A Fúria dos Reis
- Автор: Мартин Джордж Рэймонд Ричард
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Год: Saida de Emerg
- Жанр: Прочая древняя литература
Электронная книга - «A Fúria dos Reis». Краткое содержание книги:
Arya também os ouvira. Estava dormindo nos galhos de um olmo, mas os uivos tinham-na acordado. Tinha ficado acordada, sentada, durante uma hora, escutando-os, com um formigamento percorrendo sua espinha.
– E nem sequer nos deixa fazer uma fogueira para mantê-los afastados – Torta Quente reclamou. – Não está certo nos abandonar aos lobos.
– Ninguém os está abandonando – Gendry respondeu, descontente. – Lommy tem a sua lança para o caso de os lobos se aproximarem, e você estará com ele. Vamos só ver, só isso, vamos voltar.
– Seja quem for que está lá, deveríamos nos render – Lommy choramingou – Preciso de uma poção qualquer para a minha perna, dói muito.
– Se acharmos alguma poção para pernas, vamos trazê-la – Gendry prometeu. – Arry, vamos, quero me aproximar antes que o sol baixe. Torta Quente, mantenha a Doninha aqui, não quero que nos siga.
– Da última vez ela me deu um chute.
– Eu é que lhe darei um chute se não a mantiver aqui.
Sem esperar resposta, Gendry colocou seu elmo de aço e se afastou.
Arya teve de correr para acompanhá-lo. Ele era cinco anos mais velho, e trinta centímetros mais alto do que ela, e também tinha pernas longas. Durante algum tempo, não disse nada, limitou-se a abrir caminho por entre as árvores com uma expressão zangada no rosto, fazendo barulho demais. Mas, por fim, parou e disse:
– Acho que Lommy vai morrer.
Arya não ficou surpresa. Kurz tinha morrido do seu ferimento, e ele era muito mais forte do que Lommy. Sempre que era sua vez de ajudar a transportá-lo, Arya via como sua pele estava quente e sentia o fedor que a perna exalava.
– Talvez encontremos um meistre.
– Só se encontram meistres em castelos e, mesmo se encontrássemos um, não sujaria as mãos em alguém como Lommy – Gendry esquivou-se de um galho baixo.
– Isso não é verdade – Arya estava certa de que o Meistre Luwin teria ajudado qualquer pessoa que o procurasse.
– Ele vai morrer e, quanto mais depressa isso acontecer, melhor para o resto de nós. Devíamos abandoná-lo e pronto, como ele mesmo diz. Se fosse eu ou você quem estivesse ferido, bem sabe que ele nos abandonaria – desceram uma fenda profunda e subiram do outro lado, usando raízes como corrimãos. – Estou farto de carregá-lo e também de toda aquela conversa sobre rendição. Se ele pudesse ficar em pé, enfiava seus dentes para dentro. Lommy não serve para ninguém. E aquela menina chorona também não.
– Deixe a Doninha em paz, ela está só assustada e com fome, é isso.
Arya olhou para trás, pela primeira vez a garota não os estava seguindo. Torta Quente devia tê-la agarrado, como Gendry lhe tinha dito para fazer.
– Não serve para nada – Gendry repetiu teimosamente. – Ela, Torta Quente e Lommy estão nos atrasando e ainda vão fazer com que nos matem. Você é o único membro do grupo que vale alguma coisa. Mesmo sendo uma menina.
Arya congelou.
– Não sou uma menina!
– É sim. Acha que sou tão estúpido quanto eles?
– Não, é mais. A Patrulha da Noite não aceita meninas, todo mundo sabe disso.
– É verdade. Não sei por que Yoren a trouxe, mas deve ter tido algum motivo. Continua sendo uma menina.
– Não sou!
– Então tira o pinto pra fora e dá uma mijada. Vai lá.
– Não tenho vontade de mijar. Se tivesse, podia.
– Mentirosa. Não pode tirar o pinto porque não tem um. Nunca tinha reparado quando éramos trinta, mas você vai sempre para a floresta quando quer urinar. Não vejo Torta Quente fazer isso, e nem eu faço. Se não é uma menina, deve ser um eunuco.
– Eunuco é você.
– Sabe muito bem que não sou – Gendry sorriu. – Quer que tire o pau para fora para provar? Não tenho nada a esconder.
– Tem, sim – Arya exclamou, desesperada para sair daquela conversa sobre o pinto que não tinha. – Aqueles homens de manto dourado o procuravam na estalagem e não nos quer dizer por quê.
– Bem que gostaria de saber. Acho que Yoren sabia, mas nunca me disse. Mas por que você achou que eles estavam à sua procura?
Arya mordeu o lábio. Lembrava-se do que Yoren lhe dissera no dia em que cortou seu cabelo. Desses aí, metade entregava você à rainha num piscar de olhos em troca de um perdão e, se der, umas moedas de prata. A outra metade fazia o mesmo, só que te estuprava primeiro. Só Gendry era diferente, e a rainha também o procurava.
– Eu conto se você me contar – ela respondeu, com cautela.
– Contava se soubesse, Arry… É assim mesmo que se chama, ou tem algum nome de menina?
Arya fitou a raiz nodosa junto aos seus pés. Compreendeu que o fingimento tinha chegado ao fim. Gendry sabia, e ela nada tinha dentro das calças que pudesse convencê-lo do contrário. Podia puxar a Agulha e matá-lo ali mesmo ou, então, confiar nele. Não tinha certeza de que conseguiria matá-lo, mesmo se tentasse; ele tinha sua própria espada e era muito mais forte. Tudo o que restava era a verdade.
– Lommy e Torta Quente não podem saber – ela pediu.
– Não saberão – ele jurou. – Por mim, não saberão.
– Arya – ela o encarou. – Meu nome é Arya. Da Casa Stark.
– Da Casa… – Gendry precisou de um momento antes de falar: – A Mão do Rei se chamava Stark. Aquele a quem mataram por traição.
– Nunca foi um traidor. Era meu pai.
Os olhos de Gendry esbugalharam-se.
– Então por isso é que você pensou…
Ela confirmou com a cabeça.
– Yoren estava me levando para casa, para Winterfell.
– Eu… Então, é nobre, uma… vai ser uma senhora…
Arya olhou sua roupa esfarrapada e pés descalços, rachados e cheios de calos. Viu a sujeira sob as unhas, as crostas nos cotovelos, os arranhões nas mãos. Septã Mordane nem sequer me reconheceria, aposto. Sansa talvez reconhecesse, mas fingiria que não.
– Minha mãe é uma senhora e minha irmã também, mas eu nunca fui.
– Foi, sim. Era filha de um senhor e viveu num castelo, não foi? E você… que os deuses sejam bons, eu nunca… – de repente Gendry pareceu incerto, quase com medo. – Toda aquela conversa sobre pintos, nunca devia ter dito aquilo. E andei mijando na sua frente e tudo. Eu… lhe peço perdão, senhora.
– Para com isso! – Arya ralhou com ele. Estaria caçoando dela?
– Eu conheço as cortesias, senhora – Gendry disse, teimoso como sempre. – Sempre que moças nobres vinham à loja com os pais, meu mestre dizia que eu devia dobrar o joelho, só falar quando falassem comigo e chamá-las de senhora.
– Se começar a me chamar de senhora, até Torta Quente vai reparar. E é melhor também que continue mijando da mesma maneira.
– Como a senhora ordenar.
Arya bateu no peito de Gendry com ambas as mãos. Ele tropeçou numa pedra e sentou-se no chão com um baque.
– Que tipo de filha de lorde é você? – ele perguntou, rindo.
– Deste tipo – Arya chutou seu quadril, mas isso só fez com que ele risse mais. – Ria o quanto quiser. Eu vou ver quem está na aldeia – o sol já tinha se escondido atrás das árvores; o ocaso chegaria num instante. Pela primeira vez, foi Gendry quem teve de correr atrás dela. – Sente o cheiro? – ela perguntou.
Ele farejou o ar.
– Peixe podre?
– Você sabe que não é.
– É melhor termos cuidado. Vou dar a volta pelo oeste, para ver se encontro alguma estrada. Deve haver, porque você viu uma carroça. Você vai pela margem. Se precisar de ajuda, lata como um cachorro.
– Isso é estúpido. Se precisar de ajuda, gritarei socorro.
Arya afastou-se como uma flecha, os pés nus silenciosos no mato. Quando olhou para trás por sobre o ombro, ele a estava observando com aquele ar de dor no rosto que significava que estava pensando. Provavelmente está pensando que não devia deixar a senhora ir roubar comida. Arya sabia que Gendry passaria a ser estúpido.