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A Tormenta de Espadas

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A Tormenta de Espadas
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– Temos de ir até muito longe? – ela perguntou.

– Nada de falar. – O remador era velho, mas mais forte do que parecia, e sua voz era feroz. Havia algo estranhamente familiar no rosto dele, embora Sansa não conseguisse identificar o que seria.

– Não é longe. – Sor Dontos tomou sua mão na dele e esfregou-a com gentileza. – Seu amigo está perto, à sua espera.

Nada de falar! – rosnou de novo o remador. – O som chega longe sobre a água, Sor Bobo.

Desconcertada, Sansa mordeu o lábio e encolheu-se em silêncio. O resto foi remar, remar, remar.

O céu do oriente já mostrava o primeiro vago indício da alvorada quando Sansa viu por fim uma silhueta fantasmagórica na escuridão que se estendia adiante; uma galé mercante, com as velas enroladas, deslocando-se lentamente, movida por uma única fileira de remos. Quando se aproximaram, viu a figura de proa do navio, um tritão com uma coroa dourada soprando um grande búzio. Ouviu uma voz gritar, e a galé deu a volta lentamente.

Quando se posicionaram ao lado da galé, uma escada de corda foi atirada por sobre a amurada. O remador puxou os remos para o barco e ajudou Sansa a ficar em pé.

– Agora para cima. Vá lá, menina, eu seguro você. – Sansa agradeceu-lhe pela gentileza, mas só recebeu um grunhido em resposta.

Foi muito mais fácil subir a escada de corda do que tinha sido descer a falésia. O remador Oswell seguiu logo atrás dela, ao passo que Sor Dontos permaneceu no barco.

Dois marinheiros esperavam junto à amurada, para ajudá-la a subir até o convés. Sansa tremia.

– Ela está com frio – ouviu alguém dizer. O homem tirou o manto e aconchegou-o em volta de seus ombros. – Pronto, está melhor, senhora? Descanse, o pior já passou.

Conhecia a voz. Mas ele está no Vale, pensou. Sor Lothor Brune estava ao lado dele, com um archote.

– Lorde Petyr – chamou Dontos do barco. – Tenho de remar de volta, antes que pensem em procurar por mim.

Petyr Baelish pôs uma mão na amurada.

– Mas primeiro vai querer o pagamento. Dez mil dragões, não é?

– Dez mil. – Dontos esfregou a boca com as costas da mão. – Conforme prometeu, senhor.

– Sor Lothor, a recompensa.

Lothor Brune baixou o archote. Três homens aproximaram-se da amurada, ergueram bestas, e dispararam. Um dardo atingiu Dontos no peito quando ele olhou para cima, penetrando através da coroa esquerda de seu sobretudo. Os outros rasgaram a garganta e a barriga. Aconteceu tão depressa que nem Dontos nem Sansa tiveram tempo de gritar. Quando terminou, Lothor Brune atirou o archote para cima do cadáver. O pequeno barco ardia violentamente enquanto a galé se afastava.

Matou-o. – Agarrando-se à amurada, Sansa virou-se e vomitou. Teria fugido dos Lannister para cair em armadilha pior?

– Minha senhora – murmurou Mindinho –, seu pesar é desperdiçado num homem como aquele. Era um bêbado, e não era amigo de ninguém.

– Mas ele salvou-me.

– Ele vendeu a senhora em troca da promessa de dez mil dragões. Seu desaparecimento irá fazê-los suspeitar de seu papel na morte de Joffrey. Os homens de manto dourado irão à caça, e o eunuco fará tinir a sua bolsa. Dontos... bem, ouviu-o. Vendeu-a por ouro e, quando o bebesse, teria voltado a vendê-la. Um saco de dragões compra o silêncio de um homem durante algum tempo, mas um dardo bem colocado compra-o para sempre. – Deu um sorriso triste. – Tudo que ele fez foi às minhas ordens. Não me atrevi a travar abertamente amizade com você. Quando me contaram como Dontos salvou sua vida no torneio de Joff, soube que ele seria o instrumento perfeito.

Sansa sentiu-se enjoada.

– Ele disse que era o meu Florian.

– Por acaso lembra-se do que lhe disse naquele dia em que seu pai se sentou no Trono de Ferro?

O momento voltou-lhe à memória com grande clareza.

– Disse-me que a vida não era uma canção. Que um dia eu aprenderia isso para minha tristeza. – Sentiu lágrimas nos olhos, mas não saberia dizer se chorava por Sor Dontos Hollard, por Joff, por Tyrion ou por si mesma. – É tudo mentira, desde sempre e para sempre, tudo e todos?

– Quase todos. Menos eu e você, claro. – Sorriu. – Venha esta noite ao bosque sagrado, se quiser ir para casa.

– A nota... era você?

– Tinha de ser o bosque sagrado. Nenhum outro local da Fortaleza Vermelha está a salvo dos passarinhos do eunuco... ou ratazaninhas, como eu os chamo. No bosque sagrado há árvores em vez de paredes. Céu no lugar de tetos. Raízes, terra e pedras em vez de assoalhos. As ratazanas não têm por onde correr. As ratazanas precisam se esconder, para que os homens não espetem espadas nelas. – Lorde Petyr pegou-a pelo braço. – Permita que lhe mostre a sua cabine. Teve um dia longo e penoso, eu sei. Deve estar cansada.

O barquinho já não era mais do que um turbilhão de fumaça e fogo atrás deles, quase perdido na imensidão do mar da alvorada. Não havia volta; seu único caminho era em frente.

– Muito cansada – admitiu.

Enquanto a levava para baixo, ele disse:

– Fale-me do banquete. A rainha dedicou-se tanto. Os cantores, os malabaristas, o urso dançarino... o pequeno senhor seu esposo gostou de meus anões combatentes?

– Seus?

– Tive de mandar buscá-los em Bravos e de escondê-los num bordel até o casamento. A despesa só foi excedida pelo incômodo. É surpreendentemente difícil esconder um anão, e Joffrey... pode levar um rei até a água, mas com Joffrey era preciso espalhá-la por todo lado antes que ele entendesse que a podia beber. Quando lhe falei de minha pequena surpresa, Sua Graça disse: “Por que eu iria querer uns anões feios no meu banquete? Detesto anões.” Tive de me aproximar e sussurrar: “Mas não tanto quanto o seu tio os detestará”.

O convés balançou sob os pés de Sansa, e ela sentiu como se o próprio mundo tivesse se tornado instável.

– Eles pensam que Tyrion envenenou Joffrey. Sor Dontos disse que o prenderam.

Mindinho sorriu.

– A viuvez cairá bem em você, Sansa.

A ideia agitou sua barriga. Podia nunca mais ser obrigada a dividir uma cama com Tyrion. Era isso o que queria... não?

A cabine era baixa e apertada, mas tinham colocado um colchão de penas no estreito beliche a fim de deixá-lo mais confortável, e grossas peles foram empilhadas por cima.

– É pequeno, eu sei, mas não deverá ficar muito desconfortável. – Mindinho indicou uma arca de cedro sob a vigia. – Achará roupa lavada lá dentro. Vestidos, roupa de baixo, meias quentes, um manto. Temo que sejam de lã e linho. Vestuário indigno de uma donzela tão bela, mas servirá para mantê-la seca e limpa até que possamos lhe arranjar algo melhor.

Ele mandou preparar tudo isso para mim.

– Senhor, eu... eu não compreendo... Joffrey deu-lhe Harrenhal, fez de você Senhor Supremo do Tridente... por quê...

– Por que haveria de querê-lo morto? – Mindinho encolheu os ombros. – Não tive nenhum motivo. Além disso, estou a mil léguas de distância, no Vale. Mantenha sempre seus inimigos confusos. Se nunca estiverem seguros de quem é ou do que quer, não podem saber o que é provável que faça em seguida. Às vezes, a melhor maneira de confundi-los é fazer coisas que não têm nenhum propósito, ou até que parecem prejudicar você. Lembre-se disso, Sansa, quando começar a jogar o jogo.

– Que... que jogo?

– O único jogo. O jogo dos tronos. – Afastou uma madeixa dos cabelos dela. – Já tem idade para saber que sua mãe e eu éramos mais do que amigos. Houve uma época em que Cat era tudo o que eu desejava neste mundo. Atrevi-me a sonhar com a vida que podíamos ter e os filhos que ela me daria... mas ela era filha de Correrrio, e de Hoster Tully. Família, Dever, Honra, Sansa. Família, Dever, Honra significavam que eu nunca poderia obter a mão dela. Mas ela deu-me algo melhor, um presente que uma mulher não pode dar mais do que uma vez. Como eu poderia dar as costas à filha dela? Num mundo melhor, você poderia ter sido minha, não de Eddard Stark. Minha leal e adorada filha... Afaste Joffrey da cabeça, querida. Dontos, Tyrion, todos. Nunca mais a incomodarão. Agora está em segurança, e isso é tudo o que importa. Está a salvo comigo, e a caminho de casa.

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