Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
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Scanlan desceu e McMurdo ficou novamente entregue aos seus pensamentos. A noite já caíra e as chamas da fornalha rugiam e saltavam com estrépito no meio da escuridão. Com esse fundo sonoro lúgubre, sombras escuras dobravam-se e esticavam-se, retorciam-se e viravam-se, com o movimento das manivelas, ao ritmo de um ruído incessante.
– Acho que o inferno deve ser mais ou menos assim – disse uma voz.
McMurdo virou-se e viu que um dos policiais se ajeitara no banco e olhava a paisagem árida.
– Por isso – disse o outro policial – é que eu acho que o inferno deve ser assim. Se lá embaixo for pior que isso, então é muito pior do que eu imagino. Acho que você é novo por aqui, rapaz.
– Bem, e se eu for? – McMurdo respondeu com rispidez.
– Apenas isso, senhor: deve ter cuidado com os amigos que escolhe. Se eu fosse você, não começaria com Mike Scanlan e sua gangue.
– O que você tem a ver com os meus amigos? – McMurdo disse numa voz tão alterada que todos que estavam no vagão viraram-se para ver o que acontecia. – Eu pedi algum conselho, ou você acha que sou idiota e não sei me virar sem você? Fale apenas quando lhe perguntarem alguma coisa, e, juro por Deus, se dependesse de mim, você ia esperar muito para falar.
Ele encarou o policial e lhe mostrou os dentes como um cão ao rosnar.
Os dois policiais, homens pacatos e de boa índole, ficaram perplexos com a veemência com que seus conselhos bem-intencionados foram rejeitados.
– Não se ofenda, estrangeiro – disse um deles. – Era um aviso para o seu próprio bem, já que você é, como se pode ver, novo por aqui.
– Sou novo por aqui mas não sou novo para você nem para gente do seu tipo – gritou McMurdo, furioso. – Acho que vocês são iguais em todos os lugares, impondo seus conselhos quando ninguém pediu.
– Talvez nos encontremos em breve – disse um dos guardas, sorrindo. – Você foi realmente escolhido a dedo.
– Eu estava pensando a mesma coisa – observou o outro. – Acho que vamos nos encontrar novamente.
– Não tenho medo de vocês, não se enganem – gritou McMurdo. Meu nome é Jack McMurdo, ouviram? Se quiserem me achar, vou ficar na pensão de Jacob Shafter, na Sheridan Street, Vermissa. Não estou me escondendo de vocês, ouviram? Não se enganem quanto a isso.
Houve um murmúrio de simpatia e admiração dos mineiros devido ao comportamento destemido do recém-chegado, enquanto os policiais davam de ombros e voltavam a conversar entre eles. Pouco depois o trem entrava na estação mal-iluminada, surgindo logo a seguir uma grande claridade, pois Vermissa era a maior cidade daquele circuito. McMurdo pegou sua valise de couro e já ia saltar quando um dos mineiros o abordou.
– Puxa, companheiro, você sabe mesmo como falar com os tiras – disse numa voz que denotava admiração. – Foi um prazer ouvi-lo. Deixe-me carregar sua bagagem e lhe mostrar o caminho. Vou passar pela casa de Shafter no caminho para minha casa.
Seguiu-se um coro amistoso de “boa-noite” quando os outros mineiros passaram por eles na plataforma. Antes mesmo de pisar na estação, o violento McMurdo transformara-se numa personalidade em Vermissa.
O campo fora um lugar de terror, mas a cidade era, a seu modo, até mais depressiva. Lá embaixo, ao longo do vale, havia pelo menos um certo esplendor nos gigantescos fornos e nas nuvens de fumaça, enquanto a força e a perseverança do homem encontravam monumentos adequados nas montanhas que ele vasculhara em escavações monstruosas. Mas a cidade tinha um aspecto morto, feio e sórdido. A rua principal, devido ao tráfego, transformara-se numa massa de neve enlameada e marcada pelo sulco das rodas dos veículos. As calçadas eram estreitas e irregulares. O grande número de lâmpadas a óleo servia apenas para mostrar mais nitidamente a série de casas de madeira, cada uma delas com sua varanda dando para a rua, maltratada e suja. Ao se aproximarem do centro da cidade, o cenário clareou devido à existência de uma série de lojas bem-iluminadas, e principalmente por um aglomerado de saloons e casas de jogo, onde os mineiros gastavam seu dinheiro suado mas pago de forma generosa.
– Ali é o sindicato – disse o guia, apontando para um saloon que tinha uma aparência quase tão distinta quanto a de um hotel. – Jack MacGinty é o chefe aí.
– Que tipo de homem ele é? – perguntou McMurdo.
– O quê? Você nunca ouviu falar no chefe?
– Como é que eu poderia ter ouvido falar nele se sou novo aqui?
– Bem, pensei que o nome dele fosse conhecido em todo o país. O nome dele sai sempre nos jornais.
– Por quê?
– Bem... – o mineiro baixou a voz – ... por causa dos negócios.
– Que negócios?
– Ah, meu bom Deus! Você parece inocente, se é que posso dizer isso sem ofendê-lo. Só há um tipo de negócios sobre o qual você ouvirá falar aqui. É sobre os negócios dos Scowrers.
– Acho que li alguma coisa sobre os Scowrers em Chicago. É um grupo de assassinos, não é?
– Cala a boca! – gritou o mineiro, parando e olhando perplexo para seu acompanhante. – Moço, você não vai durar muito por aqui se falar assim no meio da rua. Muitos homens morreram por muito menos.
– Bem, não sei nada sobre eles. É apenas o que eu li.
– Não estou dizendo que você não tenha lido a verdade. – O homem olhava em volta com nervosismo enquanto falava, perscrutando as sombras como se tivesse medo de ver um perigo qualquer à espreita. – Se matar é assassinato, então Deus sabe que há assassinatos. Mas não ouse ligar o nome de Jack McGinty aos assassinatos, estrangeiro, pois tudo que se fala chega aos ouvidos dele, e ele não é do tipo que perdoa. Bem, é essa a casa que você estava procurando. Vai encontrar o velho Jacob Shafter, que administra sua pensão da mesma forma honesta como vive.
– Muito obrigado – disse McMurdo e, apertando a mão do novo conhecido, pegou a valise e tomou o caminho que dava na casa, em cuja porta ele bateu com força. A porta foi aberta imediatamente por alguém muito diferente do que ele esperava.
Era uma mulher, jovem e muito bonita. Era do tipo alemão, loura e de pele clara, com o atraente contraste de bonitos olhos escuros com os quais ela examinou o estranho com surpresa e um agradável embaraço, que trouxe um pouco de cor à sua pele clara. Emoldurada pela luminosidade da porta aberta, pareceu a McMurdo que jamais vira uma mulher mais bonita, mais bonita ainda pelo contraste com a tristeza do lugar. Uma linda violeta desabrochando no meio da sujeira das minas não teria parecido mais surpreendente. Tão fascinado ele estava que ficou parado olhando para ela sem dizer nada, e foi ela quem quebrou o silêncio.
– Pensei que fosse o papai – disse ela, com um leve e agradável sotaque alemão. – O senhor veio falar com ele? Ele foi ao centro. Deve voltar a qualquer momento.
McMurdo continuou a olhá-la com franca admiração até que ela baixou os olhos, confusa diante de um visitante tão desconcertante.
– Não, senhorita – disse ele finalmente. – Não tenho pressa. Recomendaram-me a sua casa para me instalar. Achei que seria um bom lugar e agora tenho certeza de que será.
– O senhor se decide muito depressa – ela disse com um sorriso.
– Só um cego não faria o mesmo – ele respondeu.
Ela riu ao ouvir o elogio.
– Entre, senhor – disse ela. – Meu nome é Ettie Shafter, a filha do sr. Shafter. Minha mãe morreu e eu tomo conta da casa. Sente-se perto do fogo, na outra sala, até meu pai voltar. Ah, aí está ele. Então o senhor pode acertar tudo com ele.
Um homem grande, já idoso, vinha subindo a escada da casa. Em poucas palavras McMurdo explicou sua situação. Um homem chamado Murphy dera o endereço da pensão, em Chicago. Essa pessoa tinha recebido a indicação de outra pessoa. O velho Shafter era objetivo. O estrangeiro não reclamou de nada, aceitando de imediato todas as condições, e, aparentemente, dinheiro não era problema. Por 12 dólares cada semana, pagos antecipadamente, ele teria casa e comida. Foi assim que McMurdo, o fugitivo confesso da Justiça, instalou-se sob o teto dos Shafters, a primeira etapa de uma longa e nebulosa série de acontecimentos que terminaram num lugar muito distante.