideraram um casal muito unido.

Estes eram os pontos principais do depoimento das empregadas. Em resposta ao inspetor Martin, afirmaram que todas as portas estavam trancadas por dentro e que ninguém poderia ter fugido da casa. Em resposta a Holmes, ambas se recordaram do cheiro da pólvora, desde o momento em que saíram de seus quartos, no último andar. “Recomendo a sua atenção especial para este fato”, disse Holmes ao seu colega de profissão. “E agora acho que estamos em condições de fazer um exame completo no quarto.”

O estúdio mostrou ser um aposento pequeno, repleto de livros em três lados, e com uma escrivaninha de frente para uma janela comum, que dava para o jardim. Demos atenção primeiro ao corpo do infeliz proprietário de terras, que estava estendido no chão do quarto. Sua roupa desarrumada mostrava que tinha sido acordado repentinamente. A bala fora disparada contra ele de frente e permanecera em seu corpo depois de penetrar no coração. Sua morte certamente foi instantânea e indolor. Não havia marcas de pólvora no seu roupão nem nas mãos. De acordo com o médico, a mulher tinha manchas no rosto, mas nenhuma na mão.

– A ausência destas últimas não significa nada, ao passo que sua presença significa tudo – disse Holmes. – A menos que a pólvora de um cartucho mal colocado espirre para trás, uma pessoa pode dar vários tiros sem deixar traço. Sugeriria que o corpo do sr. Cubitt fosse removido agora. Suponho, doutor, que ainda não recuperou a bala que feriu a senhora.

– Será necessária uma operação difícil para que isso possa ser feito. Mas ainda há quatro cartuchos no revólver. Dois foram disparados e dois ferimentos foram causados, de modo que cada bala pode ser responsável por eles.

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