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A Fúria dos Reis

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A Fúria dos Reis
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– Por que se reúnem os dracares desde sempre? – o tio tinha deixado os cavalos atados em frente à estalagem. Quando lá chegaram, virou-se para Theon: – Diga-me a verdade, sobrinho. Agora reza aos deuses dos lobos?

Theon raramente rezava, e ponto. Mas isso não era algo que se pudesse confessar a um sacerdote, mesmo ao irmão do pai.

– Ned Stark rezava a uma árvore. Não, não me importo nada com os deuses dos Stark.

– Ótimo. Ajoelhe-se.

O chão era todo de pedra e lama.

– Tio, eu…

Ajoelha. Ou será agora orgulhoso demais um fidalgo das terras verdes que veio para junto de nós?

Theon ajoelhou-se. Tinha ali um propósito e podia necessitar da ajuda de Aeron para alcançá-lo. Supunha que uma coroa valia um pouco de lama e bosta de cavalo nos calções.

– Abaixe a cabeça.

Erguendo o odre, o tio tirou a rolha e apontou um fino jorro de água do mar para a cabeça de Theon. O fluxo da água ensopou seu cabelo e correu pela sua testa até os olhos. Escorreu pelo rosto, e um suave fluxo de água deslizou sob o manto e o gibão, e pelas costas abaixo, um riacho frio ao longo da espinha. O sal fez seus olhos arderem, até que só com grande dificuldade evitou gritar. Sentiu nos lábios o sabor do oceano.

– Que Theon, seu servo, renasça do mar, como o senhor renasceu – entoou Aeron Greyjoy. – Abençoe-o com o sal, abençoe-o com a pedra, abençoe-o com o aço. Sobrinho, ainda conhece as palavras?

– O que está morto não pode morrer – Theon respondeu, lembrando-se.

– O que está morto não pode morrer – ecoou o tio –, mas volta a se erguer, mais duro e mais forte. Erga-se.

Theon ergueu-se, piscando, reprimindo lágrimas causadas pelo sal que tinha nos olhos. Sem uma palavra, o tio arrolhou o odre, desatou o cavalo e montou. Theon fez o mesmo. Arrancaram juntos, deixando a estalagem e o porto para trás, passando pelo castelo de Lorde Botley e entrando nas colinas pedregosas. O sacerdote não disse nem mais uma palavra.

– Passei metade da vida longe de casa – arriscou Theon por fim. – Vou encontrar as ilhas mudadas?

– Os homens pescam no mar, escavam na terra e morrem. As mulheres dão à luz crianças em sangue e dor, e morrem. A noite segue o dia. Os ventos e as marés permanecem. As ilhas são como nosso deus as fez.

Deuses... Agora ele se tornou sombrio, pensou Theon.

– Encontrarei minha irmã e a senhora minha mãe em Pyke?

– Não. Sua mãe mora em Harlaw com a irmã dela. É menos úmido por lá, e a tosse a atormenta. Sua irmã levou Vento Negro para Grande Wyk com mensagens do senhor seu pai. Voltará em breve, pode ter certeza disso.

Theon não precisava que lhe dissessem que Vento Negro era o dracar de Asha. Não via a irmã há dez anos, mas, pelo menos isso, sabia dela. Era estranho que tivesse dado esse nome ao navio, quando Robb Stark tinha um lobo chamado Vento Cinzento.

– Stark é cinza, e Greyjoy é negro – ele murmurou, sorrindo –, mas parece que ambos somos ventosos.

O sacerdote nada tinha a responder àquilo.

– E você, tio? – perguntou Theon. – Não era nenhum sacerdote quando fui levado de Pyke. Lembro-me de como cantava as velhas canções de saque em pé sobre a mesa com um corno de cerveja na mão.

– Era jovem e frívolo – Aeron Greyjoy respondeu. – Mas o mar lavou minhas loucuras e frivolidades. Aquele homem se afogou, sobrinho. Seus pulmões encheram-se de água do mar, e os peixes comeram as escamas que cobriam seus olhos. Quando me reergui, via com clareza.

É tão louco como amargo, pensou Theon, entristecido. Gostava do que recordava do antigo Aeron Greyjoy.

– Tio, por que meu pai convocou as espadas e as velas?

– Sem dúvida ele lhe dirá, em Pyke.

– Gostaria de saber dos seus planos agora – disse Theon.

– De mim não saberá. Foi-nos ordenado que não falássemos disso com nenhum homem.

– Nem comigo?

A ira de Theon se fez notar. Comandara homens na guerra, caçara com um rei, conquistara a honra em lutas corpo a corpo de torneios, cavalgara com Brynden Peixe Negro e o Grande-Jon Umber, lutara no Bosque dos Murmúrios, dormira com mais garotas do que conseguia recordar, e mesmo assim o tio tratava-o como se ainda fosse uma criança de dez anos.

– Se meu pai faz planos para a guerra, devo conhecê-los. Não sou “um homem”, mas o herdeiro de Pyke e das Ilhas de Ferro.

– Quanto a isso, veremos – o tio respondeu.

As palavras foram uma bofetada no seu rosto.

–Veremos? – Theon repetiu, em tom desdenhoso. – Ambos os meus irmãos estão mortos. Sou o único filho sobrevivente do senhor meu pai.

– Sua irmã está viva – Aeron nem sequer ofereceu a Theon a cortesia de um relance.

Asha, Theon pensou, confuso. Era três anos mais velha do que ele, mas, mesmo assim…

– Uma mulher só pode herdar se não houver nenhum herdeiro varão em linha direta – ele insistiu em voz alta. – Não aceitarei que me privem dos meus direitos, aviso.

O tio soltou um grunhido.

Avisa um servo do Deus Afogado, rapaz? Você se esqueceu mais do que pensa. E é um grande idiota se acredita que o senhor seu pai algum dia entregará estas ilhas sagradas a um Stark. E agora cale-se. A viagem já é suficientemente longa mesmo sem a sua tagarelice de pombo.

Theon controlou a língua, embora não sem esforço. Então é assim, pensou. Quase riu. Como se dez anos em Winterfell pudessem gerar um Stark. Lorde Eddard podia tê-lo criado entre os filhos, mas Theon nunca se sentira um deles. Todo o castelo, desde a Senhora Stark ao mais baixo dos ajudantes de cozinha, sabia que ele estava ali como refém do bom comportamento do pai e tratava-o de acordo. Até o bastardo Jon Snow recebia mais honras do que ele.

Lorde Eddard tentara fazer o papel de pai algumas poucas vezes, mas, para Theon, sempre foi o homem que havia trazido sangue e fogo a Pyke e o tirado de casa. Quando garoto, tinha vivido sob o medo do rosto severo e da grande espada escura do Stark. E a senhora sua esposa era, se possível, ainda mais distante e suspeita.

Quanto aos filhos, os mais novos não tinham sido mais do que bebês chorões ao longo da maior parte da sua estada em Winterfell. Só Robb e o meio-irmão ilegítimo Jon Snow tinham idade suficiente para merecer a sua atenção. O bastardo era um rapaz carrancudo, rápido em detectar uma desfeita, invejoso do nascimento elevado de Theon e da amizade que Robb nutria por ele. Por Robb Theon tinha uma certa afeição, como a que se sente por um irmão mais novo… mas seria melhor não mencioná-la. Em Pyke, ao que parecia, as velhas guerras ainda estavam sendo travadas. Isso não devia surpreendê-lo. As Ilhas de Ferro viviam no passado; o presente era duro e amargo demais para ser suportável. Além disso, o pai e os tios eram velhos, e os velhos senhores eram assim; levavam suas contendas poeirentas para a sepultura, sem esquecer nada, e perdoando menos ainda.

Tinha sido assim com os Mallister, seus companheiros na viagem de Correrrio para Guardamar. Patrek Mallister era, não raro, um companheiro; dividiam o gosto por prostitutas, vinho e caça com falcões. Mas, quando o velho Lorde Jason viu seu herdeiro se tornando cada vez mais feliz com a companhia de Theon, puxou Patrek a um canto para lembrá-lo de que Guardamar havia sido construído para defender a costa dos saqueadores das Ilhas de Ferro, os Greyjoy de Pyke principalmente. Sua Torre Retumbante tinha esse nome por causa do imenso sino de bronze, que há muito tempo tocava para avisar o povo da vila e os agricultores no castelo quando os dracares eram avistados no horizonte a oeste.

– Não ligue, pois o sino só foi tocado uma única vez em trezentos anos – Patrek contou a Theon no dia seguinte, quando compartilhou os avisos de seu pai e um jarro de sidra.

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