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A Tormenta de Espadas

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A Tormenta de Espadas
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NÃO! – Jaime ouvira tudo que conseguia aguentar. Não, mais do que conseguia aguentar. Estava farto daquilo, farto de lordes e mentiras, farto do pai, da irmã, farto de toda aquela maldita situação. – Não. Não. Não. Não. Não. Quantas vezes tenho de dizer não antes que me ouça? Oberyn Martell? O homem é infame, e não só por envenenar a espada. Tem mais bastardos do que Robert, e deita-se também com homens. E se acha por um disparatado momento que vou me casar com a viúva de Joffrey...

– Lorde Tyrell jura que a garota ainda é donzela.

– E por mim pode morrer donzela. Não a quero e não quero o seu Rochedo!

– É meu filho...

– Sou um cavaleiro da Guarda Real. O Senhor Comandante da Guarda Real! E isso é tudo o que pretendo ser!

A luz do fogo cintilava, dourada, nos pelos hirtos que enquadravam o rosto de Lorde Tywin. Uma veia latejava em seu pescoço, mas ele não falou. E não falou. E não falou.

O tenso silêncio prolongou-se até ser mais do que Jaime podia aguentar.

– Pai... – começou.

– Você não é meu filho. – Lorde Tywin afastou o olhar. – Diz que é o Senhor Comandante da Guarda Real, e apenas isso. Muito bem, sor. Vá cumprir o seu dever.

DAVOS

As vozes deles subiam como fagulhas, rodopiando na direção do céu púrpura do princípio da noite.

– Leve-nos para longe das trevas, oh senhor. Encha-nos de fogo o coração, para que possamos percorrer o seu caminho brilhante.

A fogueira noturna ardia contra a escuridão que se aprofundava, um grande animal brilhante cuja oscilante luz laranja atirava sombras com seis metros de altura pátio afora. Ao longo das muralhas de Pedra do Dragão, o exército de gárgulas e grotescos parecia se agitar e mudar de posição.

Davos olhava de uma janela arqueada na galeria, acima. Observou Melisandre erguer os braços, como que para abraçar as chamas tremulantes.

– R’hllor – entoou numa voz sonora e clara –, é a luz nos nossos olhos, o fogo nos nossos corações, o calor nos nossos quadris. É seu o sol que aquece os nossos dias, suas são as estrelas que nos protegem na escuridão da noite.

Senhor da Luz, proteja-nos. A noite é escura e cheia de terrores.

A Rainha Selyse liderava as respostas, com o rosto atormentado e cheio de fervor. O Rei Stannis estava ao seu lado, com o maxilar bem cerrado e as pontas de sua coroa de ouro vermelho cintilando sempre que movia a cabeça. Ele está com eles, mas não é um deles, pensou Davos. A Princesa Shireen encontrava-se entre os pais, com as manchas cinzentas mosqueadas no rosto e no pescoço quase negras à luz da fogueira.

Senhor da Luz, proteja-nos – cantou a rainha. O rei não respondeu com os outros. Estava fitando as chamas. Davos perguntou a si mesmo o que ele estaria vendo ali. Outra visão da guerra que aí vem? Ou algo mais perto de casa?

– R’hllor, que nos deu o sopro, agradecemos ao senhor – cantou Melisandre. – R’hllor, que nos deu o dia, agradecemos ao senhor.

Agradecemos ao senhor pelo sol que nos aquece – respondeu a Rainha Selyse e os outros adoradores. – Agradecemos ao senhor pelas estrelas que nos vigiam. Agradecemos ao senhor pelas lareiras e archotes que mantêm a escuridão selvagem a distância. – Parecia a Davos que as respostas eram proferidas por menos vozes do que na noite anterior; menos rostos pintados de cor de laranja em volta da fogueira. Mas haveria ainda menos no dia seguinte... ou mais?

A voz de Sor Axell Florent ressoava, sonora como uma trombeta. Estava em pé, de peito estufado e pernas arqueadas, com a luz do fogo lambendo seu rosto como uma monstruosa língua laranja. Davos perguntou a si mesmo se Sor Axell lhe agradeceria depois. A obra que tinham realizado naquela noite poderia bem fazer do homem Mão do Rei, tal como sonhava.

Melisandre gritou:

– Agradecemos ao senhor por Stannis, por sua graça nosso rei. Agradecemos ao senhor pelo fogo de um branco puro de sua bondade, pela espada vermelha da justiça que empunha, pelo amor que sente por seu leal povo. Guie-o e proteja-o, R’hllor, e dê-lhe força para derrotar os inimigos.

Dê-lhe força – responderam a Rainha Selyse, Sor Axell, Devan e os outros. – Dê-lhe coragem. Dê-lhe sabedoria.

Quando era garoto, os septões tinham ensinado Davos a rezar à Velha por sabedoria, ao Guerreiro por coragem, ao Ferreiro por força. Mas era à Mãe que rezava agora, para que mantivesse seu querido filho Devan a salvo do deus demoníaco da mulher vermelha.

– Lorde Davos? É melhor irmos. – Sor Andrew tocou suavemente em seu cotovelo. – Senhor?

O título ainda lhe soava estranho aos ouvidos, mas Davos afastou-se da janela.

– Sim. É hora.

Stannis, Melisandre e os homens da rainha permaneceriam nas suas preces durante uma hora ou mais. Os sacerdotes vermelhos acendiam as fogueiras todos os dias ao pôr do sol, para agradecer a R’hllor pelo dia que terminava e suplicar-lhe que voltasse a enviar o seu sol de manhã, para banir a escuridão. Um contrabandista deve conhecer as marés e a altura de apanhá-las. No fim das contas, não passava disso; Davos, o contrabandista. A mão mutilada subiu à garganta em busca de sua sorte, e nada encontrou. Baixou-a bruscamente e apressou-se um pouco mais.

Os companheiros apressaram-se com ele, ajustando os passos aos seus. O Bastardo de Nocticantiga tinha um rosto devastado pela varíola e um ar de cavalaria esfarrapada; Sor Gerald Gower era largo, brusco e louro; Sor Andrew Estermont era uma cabeça mais alto, com uma barba pontuda e hirsutas sobrancelhas castanhas. Davos os considerava todos bons homens, cada um à sua maneira. E todos serão homens mortos em breve, se a obra desta noite correr mal.

– O fogo é uma coisa viva – a mulher vermelha tinha dito, quando lhe pediu que o ensinasse a ver o futuro nas chamas. – Está sempre em movimento, sempre em mudança... como um livro cujas letras dançam e se movimentam mesmo enquanto se está tentando lê-las. São precisos anos de treino para ver as silhuetas por trás das chamas, e mais anos ainda para aprender a distinguir as silhuetas daquilo que irá acontecer das que mostram o que poderá acontecer ou o que já aconteceu. Mesmo então, é difícil, difícil. Vocês, os homens das terras do poente, não compreendem. – Davos perguntou-lhe então como Sor Axell tinha aprendido tão depressa o truque, mas ao ouvir isso ela limitou-se a dar um sorriso enigmático e dizer: – Qualquer gato pode fitar uma fogueira e ver ratos vermelhos brincando.

Não tinha mentido a respeito de nada daquilo aos seus homens do rei.

– Pode ser que a mulher vermelha veja o que pretendemos fazer – avisou-os.

– Então devíamos começar por matá-la – sugeriu Lewys Peixeira. – Conheço um lugar onde poderíamos preparar uma cilada, quatro de nós com espadas afiadas...

– Condenaria a todos nós – disse Davos. – Meistre Cressen tentou matá-la, e ela soube de imediato. Pelas chamas, suponho. Parece-me que é muito rápida em sentir qualquer ameaça à sua pessoa, mas certamente não pode saber tudo. Se a ignorarmos, talvez possamos escapar à sua detecção.

– Não há honra em nos escondermos e andarmos pela calada – objetou Sor Triston do Monte da Talha, que tinha sido um homem dos Sunglass antes de Lorde Guncer ser entregue às fogueiras de Melisandre.

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