Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
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O Chefe
McMurdo era um homem que fazia rapidamente seu nome. Onde quer que estivesse, as pessoas em volta passavam a conhecê-lo. Em apenas uma semana ele se tornara o mais notório dos moradores da casa de Shafter. Havia cerca de dez ou 12 hóspedes, mas eram todos trabalhadores honestos ou funcionários das lojas, de uma formação muito diferente daquela do jovem escocês. À noite, quando todos se reuniam, as brincadeiras dele eram as mais vivas, sua conversa, a mais brilhante, e sua canção, a melhor. A sua alegria era inata e seu magnetismo atraía o bom humor de todos que estivessem ao seu redor. Mesmo assim, ele mostrava diversas vezes, como fizera no trem, uma capacidade de se enfurecer subitamente e de modo violento, o que lhe valia o respeito e mesmo o temor dos que o viam assim. Com relação à lei e a todas as pessoas ligadas a ela, exibia, também, um cáustico desprezo que encantava alguns dos seus companheiros
de pensão e alarmava outros.
Logo de início ele deixou bem claro, por sua admiração incontida, que a filha do dono da pensão conquistara seu coração no instante em que pusera os olhos em sua beleza e graça. Ele não era um pretendente tímido. No segundo dia dissera-lhe que a amava, e daí em diante repetia a mesma história com absoluto descaso pelo que ela pudesse dizer para desencorajá-lo.
– Existe outro? – ele examinava. – Bem, pior para esse outro! Ele que se cuide. Vou perder a chance da minha vida e deixar morrer os desejos do meu coração por causa de outro? Você pode continuar a dizer não, Ettie! Chegará o dia em que você dirá sim, e sou suficientemente jovem para esperar.
Ele era um pretendente perigoso, com sua língua escocesa muito loquaz e seus modos lisonjeiros. Havia nele também aquele fascínio da experiência e de mistério que atrai o interesse de uma mulher e, finalmente, o seu amor. Ele podia falar dos maravilhosos vales de County Monaghan, de onde viera, da encantadora e distante ilha, os pequenos montes e verdes prados que pareciam ainda mais belos quando a imaginação os via daqui dessa terra suja e cheia de neve. De repente ele começava a falar nas cidades do norte, de Detroit e dos campos madeireiros de Michigan, de Buffalo e, finalmente, de Chicago, onde ele trabalhara numa serraria. E depois vinha a insinuação de romances, a sensação de que coisas fantásticas haviam acontecido com ele naquela cidade grande, coisas tão fantásticas e íntimas que não podiam nem ser contadas. Ele falou com nostalgia de uma partida súbita, rompimento de antigos laços, um recomeço num mundo diferente que acabou sendo nesse vale sombrio, e Ettie escutava, seus olhos negros brilhando com pena e simpatia – esses dois sentimentos que podem se transformar tão rapidamente e tão naturalmente em amor.
McMurdo conseguira um emprego temporário como guarda-livros, pois era um homem muito bem preparado. Isso o mantinha fora de casa a maior parte do dia, e não encontrara tempo ainda para ir falar com o chefe da Loja da Venerável Ordem dos Homens Livres. Mas ele foi lembrado da sua omissão certa noite pela visita de Mike Scanlan, o companheiro que ele conhecera no trem. Scanlan, um homem baixo de rosto severo e com olhos negros muito nervosos, pareceu contente em vê-lo novamente. Depois de um copo ou dois de uísque, ele contou o motivo de sua visita.
– McMurdo – ele disse – eu me lembrava do seu endereço e então tomei a liberdade de procurá-lo. Estou surpreso por você ainda não ter ido procurar o chefe. Por que, afinal, você não foi ver o chefe McGinty?
– Eu precisava arranjar um emprego. Andei ocupado.
– Você tem de encontrar tempo para ele mesmo que não tenha tempo pra nada mais. Meu Deus! Cara, você é louco de não ter ido ao sindicato e registrado seu nome no dia seguinte ao da sua chegada aqui! Se você entrar em choque com ele... Bem, você não deve entrar em choque. É tudo.
McMurdo mostrou-se um tanto surpreso.
– Sou membro da Loja há mais de dois anos e nunca ouvi falar que as tarefas fossem tão urgentes assim.
– Talvez não sejam em Chicago!
– Bem, aqui é a mesma sociedade.
– É? – Scanlan o encarou demoradamente. Havia algo de sinistro em seu olhar.
– Não é?
– Você me dirá se é daqui a um mês. Eu soube que você conversou com os guardas depois que eu saltei do trem.
– Como você ficou sabendo?
– Oh, a notícia se espalhou. Por aqui as coisas boas e as más se espalham.
– Bem, é verdade. Eu disse àqueles cachorros o que achava deles.
– Meu Deus, McGinty vai gostar muito disso!
– Ele também odeia a polícia?
Scanlan deu uma boa gargalhada.
– Vá conhecê-lo, camarada – disse ele, preparando-se para ir embora. – Não é a polícia que ele odeia, mas odiará você, se você não for lá! Agora ouça o conselho de um amigo e vá imediatamente!
Por acaso, na mesma noite McMurdo teve outra visita mais incisiva que insistiu para que ele fizesse a mesma coisa. Talvez suas atenções para com Ettie estivessem mais evidentes do que antes, ou que elas tenham sido percebidas pelo bom hospedeiro alemão; mas, qualquer que tenha sido a causa, o dono da pensão chamou o jovem ao seu escritório e foi direto ao assunto.
– Parece-me – disse ele – que o senhor está de olho na minha Ettie. É verdade ou estou enganado?
– Sim, é verdade – o jovem respondeu.
– Bem, desejo lhe dizer de saída que não é possível. Alguém chegou na sua frente.
– Ela me disse.
– Pode ter certeza de que lhe disse a verdade! Mas ela lhe disse quem era?
– Não. Eu perguntei, mas ela não quis dizer.
– Eu não ousarei dizer. Talvez ela não quisesse assustá-lo.
– Assustar! – McMurdo ficou irritado na mesma hora.
– É verdade, meu amigo! Não precisa se envergonhar por ter medo dele. É Teddy Baldwin.
– E quem é esse cara, afinal?
– É o chefe dos Scowrers.
– Scowrers! Já ouvi falar neles. Todo mundo fala em Scowrers, mas sempre sussurrando. Do que é que todos vocês têm medo? Quem são os Scowrers?
O dono da pensão instintivamente baixou a voz, como faziam todos ao falar sobre a terrível sociedade.
– Os Scowrers – disse ele – são a Venerável Ordem dos Homens Livres.
O jovem se assustou.
– E daí? Eu sou membro da Ordem.
– O senhor?! Eu jamais o receberia em minha casa se soubesse disso. Nem se o senhor pagasse 100 dólares por semana.
– O que há de errado com a Ordem? Ela só faz caridade e reúne as pessoas que são membros.
– Pode ser assim em outros lugares. Não aqui!
– Como é aqui?
– Uma sociedade de extermínio, é isso que ela é.
McMurdo riu, incrédulo.
– Como o senhor prova isso? – ele perguntou.
– Provar! Não há cinqüenta assassinatos que provem isso? O que me diz de Milman e Van Shorst, e a família Nicholson, e o velho sr. Hyam, e o pequeno Billy James e os outros? Provar! Será que existe alguém neste vale que não a conheça?
– Veja bem – disse McMurdo em tom sério. – Quero que o senhor retire o que disse ou então explique melhor. O senhor tem de fazer alguma coisa antes de eu sair desta sala. Ponha-se no meu lugar. Estou na cidade há pouco tempo. Pertenço a uma sociedade que conheço apenas como uma entidade inocente. O senhor a encontra no país inteiro, sempre atuando de modo inocente. Agora que estou pensando em me filiar à Loja daqui, o senhor me diz que ela é uma sociedade de extermínio chamada Scowrers. Acho que o senhor me deve uma desculpa ou uma explicação, sr. Shafter.