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A Fúria dos Reis

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A Fúria dos Reis
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Gostaria que o caçador furtivo não tivesse morrido. Ele sabia mais sobre a floresta do que todos os outros juntos, mas tinha sido atingido por uma flecha no ombro enquanto puxava para dentro a escada da casa-torre. Tarber tinha feito nele um emplastro de lama e musgo do lago, e durante um dia ou dois Kurz jurou que o ferimento não era nada, embora a carne do seu pescoço estivesse se tornando escura, ao passo que fortes vergões vermelhos subiam pelo seu queixo e desciam para o peito. Então, uma manhã não conseguiu encontrar forças para se levantar e na seguinte estava morto.

Enterraram-no sob um montículo de pedras. Cutjack ficou com a sua espada e o berrante, enquanto Tarber se servia do arco, das botas e da faca. Levaram tudo quando partiram. A princípio, pensaram que os dois tinham ido caçar, que em breve voltariam com caça e os alimentariam a todos. Mas esperaram, e esperaram, até que, por fim, Gendry os obrigou a prosseguir. Talvez Tarber e Cutjack tivessem pensado que teriam melhores oportunidades sem um bando de órfãos para pastorear. E provavelmente teriam, mas isso não impedia que Arya os odiasse por terem partido.

Debaixo da árvore, Torta Quente latiu como um cão. Kurz lhes havia dito para usar sons de animais para se comunicar uns com os outros. Um velho truque de caçador furtivo, disse, mas morreu antes de poder lhes ensinar a fazer os sons direito. Os chamamentos de pássaro de Torta Quente eram horríveis. O cachorro era melhor, mas não muito.

Arya saltou do galho mais elevado para o inferior, com os braços abertos para manter o equilíbrio. Uma dançarina de água nunca cai. Ligeira, com os pés bem encaixados em volta do galho, deu alguns passos, deixou-se cair para um ramo maior e depois balançou com uma mão atrás da outra através do emaranhado de folhas até chegar ao tronco. A casca era áspera sob seus dedos das mãos e dos pés. Desceu com rapidez, saltando os últimos dois metros e rolando ao aterrissar.

Gendry a ajudou a se levantar.

– Esteve lá em cima muito tempo. O que viu?

– Uma aldeia de pescadores, um lugar pequeno, para norte, ao longo da costa. Contei vinte e seis telhados de sapé e um de ardósia. Vi parte de uma carroça. Tem alguém ali.

Ao ouvir sua voz, Doninha saiu dos arbustos. Lommy lhe dera aquele nome. Dizia que ela parecia uma doninha, o que não era verdade, mas não podiam continuar chamando-a de menina chorona depois de ela finalmente ter parado de chorar. Sua boca estava nojenta. Arya esperava que não tivesse andado outra vez comendo lama.

– Viu gente? – Gendry quis saber.

– Quase só os telhados – Arya respondeu –, mas saía fumaça de algumas chaminés e ouvi um cavalo – Doninha pôs os braços em volta da perna dela, agarrando-se bem. Agora fazia aquilo às vezes.

– Se há pessoas, há comida – disse, alto demais, Torta Quente. Gendry sempre lhe dizia para fazer menos barulho, mas não adiantava nada. – Pode ser que nos deem alguma.

– Também pode ser que nos matem – Gendry rebateu.

– Se nos rendermos, não – Torta Quente tinha um ar esperançoso na voz.

– Está parecendo Lommy.

Lommy Mãos-Verdes estava sentado, apoiado entre duas grossas raízes na base de um carvalho. Uma lança tinha penetrado sua panturrilha esquerda durante a luta no castro. Ao fim do dia seguinte, tinha de coxear sobre uma perna só, com um braço em volta de Gendry, e agora não conseguia sequer fazer isso. Tinham cortado galhos de árvores para lhe fazer uma liteira, mas levá-lo era trabalho lento e duro, e choramingava cada vez que davam um solavanco.

– Temos de nos render – Lommy insistiu. – Era isso o que Yoren devia ter feito. Devia ter aberto os portões, como eles disseram.

Arya estava farta de ouvir Lommy dizer que Yoren devia ter se rendido. Era só disso que falava enquanto o transportavam; disso, da perna e da barriga vazia.

Torta Quente concordou.

– Eles disseram a Yoren para abrir os portões, disseram-lhe em nome do rei. A culpa foi daquele velho fedorento. Se tivesse se rendido, tinham-nos deixado em paz.

Gendry franziu o cenho.

– Os cavaleiros e fidalgos tomam-se uns aos outros como cativos e pagam resgates, mas não se importam se gente como nós se rende ou não – virou-se para Arya: – O que mais viu?

– Se for uma aldeia de pescadores, aposto que nos venderiam peixe – Torta Quente falou antes dela. O lago estava cheio de peixe fresco, mas não tinham nada com que pudessem apanhá-los. Arya tentara usar as mãos, como tinha visto Koss fazer, mas os peixes eram mais rápidos do que pombos, e a água enganava seus olhos.

– Quanto a peixe não sei – Arya deu um puxão no cabelo emaranhado da Doninha, pensando que talvez fosse melhor cortá-lo. – Há corvos perto da água. Tem alguma coisa morta lá.

– Peixes que foram levados à margem – Torta Quente interveio de novo. – Se os corvos os comem, aposto que nós também poderíamos.

– Deveríamos apanhar alguns corvos, poderíamos comê-los – a sugestão veio de Lommy. – Poderíamos fazer uma fogueira e assá-los como se fossem galinhas.

Gendry parecia feroz quando se mostrava carrancudo. Sua barba tinha crescido, espessa e negra como sarça.

– Eu já disse, nada de fogos.

– Lommy tem fome – lamentou-se Torta Quente –, e eu também.

– Todos temos fome – Arya confirmou.

Você não tem – Lommy cuspiu no chão. – Bafo de minhoca.

Arya podia ter dado um pontapé na sua ferida.

– Eu disse que desenterrava minhocas também para você, se quisesse.

Lommy fez cara de nojo.

– Se não fosse a minha perna, caçava uns javalis para nós.

– Uns javalis? – ela zombou. – Para caçá-los, precisa de uma lança para javalis e de cães e cavalos e de homens para fazer o javali sair da toca – seu pai caçava javali no bosque de lobos com Robb e Jon. Uma vez até tinha levado Bran, mas Arya nunca, embora ela fosse mais velha. Septã Mordane dizia que a caça ao javali não era para senhoras, e sua mãe limitava-se a prometer que, quando fosse mais velha, poderia ter seu próprio falcão. Agora era mais velha, mas, se tivesse um falcão, iria comê-lo.

– O que você sabe sobre caçar javalis? – Torta Quente a desafiou.

– Mais do que você.

Gendry não estava disposto a ouvir:

– Calem-se os dois, tenho de pensar no que fazer – parecia sempre dolorido quando tentava pensar, como se algo o machucasse muito.

– Renda-se – Lommy insistiu.

– Falei para se calar com a rendição. Nem sequer sabemos quem está lá. Talvez possamos roubar alguma comida.

– Lommy podia roubar, não fosse a perna – Torta Quente falou. – Na cidade ele era ladrão.

– Um mau ladrão – Arya rebateu –, senão, não tinha sido pego.

Gendry olhou o sol de soslaio.

– O cair da noite será a melhor hora para ir até lá. Eu vou fazer um reconhecimento quando escurecer.

– Não, eu vou – Arya protestou. – Você é muito barulhento.

Gendry pôs sua expressão conhecida no rosto.

– Vamos os dois.

– Devia ir o Arry – Lommy sugeriu. – É mais furtivo do que você.

– Vamos os dois, já disse.

– Mas e se não voltarem? Torta Quente não pode me levar sozinho, sabem disso…

– E há lobos – Torta Quente acrescentou. – Ouvi-os ontem à noite quando estive no meu turno. Pareciam estar perto.

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