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A Fúria dos Reis

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A Fúria dos Reis
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– O que devemos procurar, Khaleesi? – perguntou Jhogo.

– O que houver – respondeu Dany. – Procurem outras cidades, vivas ou mortas. Procurem caravanas e pessoas, rios, lagos e o grande mar salgado. Procurem saber até onde se estende este deserto à nossa frente e o que há do outro lado. Quando deixar este lugar, não pretendo partir às cegas de novo. Quero saber para onde vou e qual é a melhor maneira de chegar lá.

E eles foram, com os guizos nos cabelos tilintando suavemente, enquanto Dany se instalava com seu pequeno bando de sobreviventes no lugar que chamaram de Vaes Tolorro, a cidade dos ossos. Os dias seguiram-se às noites, e estas aos dias. As mulheres colhiam frutos dos jardins dos mortos. Os homens cuidavam das suas montarias e consertavam selas, estribos e sapatos. As crianças vagueavam pelas ruelas retorcidas e encontraram velhas moedas de bronze, pedaços de vidro roxo e canecas de pedra com alças esculpidas em forma de serpentes. Uma mulher foi picada por um escorpião vermelho, mas essa foi a única morte. Os cavalos começaram a ganhar alguma musculatura. Dany cuidou pessoalmente da ferida de Sor Jorah, e ela começou a sarar.

Rakharo foi o primeiro a voltar. Ao sul, o deserto vermelho estendia-se por uma longa distância, ele relatou, até terminar numa costa desolada junto à água venenosa. Entre aquele lugar e a costa havia apenas turbilhões de areia, rochedos polidos pelo vento e plantas eriçadas de espinhos pontudos. Tinha passado junto às ossadas de um dragão, jurou, tão imensas que havia conduzido o cavalo por entre as suas grandes maxilas negras. Além disso, nada viu.

Dany o encarregou, e mais uma dúzia dos seus homens mais fortes, de remover o pavimento da praça a fim de chegar à terra que tinha por baixo. Se a erva-do-diabo crescia entre as pedras, outras ervas poderiam crescer depois de se remover as pedras. Tinham bastantes poços, não faltava água. Se houvesse sementes, poderiam fazer a praça florescer.

Aggo retornou em seguida. O sudoeste era estéril e queimado, jurou. Havia encontrado as ruínas de mais duas cidades, menores do que Vaes Tolorro, mas, tirando isso, iguais. Uma era protegida por um anel de crânios montados em lanças de ferro enferrujadas, então ele não se atreveu a entrar, mas explorou a segunda tanto quanto pôde. Mostrou a Dany uma pulseira de ferro que encontrara, ornamentada com uma opala de fogo bruta do tamanho do seu polegar. Também havia rolos de pergaminho, mas estavam secos e desfazendo-se, por isso Aggo os deixou onde estavam.

Dany agradeceu-lhe e lhe disse para tratar do conserto dos portões. Se inimigos tinham atravessado o deserto para destruir aquelas cidades nos tempos antigos, podiam perfeitamente regressar.

– Se assim for, devemos estar preparados – ela declarou.

Jhogo ficou longe tanto tempo, que Dany temeu que tivesse se perdido, mas, por fim, quando já tinham quase desistido de esperar por ele, chegou a cavalo vindo do sudeste. Um dos guardas que Aggo havia colocado de sentinela nos portões foi o primeiro a vê-lo e soltou um grito, e Dany correu para as muralhas para ver com seus próprios olhos. Era verdade. Jhogo regressava, mas não vinha sozinho. Atrás dele, três estranhos vestidos de modo esquisito, montados em feias criaturas com corcundas, maiores do que qualquer cavalo.

Puxaram as rédeas diante dos portões da cidade e ergueram o olhar para contemplar Dany, na muralha acima deles.

– Sangue do meu sangue – chamou Jhogo. – Estive na grande cidade de Qarth e voltei com três homens que queriam vê-la com seus próprios olhos.

Dany fitou os estranhos.

– Aqui estou. Olhem, se é essa a sua vontade… Mas primeiro digam-me seus nomes.

O homem pálido com lábios azuis respondeu em um dothraki guturaclass="underline"

– Sou Pyat Pree, o grande mago.

O calvo com joias no nariz respondeu no valiriano das Cidades Livres:

– Sou Xaro Xhoan Daxos, dos Treze, um príncipe mercador de Qarth.

A mulher com a máscara laqueada de madeira falou no Idioma Comum dos Sete Reinos:

– Sou Quaithe da Sombra. Viemos em busca de dragões.

– Não procurem mais – Daenerys Targaryen respondeu. – Encontraram-nos.

Jon

Brancarbor, era como a aldeia se chamava nos mapas antigos de Sam. Jon não a achava grande coisa como aldeia. Quatro casas de um único cômodo em ruínas, feitas de pedra sem argamassa, rodeavam um curral vazio e um poço. As casas eram cobertas com grama, e as janelas, fechadas com esfarrapadas peças de couro cru. E, por cima, pairavam os galhos claros e as folhas vermelho-escuras de um represeiro monstruosamente grande.

Era a maior árvore que Jon já vira, com um tronco com quase dois metros e meio de largura, e galhos que se estendiam tanto, que a aldeia inteira descansava à sombra de sua copa. O tamanho não o perturbava tanto como o rosto… Especialmente a boca, que não era uma simples fenda esculpida, mas um buraco irregular suficientemente grande para engolir uma ovelha.

Mas aqueles ossos não são de ovelha. E aquilo nas cinzas não é um crânio de ovelha.

– Uma árvore velha – Mormont estava montado, franzindo o cenho. “Velha”, concordou o corvo empoleirado no seu ombro. “Velha, velha, velha.

– E poderosa – Jon conseguia sentir o poder.

Thoren Smallwood, escuro na sua placa e cota de malha, desmontou ao lado do tronco.

– Olhem aquela cara. Pouco admira que os homens a temessem quando chegaram pela primeira vez a Westeros. Eu mesmo gostaria de dar uma machadada nessa coisa maldita.

– O senhor meu pai acreditava que nenhum homem podia dizer uma mentira perante uma árvore-coração. Os deuses antigos sabem quando os homens mentem – Jon falou.

– Meu pai acreditava nisso também – disse o Velho Urso. – Deixe-me dar uma olhada naquele crânio.

Jon desmontou. Presa às suas costas, em uma bainha de ombro de couro negro, encontrava-se Garralonga, a lâmina bastarda de mão e meia que o Velho Urso tinha lhe oferecido por ter salvo sua vida. Uma espada bastarda para um bastardo, brincavam os homens. O punho tinha sido feito de novo para ele, adornado com um botão em forma de cabeça de lobo esculpido em pedra clara, mas a lâmina propriamente dita era de aço valiriano, velha, leve e mortalmente afiada.

Ajoelhou-se e enfiou uma mão enluvada na goela. O interior do buraco estava vermelho da seiva seca e enegrecido pelo fogo. Sob o crânio viu outro, menor, com o maxilar arrancado. Estava meio enterrado em cinzas e pedaços de osso.

Quando trouxe o crânio a Mormont, o Velho Urso o ergueu com ambas as mãos e fitou as órbitas vazias.

– Os selvagens queimam seus mortos. Sempre soubemos disso. Agora gostaria de lhes ter perguntado por que, quando ainda havia alguns a quem perguntar.

Jon Snow lembrou da criatura se levantando, com os olhos azuis cintilando na face morta e pálida. Ele sabia por que, tinha certeza.

– Se ao menos os ossos falassem – resmungou o Velho Urso. – Este aqui poderia nos dizer muitas coisas. Como morreu. Quem o queimou e por quê. Para onde foram os selvagens – suspirou. – Dizem que os filhos da floresta podiam falar com os mortos. Mas eu não posso – atirou o crânio de volta para a boca da árvore, onde aterrissou com uma nuvem de cinza fina. – Revistem todas estas casas. Gigante, suba ao topo desta árvore e olhe em volta. Também quero que os cães sejam trazidos para cá. Talvez dessa vez o rastro esteja mais fresco – seu tom de voz não sugeria que tivesse grande esperança nisso.

Dois homens revistaram todas as casas, para ter certeza de que não deixariam escapar nada. Jon fez par com o severo Eddison Tollett, um escudeiro de cabelo grisalho e magro como uma lança, a quem os outros irmãos chamavam Edd Doloroso.

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