A Tormenta de Espadas
- Автор: Мартин Джордж Рэймонд Ричард
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Год: Leya
- ISBN: 9788580442625
- Переводчик: Jorge Candeias
- Жанр: Прочая древняя литература
Электронная книга - «A Tormenta de Espadas». Краткое содержание книги:
– AGORA! – berrou Noye. Os contrapesos precipitaram-se para baixo e os braços de arremesso ergueram-se até baterem com estrondo nas barras transversais almofadadas. O piche ardente partiu rodopiando pela escuridão, lançando uma fantasmagórica luz oscilante sobre o terreno lá embaixo. Jon vislumbrou mamutes que se moviam imponentemente à meia-luz, e com a mesma rapidez deixou de vê-los. Uma dúzia, talvez mais. Os barris atingiram a terra e estouraram. Ouviram uma trombeta soar num baixo profundo, e um gigante rugiu qualquer coisa no Idioma Antigo, com a voz num trovão ancestral que provocou arrepios na espinha de Jon.
– Outra vez! – gritou Noye, e os trabucos foram de novo carregados. Mais dois barris de piche ardente partiram, crepitando, para as sombras, e esmagaram-se entre o inimigo. Daquela vez um deles atingiu uma árvore morta, envolvendo-a em chamas. Não é uma dúzia de mamutes, viu Jon, é uma centena.
Aproximou-se da borda do precipício. Cuidado, recordou a si mesmo, é uma longa queda até lá embaixo. Alyn Vermelho fez soar mais uma vez o seu berrante de sentinela, Aaaaahuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu, aaaaaaahuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu. E agora os selvagens responderam, não com um berrante, mas com uma dúzia, e também com tambores e gaitas. Chegamos, pareciam dizer, chegamos para quebrar a sua Muralha, para tomar suas terras e roubar suas filhas. O vento uivava, os trabucos rangiam e estrondeavam, os barris voavam. Atrás dos gigantes e dos mamutes, Jon viu homens avançando contra a muralha com arcos e machados. Haveria vinte ou vinte mil? Na escuridão, não havia como dizer. Esta é uma batalha de cegos, mas Mance tem alguns milhares mais do que nós.
– O portão! – gritou Pyp. – Eles estão no PORTÃO!
A Muralha era grande demais para ser assaltada por meios convencionais; alta demais para escadas ou torres de cerco, espessa demais para aríetes. Nenhuma catapulta era capaz de arremessar uma pedra suficientemente grande para abrir uma brecha nela, e caso se tentasse incendiá-la, o gelo derretido extinguiria as chamas. Era possível escalá-la, como os assaltantes tinham feito perto de Guardagris, mas só se os alpinistas fossem fortes, estivessem em forma e tivessem mãos seguras, e mesmo assim podiam acabar como Jarl, empalados numa árvore. Eles têm de tomar o portão, caso contrário não poderão passar.
Mas o portão era um túnel sinuoso através do gelo, menor do que qualquer portão de castelo dos Sete Reinos, tão estreito que os patrulheiros tinham de levar os garranos em fila indiana. Três portões de ferro fechavam a passagem interior, todos trancados e acorrentados e protegidos por um alçapão. A porta exterior era de carvalho antigo, com vinte e três centímetros de espessura e reforçada com ferro, difícil de quebrar. Mas Mance tem mamutes, recordou a si mesmo, e também tem gigantes.
– Deve estar frio lá embaixo – disse Noye. – Que dizem de os aquecermos, rapazes? – uma dúzia de potes de óleo para lâmpadas tinham sido alinhados junto ao precipício. Pyp percorreu a fileira com um archote, incendiando-os. Owen Idiota seguiu-o, empurrando-os borda afora, um por um. Línguas de fogo amarelo-claro rodopiaram em volta dos potes quando estes mergulharam. Depois de o último ter sido atirado, Grenn soltou com um pontapé os calços de um barril de piche e fez com que também caísse pela borda da Muralha, rolando e ressaltando. Os sons que vinham de baixo transformaram-se em berros e gritos, doce música para os seus ouvidos.
Mas os tambores ainda ressoavam, os trabucos estremeciam e estrondeavam, e o som das gaitas de foles veio em baforadas pela noite, como se fosse a canção de umas aves quaisquer, estranhas e ferozes. Septão Cellador também começou a cantar, com a voz trêmula e carregada de vinho.
Gentil Mãe, de clemência fonte,
nossos filhos livre da disputa,
pare espadas, pare flechas,
deixe-os ver...
Donal Noye virou-se para ele.
– O primeiro homem aqui que parar a espada, eu mando a porcaria da bunda caída lá pra baixo... começando por você, septão. Arqueiros! Temos aí algum maldito arqueiro?
– Aqui – disse Cetim.
– E aqui – disse Mully. – Mas como é que encontro um alvo? Tá escuro como se estivéssemos dentro de uma barriga de porco. Onde estão eles?
Noye apontou para o norte.
– Dispare flechas suficientes e pode ser que acerte alguns. Pelo menos vai deixá-los inquietos. – Olhou em volta do círculo de rostos iluminados pelo fogo. – Preciso de dois arcos e de duas lanças para me ajudar a defender o túnel, caso eles consigam quebrar o portão. – Mais de dez deram um passo adiante, e o ferreiro escolheu seus quatro. – Jon, a Muralha é sua até eu voltar.
Por um momento Jon julgou ter ouvido mal. Parecera que Noye estava deixando-o no comando.
– Senhor?
– Senhor? Eu sou um ferreiro. Disse que a Muralha é sua.
Há homens mais velhos, Jon quis dizer, homens melhores. Ainda estou verde como a grama do verão. Estou ferido, e fui acusado de deserção. Tinha ficado com a boca seca como um osso.
– Sim – conseguiu dizer.
Mais tarde Jon Snow teria a sensação de aquela noite ter sido um sonho. Lado a lado com os soldados de palha, com arcos e bestas apertados em mãos meio congeladas, seus arqueiros atiraram uma centena de nuvens de flechas contra homens que não chegavam a ver. De tempos em tempos uma flecha dos selvagens surgia em resposta. Enviou homens para as catapultas menores e encheu o ar com pedras angulosas do tamanho de um punho de gigante, mas a escuridão engolia-as como um homem poderia engolir um punhado de nozes. Mamutes bramiam nas trevas, estranhas vozes gritavam em línguas ainda mais estranhas, e o Septão Cellador rezava pela chegada da alvorada tão alto e com uma voz tão ébria que Jon se sentiu tentado a atirá-lo ele mesmo da Muralha. Ouviram um mamute morrendo bem abaixo deles e viram outro arremetendo pela floresta, ardendo, esmagando tanto homens como árvores. O vento soprava cada vez mais frio. Hobb foi içado com taças de caldo de cebolas e Owen e Clydas serviram-nas aos arqueiros em seus postos, para que pudessem emborcá-las entre flechas. Zei ocupou um lugar entre eles com a sua besta. Horas de repetidos abalos e choques soltaram qualquer coisa no trabuco da direita, e seu contrapeso libertou-se, súbita e catastroficamente, torcendo o braço de arremesso para o lado e estilhaçando-o. O trabuco da esquerda continuou a arremessar, mas os selvagens tinham aprendido depressa a evitar a zona onde suas cargas caíam.
Devíamos ter vinte trabucos, e não dois, e eles deviam estar montados em trenós e bases rotativas para podermos movê-los. Era um pensamento fútil. Podia também desejar mais mil homens e talvez dois ou três dragões.
Donal Noye não voltou, assim como os outros que o acompanharam a fim de defender aquele túnel negro e frio. A Muralha é minha, lembrava Jon a si mesmo sempre que sentia as forças fraquejarem. Ele também tinha pegado um arco e sentia os dedos cheios de cãibras e duros, meio congelados. A febre também estava de volta, e às vezes a perna tremia descontroladamente, enviando uma incandescente faca de dor pelo interior de seu corpo. Mais uma flecha, e descanso, disse a si mesmo meia centena de vezes. Só mais uma. Sempre que a aljava se esvaziava, um dos toupeiras órfãos trazia-lhe outra. Mais uma flecha, e basta. Não podia faltar muito tempo para o nascer do dia.
Quando a manhã chegou, a princípio nenhum deles notou. O mundo continuava escuro, mas o negro transformara-se em cinza e silhuetas entrevistas começavam a emergir das sombras. Jon baixou o arco para fitar a massa de pesadas nuvens que cobria o céu oriental. Via um brilho atrás delas, mas talvez estivesse apenas sonhando. Encaixou mais uma flecha.