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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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      - Deu ordem para que soltassem Arthur, não foi, papai? - perguntou.

      - Não, não, minha filha, temos que levar essa investigação ao fim.

      - Mas tenho certeza que ele é inocente. Sabe o que são os instintos de uma mulher. Sei que ele não fez nada de mal e o senhor vai se arrepender de ter sido tão severo.

      - Por que ficou calado, se é inocente?

      - Quem sabe? Talvez porque estivesse muito zangado de o senhor ter  desconfiado dele.

      - Como poderia deixar de suspeitá-lo, se o vi com meus próprios olhos com a coroa nas mãos?

      - Oh, mas só pegara nela para olhar. Oh, por favor, acredite em mim, sei que é inocente. Deixe isso de lado, não diga nada mais. É horrível pensar em nosso querido Arthur na prisão!

      - Não vou deixar nada de lado até as pedras serem encontradas... nunca, Mary! Sua afeição por Arthur a está cegando quanto às horríveis conseqüências para mim. Em vez de abafar o assunto, trouxe um cavalheiro de Londres para fazer uma investigação mais minuciosa.

     - Esse cavalheiro? - perguntou, virando para mim.

     - Não, seu amigo. Queria ficar só. Está andando pela vereda da estrebaria nesse momento.

     - A vereda da estrebaria? - Ergueu as sobrancelhas escuras. - 0 que espera encontrar lá? Ali, deve ser ele que chega. Espero, senhor, que consiga provar o que tenho certeza, é verdade, que meu, primo Arthur é inocente desse crime.

      - Concordo inteiramente com a senhora e espero, como a senhora, que possa prová-lo - disse Holmes, voltando para o capacho para sacudir a neve dos sapatos. - Creio que tenho a honra de me dirigir à Srta. Mary Holder. Posso fazer-lhe uma ou duas perguntas?

      - Certamente, senhor, se é para ajudar a esclarecer esse horrível mistério.

      - Não ouviu nada à noite passada?

      - Nada, até meu tio começar a falar em voz alta. Ouvi isso, e desci.

      - Fechou todas as janelas e portas a noite anterior. Trancou todas as janelas?

      - Sim.

      - Estavam todas trancadas esta manhã?

      - Estavam.

      - Tem uma empregada que tem um namorado? Acho que comentou com seu tio à noite passada que ela saíra para vê-lo?

      - Sim, e foi ela que nos serviu na sala e que talvez tenha ouvido os comentários de meu tio sobre a coroa.

      - Entendo. Está sugerindo que ela podia ter saído para contar ao namorado e que os dois podem ter planejado o roubo.

      - Mas de que adiantam todas essas teorias vagas - exclamou o banqueiro impaciente - quando lhe disse que vi Arthur com a coroa nas mãos?

      - Espere um pouco, Sr. Holder. Voltaremos a esse ponto. Com respeito a essa moça, Srta. Holder. A senhora a viu voltar pela porta da cozinha, suponho?

      - Sim. Quando fui verificar se a porta estava trancada, encontrei-a entrando sorrateiramente. Vi o homem, também, no escuro.

      - A senhora o conhece?

      - Sim. É o rapaz que traz nossas verduras. Seu nome é Francis

      - Ele estava - disse Holmes - à esquerda da porta, isto é, tinha ido mais longe no caminho do que era necessário para alcançar a porta?

      - Sim.

      - E é um homem que tem uma perna de pau?

Algo parecido com o medo invadiu os olhos escuros expressivos da moça.

      - O senhor é como um mágico - disse. - Como sabia isso? - Sorriu, mas o rosto magro de Holmes continuou completamente sério.

      - Gostaria muito de ir lá em cima agora - disse. - Provavelmente vou querer examinar o lado de fora novamente. Talvez seja melhor olhar as janelas de baixo antes de subir.

        Foi rapidamente de uma a outra, parando apenas na grande janela que dava do hall para a vereda da cocheira. Esta ele abriu, e examinou cuidadosamente o peitoril com a poderosa lente.

      - Agora vamos subir - disse.

        O quarto de vestir do banqueiro era mobiliado simplesmente, com um tapete cinza, uma grande cômoda e um espelho longo. Holmes foi primeiro até à cômoda e examinou a fechadura.

      - Qual foi a chave que foi usada para abri-la? - perguntou.

      - A que meu filho mesmo mencionou, a do armário no quarto que serve de depósito de lenha.

      - E onde está essa chave?

      - É essa que está aí em cima.

        Sherlock Holmes pegou a chave e abriu a cômoda.

      - É uma fechadura silenciosa - disse. - Não é de admirar que não o tenha acordado. Esse estojo, presumo, contém a coroa. Vamos dar uma vista de olhos. - Abriu o estojo e, depositou-o sobre a mesa. Era uma amostra magnífica da arte de joalheria e as trinta e seis pedras, mais lindas que já vi. Em um dos lados da coroa havia um pedaço quebrado, deixando uma beira irregular, onde a ponta que segurava três pedras havia sido arrancada.

      - Bem, Sr. Holder, - disse Holmes - aqui está uma ponta que corresponde à que foi infelizmente perdida. Peço-lhe que tente quebrá-la.

        O banqueiro recuou horrorizado. - Nem pensaria em fazer uma coisa - disse.

      - Então eu mesmo faço. - Holmes exerceu a máxima pressão sobre a ponta, mas nada aconteceu. - Senti que cedia um pouco, - disse - mas, embora tenha uma força excepcional nos dedos, levaria um tempo enorme para quebrar um pedaço. Um homem comum não conseguiria. E então, o que pensa que aconteceria se conseguisse quebrar a coroa, Sr. Holder? Haveria um estalo como um tiro de revólver. Vai me dizer que tudo isso aconteceu a poucos passos de sua cama e que o senhor não ouviu nada?

      - Não sei o que pensar. Tudo está muito obscuro.

      - Mas talvez fique mais claro à medida que prosseguirmos. 0 que a senhora pensa, Srta. Holder?

      - Confesso que estou tão perplexa quanto meu tio.

      - Seu filho não usava sapatos nem chinelos quando o viu?

      - Não usava nada a não ser as calças e a camisa.

      - Obrigado. Na verdade fomos favorecidos com uma sorte extraordinária nessa investigação e será inteiramente nossa culpa se não conseguirmos elucidar o mistério. Com sua permissão, Sr. Holder, continuarei minhas investigações lá fora.

        Saiu sozinho, a pedido seu, pois explicou que pegadas desnecessárias tornariam sua tarefa mais difícil. Trabalhou por uma hora ou mais, voltando finalmente com os pés carregados de neve e as feições impenetráveis como sempre.

      - Acho que vi tudo que há para ver, Sr. Holder - disse. - Posso servi-lo melhor voltando a meus aposentos.

      - Mas as pedras, Sr. Holmes. Onde estão elas?

      - Não posso dizer.

        0 banqueiro torceu as mãos.

      - Nunca mais as verei! - exclamou. - E meu filho? 0 senhor me dá alguma esperança?

      - Minha opinião não se modificou em nada.

      - Mas, pelo amor de Deus, qual foi esse drama que ocorreu em minha casa ontem à noite?

      - Se o senhor pode ir me ver na Rua Baker amanhã de manhã entre nove e dez horas terei o prazer de fazer o possível para tornar tudo mais claro. Entendo que me dá carte blanche para agir pelo senhor, desde que recupere as pedras, e que não há limite para a quantia que tenha de despender.

      - Daria toda minha fortuna para reaver as pedras.

      - Muito bem. Estudarei o assunto de agora até lá. Até logo. É possível que eu tenha de voltar aqui antes de hoje à noite.

         Era evidente para mim que meu companheiro já chegara a uma conclusão, embora não tivesse a menor idéia de qual poderia ser. Várias vezes na viagem de volta à casa tentei sondá-lo nesse ponto, mas ele sempre desviou a conversa para outro assunto, até que desisti. Não eram ainda três horas quando nos encontramos novamente em nossa sala. Foi depressa para o quarto e desceu dentro de poucos minutos vestido como um vagabundo. Com a gola do casaco puído e lustroso levantada, uma echarpe vermelha suja e botas gastas, era um perfeito espécime da classe.

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