Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
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Procurando no meu caderno, descobri que foi num sábado, dia 23 de abril de 1895, que ouvimos falar pela primeira vez da srta. Violet Smith. Sua visita foi, lembro-me, extremamente inconveniente para Holmes, porque naquele momento ele estava imerso num problema complicado e obscuro, relativo à estranha perseguição que John Vincent Harden, o conhecido milionário do tabaco, vinha sofrendo. Meu amigo, que amava acima de tudo a precisão e a concentração de pensamento, se ressentia de tudo que distraísse sua atenção do assunto em que estivesse envolvido. Mesmo assim, sem a aspereza que era estranha a seu temperamento, era impossível recusar-se a ouvir a história da bela jovem, alta, graciosa e majestosa, que se apresentou na Baker Street tarde da noite e implorou sua ajuda e conselho. Foi inútil dizer que seu tempo já estava todo tomado, pois a jovem viera determinada a contar sua história, e era evidente que nenhum tipo de pressão a faria sair da sala antes que o fizesse. Com ar resignado e um sorriso um tanto cansado, Holmes pediu à bela intrusa que se sentasse e nos contasse o que a estava afligindo.
– Pelo menos não pode ser sua saúde – disse, enquanto seus olhos penetrantes a examinavam –; ciclista tão ardorosa, deve estar cheia de energia.
Ela olhou surpresa para os próprios pés, e eu notei um ligeiro arranhado do lado da sola, causado pela fricção da ponta do pedal.
– Sim, eu ando muito de bicicleta, sr. Holmes, e isto tem algo a ver com a minha visita de hoje.
Meu amigo pegou a mão nua da dama e a examinou com tanta atenção e tão pouca emoção quanto um cientista demonstraria em relação a um espécime.
– Vai me desculpar, tenho certeza. É o meu negócio – disse, enquanto a soltava. – Quase caí no erro de supor que você praticava datilografia. É claro, é óbvio que é música. Você notou as pontas dos dedos espatuladas, Watson, comuns às duas profissões? Mas existe uma espiritualidade no rosto – ela gentilmente o virou para a luz – que uma datilógrafa não tem. Esta dama é uma musicista.
– Sim, sr. Holmes, eu ensino música.
– No campo, presumo, pela sua compleição.
– Sim, senhor, perto de Farnham, nos limites de Surrey.
– Uma bela região, e cheia das associações mais interessantes. Você deve se lembrar, Watson, foi lá perto que pegamos Archie Stamford, o falsificador. Agora, srta. Violet, o que lhe aconteceu perto de Farnham, nos limites de Surrey?
A jovem, com grande clareza e calma, fez o seguinte relato:
– Meu pai já morreu, sr. Holmes. Era James Smith, que regia a orquestra no velho Teatro Imperial. Minha mãe e eu ficamos sem um parente no mundo, a não ser um tio, Ralph Smith, que foi para a África há 25 anos e desde então nunca mais ouvimos falar dele. Quando meu pai morreu, ficamos muito pobres, mas um dia nos disseram que havia um anúncio no Times pedindo o nosso endereço. Pode imaginar como ficamos alegres, pois pensamos que alguém nos deixara uma fortuna. Fomos procurar o advogado, cujo nome estava no jornal. Lá encontramos dois cavalheiros, o sr. Carruthers e o sr. Woodley, que voltavam de uma visita à África do Sul. Disseram que o meu tio era amigo deles, que ele falecera alguns meses antes na maior miséria, em Joanesburgo, e que lhes solicitara, como último pedido, que procurassem seus parentes para ver se não passavam necessidades. Achamos estranho que o tio Ralph, que não ligara para nós enquanto estava vivo, se preocupasse conosco depois de morto, mas o sr. Carruthers explicou que o motivo era que meu tio acabara de saber da morte de seu irmão, e se sentiu responsável pelo nosso destino.
– Com licença – disse Holmes. – Quando foi essa entrevista?
– Em dezembro, quatro meses atrás.
– Por favor, prossiga.
– O sr. Woodley me pareceu ser uma pessoa abominável. Estava sempre olhando para mim – um homem ordinário, de barba vermelha e rosto gordo, com o cabelo grudado nos dois lados da testa. Achei-o detestável – e tenho certeza de que Cyril não gostaria que eu conhecesse uma pessoa assim.
– Oh, Cyril é o nome dele! – disse Holmes, sorrindo.
A jovem ficou vermelha e riu.
– Sim, sr. Holmes, Cyril Morton, um engenheiro eletricista, e esperamos nos casar no fim do verão. Meu Deus, como consegui começar a falar sobre ele? O que quis dizer é que o sr. Woodley era absolutamente odioso, mas o sr. Carruthers, que era um homem muito mais velho, era mais agradável. Era uma pessoa silenciosa, pálida e sem barba, tinha maneiras polidas e um sorriso amável. Perguntou em que situação tínhamos sido deixadas e, ao saber que éramos pobres, sugeriu que eu fosse dar aulas de música para sua filha única, de 10 anos. Eu disse que não gostaria de deixar minha mãe, e ele sugeriu então que eu fosse para casa todo fim de semana, e me ofereceu 100 libras por ano, o que certamente era um esplêndido pagamento. Então acabei aceitando, e fui para a Granja Chiltern, a cerca de 10 quilômetros de Farnham. O sr. Carruthers era viúvo, mas empregara uma governanta, uma pessoa idosa muito respeitável, chamada sra. Dixon, para tomar conta de sua casa. A criança era um amor e tudo parecia promissor. O sr. Carruthers era muito gentil e musical, e passamos noites muito agradáveis juntos. Todo fim de semana eu ia para casa, ficar com minha mãe na cidade.
– A primeira brecha na minha felicidade foi a chegada do sr. Woodley, do bigode vermelho. Veio para uma visita de uma semana, e oh! pareceram três meses para mim. Era uma pessoa desagradável – arrogante com todos, mas para mim infinitamente pior. Apaixonou-se por mim, e manifestava o seu amor de modo abominável, vangloriava-se de sua riqueza, disse que se me casasse com ele, poderia ter os melhores diamantes de Londres, e finalmente, quando viu que eu não teria nada com ele, agarrou-me um dia depois do jantar – ele era terrivelmente forte – e jurou que não me deixaria sair até que o beijasse. O sr. Carruthers entrou e o afastou de mim, e ele então agrediu seu anfitrião, dando-lhe um soco e cortando o seu rosto. Esse foi o final da visita dele, como pode imaginar. O sr. Carruthers me pediu desculpas no dia seguinte e me garantiu que eu não ficaria exposta novamente a um insulto desses. Desde então não vi mais o sr. Woodley.
– E agora, sr. Holmes, cheguei afinal ao motivo especial que me fez vir pedir o seu conselho hoje. Deve saber que todo sábado de manhã vou de bicicleta até a estação Farnham, para pegar o trem das 12:22h para a cidade. A estrada da Granja Chiltern é muito deserta, principalmente num certo ponto, pois fica a mais de 1 quilômetro entre Charlington Heath, de um lado, e os bosques que circundam Charlington Hall, de outro. Não existe um trecho de estrada mais ermo, e é muito raro encontrar-se pelo menos uma carroça ou um camponês, até que se chegue à estrada principal, perto de Crooksbury Hill. Duas semanas atrás eu estava passando por esse lugar, quando olhei por acaso por cima do ombro e vi, a cerca de 200 metros atrás de mim, um homem também de bicicleta. Parecia ser de meia-idade, com uma barba curta e escura. Antes de chegar a Farnham, olhei para trás, mas o homem tinha sumido, e não pensei mais nisso. Mas pode imaginar como fiquei surpresa, sr. Holmes, quando, na minha volta na segunda-feira, vi o mesmo homem no mesmo trecho da estrada. Meu assombro aumentou quando o incidente ocorreu de novo, exatamente como antes, no sábado e na segunda-feira seguintes. Ele sempre mantinha distância e não me molestava de modo nenhum, mas ainda assim era muito estranho. Comentei o fato com o sr. Carruthers, que pareceu interessado e me disse que havia pedido um cavalo e uma carruagem, para que no futuro eu não tivesse de passar sozinha por essas estradas desertas.
– O cavalo e a carruagem deviam ter vindo esta semana, mas por algum motivo não foram entregues, e novamente tive de pedalar até a estação. Isso foi esta manhã. Pode pensar que olhei em volta quando cheguei a Charlington Heath, e lá, com certeza, estava o homem, exatamente como estivera nas duas últimas semanas. Ficava sempre tão longe de mim que não podia ver direito seu rosto, mas era com certeza alguém que eu não conhecia. Estava vestido com um terno escuro e um boné de pano. A única coisa em seu rosto que podia ver claramente era a sua barba escura. Hoje não fiquei alarmada, mas cheia de curiosidade, e determinada a descobrir quem ele era e o que queria. Desacelerei minha bicicleta, mas ele também o fez. Então parei de repente, mas ele também parou. Resolvi preparar uma armadilha para ele. Há uma curva fechada na estrada, e pedalei muito depressa nela, e então parei e esperei. Esperava que ele fizesse a curva e passasse por mim antes de conseguir parar. Mas ele não apareceu. Voltei e olhei pela curva. Podia ver 1 quilômetro de estrada, mas ele não estava ali. Para tornar a coisa ainda mais incrível, não existe nenhuma estrada secundária neste ponto, por onde ele pudesse ter entrado.