A Fúria dos Reis
- Автор: Мартин Джордж Рэймонд Ричард
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Год: Saida de Emerg
- Жанр: Прочая древняя литература
Электронная книга - «A Fúria dos Reis». Краткое содержание книги:
O cheiro ficou mais forte quando se aproximou da aldeia. Não era de peixe podre. Aquele fedor era mais fétido, mais repugnante. Franziu o nariz.
Onde as árvores começaram a rarear, usou a vegetação rasteira, deslizando de arbusto em arbusto, silenciosa como uma sombra. A cada poucos metros parava para escutar. Da terceira vez, ouviu cavalos e também uma voz de homem. E o cheiro piorava. Fedor de mortos é o que isto é. Já tinha sentido esse cheiro antes, com Yoren e os outros.
Uma densa moita de espinheiros crescia ao sul da aldeia. Quando a alcançou, as longas sombras do pôr do sol tinham começado a se desvanecer, e os vaga-lumes estavam surgindo. Conseguia ver telhados de sapé logo depois da cerca viva. Deslizou em volta até ver uma abertura e atravessou, rastejando sobre a barriga, mantendo-se bem escondida até ver de onde vinha o cheiro.
Junto às águas do Olho de Deus, que batiam levemente contra a margem, tinha sido erguido um longo cadafalso de madeira tosca e coisas que um dia tinham sido homens pendiam dela, com correntes nos pés, enquanto corvos bicavam sua carne e esvoaçavam de cadáver em cadáver. Para cada corvo havia cem moscas. Quando o vento soprava do lago, o mais próximo dos cadáveres retorcia-se ligeiramente nas suas correntes. Os corvos tinham comido a maior parte do seu rosto e outra coisa também tinha se alimentado dele, uma coisa muito maior. A garganta e o peito tinham sido rasgados; entranhas verdes e brilhantes e fitas de carne esfarrapada pendiam de onde a barriga tinha sido aberta. Um braço tinha sido arrancado pelo ombro; Arya viu os ossos alguns metros à sua frente, roídos e fendidos, completamente limpos de carne.
Forçou-se a olhar para o homem seguinte, e para o outro além dele, e para o outro depois desse, dizendo a si mesma que era dura como uma pedra. Todos cadáveres, tão brutalizados e apodrecidos, que precisou de um momento para perceber que tinham sido despidos antes de ser pendurados. Não pareciam pessoas nuas; quase nem pareciam pessoas. Os corvos tinham comido seus olhos e às vezes o rosto. Do sexto, na longa fila, nada restava, a não ser uma única perna, ainda presa às suas correntes, oscilando a cada brisa.
O medo corta mais profundamente do que as espadas. Os mortos não podiam lhe fazer mal, mas quem quer que os tivesse matado podia. Para além do cadafalso, dois homens com camisas de cota de malha apoiavam-se nas suas lanças em frente ao longo edifício baixo junto à água, aquele que tinha o telhado de ardósia. Um par de grandes mastros tinha sido enfiado no terreno lamacento, com bandeiras penduradas em cada um. Uma parecia vermelha e a outra mais clara, talvez branca ou amarela, mas ambas estavam murchas e, com o crepúsculo aprofundando-se, nem sequer podia ter certeza de que o vermelho fosse o carmim dos Lannister. Não preciso ver o leão, vejo todos os mortos. Quem mais poderia ser que não os Lannister?
Então, ouviu-se um grito.
Os dois lanceiros se viraram ao ouvi-lo, e um terceiro homem surgiu, empurrando um prisioneiro à sua frente. Estava ficando escuro demais para distinguir rostos, mas o prisioneiro usava um brilhante elmo de aço, e quando Arya viu os cornos, soube que era Gendry. Seu estúpido, estúpido, estúpido, ESTÚPIDO!, pensou. Se estivesse ali, o chutaria novamente.
Os guardas falavam em voz alta, mas ela estava afastada demais para distinguir as palavras, especialmente com os corvos tagarelando e esvoaçando bem mais perto. Um dos lanceiros arrancou o elmo da cabeça de Gendry e lhe fez uma pergunta, mas não deve ter gostado da resposta, porque bateu na sua cara com o cabo da lança e o atirou ao chão. Aquele que o capturara lhe deu um pontapé, enquanto o segundo lanceiro experimentava o elmo de cabeça de touro. Por fim, puseram-no em pé e o levaram para o armazém. Quando abriram as pesadas portas de madeira, um garotinho saltou como uma flecha, mas um dos guardas agarrou seu braço e o atirou de volta lá para dentro. Arya ouviu soluços vindos de dentro do edifício e depois um grito tão alto e cheio de dor que a fez morder o lábio.
Os guardas atiraram Gendry lá para dentro, com o menino, e trancaram as portas. Nesse momento, um sopro de vento veio suspirando do lago, e as bandeiras agitaram-se e se ergueram. Aquela que estava no mastro maior exibia o leão dourado, tal como Arya temera. Na outra, três formas negras e lisas corriam por um fundo amarelo como manteiga. Cães, pensou. Arya já vira aqueles cães antes. Mas onde?
Não importava. A única coisa importante era que tinham capturado Gendry. Mesmo que ele fosse teimoso e estúpido, tinha de tirá-lo dali. Gostaria de saber se aqueles homens sabiam que a rainha o procurava.
Um dos guardas tirou seu elmo e colocou o de Gendry. Ver o homem usando-o a irritou, mas sabia que nada podia fazer para impedi-lo. Pensou ouvir mais gritos vindos de dentro do armazém sem janelas, abafados pelas paredes de pedra, mas era difícil ter certeza.
Permaneceu ali durante tempo suficiente para ver a mudança da guarda e muito mais coisas. Homens chegaram e partiram. Levaram os cavalos para beber no riacho. Um grupo de caçadores voltou da floresta, trazendo a carcaça de uma corça pendurada em uma vara. Viu quando eles a limparam, eviscerando-a e acendendo uma fogueira do outro lado do riacho, e o cheiro da carne assando misturou-se de forma estranha com o fedor da decomposição. A barriga vazia de Arya ficou embrulhada, e sentiu-se prestes a vomitar. A perspectiva de alimento trouxe outros homens de dentro das casas, quase todos usando peças de cota de malha ou couro fervido. Quando a corça ficou pronta, os melhores pedaços foram levados para uma das casas.
Arya achou que a escuridão pudesse permitir que rastejasse para mais perto e libertasse Gendry, mas os guardas acenderam archotes na fogueira. Um escudeiro trouxe carne e pão aos dois que guardavam o armazém, e mais tarde outros dois homens juntaram-se a eles, e os quatro passaram um odre de vinho de mão em mão. Quando se esvaziou, os outros foram embora, mas os dois guardas ficaram, apoiados nas lanças.
Os braços e as pernas de Arya estavam rígidos quando ela finalmente se contorceu para sair de debaixo do espinheiro e penetrar na escuridão da floresta. Estava uma noite escura, com uma fina lasca de lua aparecendo e desaparecendo à medida que as nuvens passavam por ela. Silenciosa como uma sombra, disse a si mesma enquanto se deslocava por entre as árvores. Naquela escuridão não se atrevia a correr, com receio de tropeçar em alguma raiz invisível ou de se perder. À esquerda, o Olho de Deus batia calmamente contra as suas margens. À direita, um vento suspirava através dos galhos, e folhas restolhavam e agitavam-se. Ao longe, ouviu os uivos de lobos.
Lommy e Torta Quente quase se borraram quando ela saiu das árvores atrás deles.
– Silêncio – Arya lhes disse, pondo um braço em volta da Doninha quando a garotinha correu para ela.
Torta Quente a encarou com os olhos muito abertos.
– Pensávamos que tinham nos abandonado – ele tinha a espada curta na mão, aquela que Yoren havia roubado do homem de manto dourado. – Tive medo de que fosse um lobo.
– Onde está o Touro? – Lommy perguntou.
– Pegaram-no – Arya sussurrou. – Temos de tirá-lo de lá. Torta Quente, vai ter de ajudar. Esgueiramo-nos até lá e matamos os guardas, e depois eu abro a porta.
Torta Quente e Lommy trocaram um olhar.
– Quantos?
– Não consegui contar – ela admitiu. – Pelo menos vinte, mas só dois estão na porta.
Torta Quente pareceu prestes a chorar.
– Não podemos lutar contra vinte.
– Só vai ter de lutar com um, eu trato do outro. Tiramos Gendry de lá e fugimos.