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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– E essa mulher e as crianças... Liquido também?

– Tem de ser, porque, do contrário, como vamos pegá-lo?

– Parece injusto com eles, pois não fizeram nada de errado.

– Que conversa é essa? Quer voltar atrás?

– Calma, conselheiro, calma. O que eu já disse ou fiz que pudesse levar o senhor a pensar que desejo voltar atrás de uma ordem do chefe da minha Loja? O certo e o errado é o senhor quem decide.

– Você faz isso, então?

– Claro que farei.

– Quando?

– Bem, dê-me uma noite ou duas para que eu possa ver a casa e planejar tudo. Então...

– Ótimo – disse McGinty, apertando-lhe a mão. – Deixo por sua conta. Será um dia maravilhoso quando você vier nos contar a novidade. Será o golpe final para que todos se curvem.

McMurdo pensou longa e profundamente sobre o serviço que fora confiado a ele tão de repente. A casa isolada em que Chester Wilcox morava ficava a cerca de 5 milhas, num vale vizinho. Naquela mesma noite começou a preparar sozinho o ataque. Já era dia quando voltou do reconhecimento do lugar. No dia seguinte conversou com seus dois subordinados, Manders e Reilly, jovens impetuosos que estavam tão excitados como se fossem a uma caçada. Duas noites depois encontraram-se fora da cidade, todos armados, e um deles carregando um saco com a pólvora usada nas minas. Eram duas horas quando chegaram à casa isolada. Ventava muito, e as nuvens passavam rapidamente diante da lua em quarto crescente. Eles haviam sido advertidos para ficarem atentos a emboscadas, de modo que caminhavam cautelosamente, com as armas nas mãos. Mas não havia nenhum ruído, a não ser o lamento do vento, e também não havia movimento algum a não ser o balanço dos galhos acima deles. McMurdo foi até a porta da casa e ficou escutando, mas estava tudo quieto lá dentro. Então ele pôs o saco de pólvora junto à porta, fez um furo nele com sua faca e colocou o estopim. Quando ficou bem aceso, ele e os dois companheiros saíram correndo, e estavam a uma distância segura, abrigados numa vala, antes que o barulho da explosão lhes dissesse que o trabalho estava terminado. Nenhum serviço mais limpo constava dos registros sangrentos da sociedade. Mas todo aquele trabalho tão bem organizado e audaciosamente executado fora em vão! Advertido pelo destino de várias vítimas, e sabendo que estava marcado para morrer, Chester Wilcox mudara-se com a família no dia anterior, para um lugar mais seguro e menos conhecido, onde um grupo de policiais tomava conta da casa. Fora uma casa vazia que explodira, e o inflexível ex-primeiro-sargento da guerra ainda estava ensinando disciplina aos mineiros da Iron Dike.

– Deixe-o pra mim – disse McMurdo. – Ele é meu e vou pegá-lo, nem que espere um ano.

Um voto de agradecimento e confiança foi aprovado por toda a Loja, e por ora o assunto estava encerrado. Quando, algumas semanas depois, foi noticiado nos jornais que Wilcox morrera numa emboscada, não era segredo para ninguém que McMurdo ainda estava em atividade para acabar o que havia começado.

Eram esses os métodos da Sociedade dos Homens Livres, e esses os feitos dos Scowrers, por meio dos quais espalhavam o medo naquele distrito grande e rico que por muito tempo foi dominado pela sua terrível presença. Por que macular estas páginas com outros crimes? Eu já não disse o suficiente para mostrar quem eram esses homens e seus métodos? Esses fatos fazem parte da História e há registros nos quais podem ser lidos os detalhes. Nesses registros pode-se ler sobre o assassinato dos policiais Hunt e Evans porque se atreveram a prender dois membros da sociedade – uma violência dupla planejada na Loja de Vermissa, e executada a sangue-frio contra dois homens desarmados e indefesos. Pode-se ler também sobre a morte da sra. Larbey enquanto cuidava do marido, que fora espancado quase até a morte por ordem do chefe McGinty. A morte do velho Jenkins, seguida pouco depois pela morte do seu irmão, a mutilação de James Murdoch, a explosão da casa da família Staphouse e o assassinato dos Stendals ocorreram numa sucessão bárbara, todos no mesmo inverno terrível. A primavera chegara com riachos de águas agitadas e flores desabrochando. Havia esperança em toda a Natureza, mantida por tanto tempo aprisionada; mas não havia nenhuma esperança para os homens e as mulheres que viviam sob o jugo do terror. Nunca a nuvem que os cobria estivera tão carregada e sem esperança de dissipação como no início do verão do ano de 1875.

Perigo

Era o auge do império do terror. McMurdo, que já fora indicado como líder, com muita possibilidade de vir um dia a suceder McGinty como chefe, era agora tão necessário nas reuniões que nada era feito sem sua ajuda e aconselhamento. Porém, quanto mais popular ele ficava entre os Homens Livres, mais fechadas eram as fisionomias dos que o cumprimentavam nas ruas de Vermissa. Apesar do terror que sentiam, as pessoas estavam tomando coragem para se unir contra seus opressores. Havia rumores sobre reuniões secretas na redação do Herald e sobre distribuição de armas de fogo entre os cidadãos. Mas McMurdo e seus homens não se deixavam perturbar por essas informações. Eles eram muitos, decididos e bem armados. Seus adversários estavam dispersos e sem força. Tudo isso terminaria, como já acontecera no passado, em conversa fiada e possivelmente em prisões inúteis. Foi o que disseram McGinty, McMurdo e todos os valentões.

Era uma noite de sábado em maio. Sábado era sempre a noite da Loja, e McMurdo estava saindo de casa para ir até lá quando Morris, o irmão mais frágil da Ordem, veio vê-lo. Sua fronte estava cheia de rugas de preocupação e sua fisionomia agradável estava transtornada e desfigurada.

– Posso falar francamente, sr. McMurdo?

– Claro.

– Não posso esquecer que uma vez eu lhe abri meu coração e que o senhor guardou tudo para si, embora o chefe tenha lhe perguntado sobre nossa conversa.

– O que mais eu poderia fazer se o senhor confiou em mim? Não quer dizer que eu tivesse concordado com o que me disse.

– Eu sei disso. Mas o senhor é uma pessoa com a qual posso falar e me sentir seguro. Tenho um segredo aqui – pôs a mão sobre o peito – e isso está acabando com a minha vida. Eu desejaria que isso tivesse acontecido com qualquer um de vocês, menos comigo. Se eu contar o que é, significará morte, certamente. Se não disser nada, pode ser o fim de todos nós. Que Deus me ajude. Estou quase perdendo a cabeça.

McMurdo olhou para o homem com seriedade. Ele estava tremendo. Despejou um pouco de uísque num copo e entregou ao outro.

– Esse é o seu melhor remédio – ele disse. – Agora, fale.

Morris bebeu e seu rosto pálido ganhou um pouco de cor.

– Posso contar-lhes tudo numa frase – ele disse. – Há um detetive atrás de nós.

McMurdo olhou para ele, espantado.

– O quê? Está louco – disse ele. – Por aqui não está cheio de policiais e detetives? E que mal eles já nos fizeram?

– Não, não. Não é um homem daqui. Como o senhor disse, nós os conhecemos e eles podem fazer muito pouco. Mas já ouviu falar no pessoal de Pinkerton?

– Já ouvi algumas pessoas falarem nesse nome.

– Acredite-me, nunca se sabe quando um deles está atrás da gente. Não é algo que se possa escolher. É uma coisa que, uma vez começada, não pára mais até que, de um modo ou de outro, esteja terminada. Se um homem de Pinkerton estiver mesmo nisso, todos nós estaremos destruídos.

– Temos de matá-lo.

– Ah, é a primeira idéia que lhe ocorre! Será também o pensamento de todos os da Loja. Eu não disse que isso tudo iria terminar em assassinato?

– Qual o problema quanto a assassinato? Não é uma coisa bastante comum por aqui?

– Na verdade é, mas não cabe a mim apontar o homem que deve morrer. Eu, se fizesse isso, nunca mais teria sossego. Entretanto, são as nossas cabeças que poderão rolar. Em nome de Deus, o que devo fazer? – ele andava de um lado para outro em meio à agonia da indecisão.

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