A Herdeira [em Português]
- Автор: Шелдон Сидни
- Год: 1985
- Язык: португальский
- Жанр: Современная русская и зарубежная проза
Электронная книга - «A Herdeira [em Português]». Краткое содержание книги:
- Um tio meu, que possuí um grande vinhedo na Borgonha, acaba de morrer. O vinhedo vai ser posto à venda. São quatro mil hectares plantados de uvas de appellation d'origine. Eu tenho preferência porque sou da família, mas não tenho dinheiro bastante para fazer o negócio sozinho. Se quiser fazer sociedade comigo, dobraremos o capital empregado dentro de um ano. Ao menos, você poderia dar uma olhada. Cada um de nós entrará com dois milhões de francos - disse Duchamps. - Dentro de um ano, teremos quatro milhões cada um.
Quatro milhões de francos! Seria a possibilidade de fuga, a liberdade! Iria para algum lugar onde Hélsne nunca poderia encontrá-lo.
- Vou pensar nisso - disse Charles a seu amigo.
E de fato pensou. Dia e noite. Era a maior chance de sua vida.. Mas como? Seria impossível contrair algum empréstimo sem que Hélsne tomasse imediatamente conhecimento disso. Tudo estava no nome dela - a casa, os quadros, os carros, As jóias… os belos ornamentos que ela guardava em um cofre, no quarto. Pouco a pouco, a idéia tomou corpo em seu cérebro. Se ele pudesse pegar as jóias, algumas de cada vez, substituiria as peças por imitações e tomaria dinheiro emprestado sob a garantia das verdadeiras jóias. Depois, quando ganhasse nos vinhedos o dinheiro esperado, trataria de repor as jóias no cofre e teria dinheiro suficiente para desaparecer para sempre.
Telefonou para René Duchamps e disse com o coração a palpitar de emoção:
- Resolvi fazer sociedade com você.
A primeira parte do plano aterrorizou Charles. Tinha de Abrir o cofre e roubar as jóias de Hélsne. A antecipação da coisa terrível que ele ia fazer provocou tamanho nervosismo em Charles que ele mal conseguia trabalhar. Passava os dias como um autômato, sem ver nem ouvir nada do que acontecia à sua volta. Todas as vezes que via Hélsne, ficava encharcado de suor. Quase sempre as mãos lhe tremiam. Hélsne ficou preocupada com o estado dele como ficaria com um cachorro de estimação que aparecesse doente. Mandou chamar um médico para examinar Charles, mas ele não encontrou nada de anormal.
- Um pouco de tensão, talvez. Tudo deve se normalizar com dois dias de repouso.
Hélsne olhou para Charles estendido na cama e disse:
- Muito obrigada, doutor. No momento em que o médico saiu do quarto, ela começou a se despir.
- Eu… eu não estou me sentindo muito bem - murmurou Charles.
- Mas eu estou - respondeu Hélsne.
Charles nunca a odiara tanto.
A oportunidade de Charles chegou na semana seguinte. Hélsne ia a Garmisch- Partenkirchen esquiar com um grupo de amigos e resolveu deixar Charles em Paris.
- Quero que passe todas as noites em casa - disse Hélsne. - Vou lhe telefonar, ouviu?
Charles viu-a partir no seu Jensen vermelho e, no momento em que ela desapareceu, correu para o quarto onde estava o cofre. Tinha-a visto abri-lo muitas vezes e sabia quase todo o segredo.
Levou uma hora para descobrir o resto. Com os dedos trêmulos, abriu a porta do cofre. Ali, nos estojos forrados de veludo, cintilantes como estrelas em miniatura, estavam os instrumentos da sua libertação.
Havia entrado em empreendimentos com um joalheiro chamado Pierre Richaud, um mestre em imitação de jóias. Nervoso, Charles começou a longa explicação acerca dos motivos pelos quais ia mandar fazer as imitações, mas Richaud sorriu e disse:
- Monsier, estou fazendo imitações para todo mundo. Ninguém em seu juízo perfeito sai às ruas com jóias verdadeiras nos dias que correm.
Charles lhe entregava uma peça de cada vez e, quando a imitação ficava pronta, ele a deixava no cofre no lugar da jóia. Empenhava então a jóia verdadeira no Crédit Municipal, a instituição de penhores do Estado. A operação demorou mais do que o esperado. Charles só podia abrir o cofre quando Hélsne não estava em casa, e houve demoras imprevistas no trabalho de copiar as peças. Mas chegou afinal o dia em que Charles pôde comunicar a René Duchamps:
- Amanhã terei todo o dinheiro necessário para a nossa sociedade.
Havia conseguido o que queria. Era proprietário da metade do vinhedo, e Hélsne não tinha a menor suspeita do que ele havia feito. Começou a ler em segredo tudo o que podia sobre vinhas e vinhos. Por que não? Não passara a ser um vinhateiro? Ficou sabendo das diferentes uvas, da cabernet sauvignon, a principal uva usada, mas outras erram plantadas e extraídas ao lado dela, com a gros cabernet, a merlot, a malbec e a petit verdot.
Uma das gavetas de Charles no escritório vivia cheia de brochuras sobre a fabricação de vinhos. Ficou sabendo de fermentação, podas e enxertos. Soube também que o consumo mundial de vinhos continuava a aumentar. Tinha freqüentes encontros com o sócio.
- A coisa vai ser ainda melhor do que eu pensava - disse René. -Os preços dos vinhos estão subindo vertiginosamente. Devemos ganhar uns trezentos mil francos por tonneau logo nas primeiras vindimas.
Mais do que Charles havia sonhado! As uvas representavam ouro, e Charles começou a procurar folhetos de turismo sobre as ilhas do Pacífico, a Venezuela e o Brasil.
Até os nomes dos lugares tinham para ele um encanto particular. O único problema era que havia poucos lugares no mundo onde não houvesse escritórios da Roffe and Sons e onde Hélsne não pudesse descobri-lo. E, se ela o descobrisse, iria matá-lo. A não ser que ele a matasse antes. Era uma de suas fantasias prediletas.
Assassinou Hélsne repetidamente, de mil maneiras deliciosas e reconfortantes.
Começou a gozar morbidamente os desmandos de Hélsne, pensando sempre que ela o forçara a fazer coisas inconfessáveis: "Vou desaparecer daqui a pouco, imunda. Ficarei rico graças ao seu dinheiro, e você nada poderá fazer". E ela dava ordens: "Mais depressa!", ou: "Não pare agora!", enquanto ele obedecia mansamente e sorria, satisfeito.
Charles aprendeu também que, na cultura das uvas, os meses mais importantes eram os da primavera e do verão, pois os bagos eram colhidos em setembro e, para que apresentassem uma boa qualidade, era imprescindível uma temporada bem equilibrada de sol e chuva. O sol em excesso queimaria o gosto da uva, ao passo que o excesso de chuva o diluiria. Junho começou esplendidamente. Charles consultava o Serviço de Meteorologia todos os dias e, mais tarde, duas vezes por dia. Estava numa febre de impaciência, a apenas algumas semanas da realização dos seus sonhos.
Decidira-se pela baía de Montego, pois a Roffe and Sons não tinha escritório na Jamaica. Seria fácil desaparecer ali. Nem se aproximaria de Round Hill ou de Ocho Ríos, onde algum amigo de Hélsne poderia reconhecê-lo.
Compraria uma casinha nas montanhas. A vida era barata na ilha. Poderia ter até criados e comprar boa comida em sua vida modesta. Por isso, naqueles primeiros dias de Junho, Charles Mantel foi um homem muito feliz. A vida que estava levando era uma verdadeira ignomia, mas ele não estava vivendo no presente. Vivia já no futuro, numa ilha tropical, banhada de sol e batida pelos ventos do Caribe.
O tempo em junho parecia melhorar a cada dia. Havia uma mistura bem dosada de sol e chuva, excelente para as uvas ainda tenras. E, com as uvas, crescia a fortuna de Charles. Mas, no dia 15 de junho, começou a cair um chuvisco persistente na região da Borgonha. Depois, passou a chover mais forte. Choveu dias seguidos, semanas seguidas, até que Charles não teve mais coragem de olhar os boletins do tempo. René Duchamps telefonou:
- Se a chuva parar até meados de julho, a safra ainda poderá ser salva. Julho foi um dos meses mais chuvosos na história e nos registros de Serviço Meteorológico da França. A 1º de Agosto, Charles Martel havia perdido todo o dinheiro que havia roubado. Nunca havia sentido tanto medo em toda a sua vida.
- Vamos tomar um avião para a Argentina no mês que vem - disse Hélsne a Charles. - Vou participar de uma corrida de automóveis. Ele já a vira correr pela pista no Ferrari, e não pôde deixar de pensar: "Se ela sofrer um desastre, eu ficarei livre!" Mas ela era Hélsne Roffe-Martel.